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Quer entrar em forma? Desafie seus amigos

Fazer uma dieta em grupo tem vantagens, mas requer cuidados

A partir da esquerda: Angela, Carolina e Fabrício. Novos hábitos na família
A partir da esquerda: Angela, Carolina e Fabrício. Novos hábitos na família
Foto: Ricardo Medeiros

Muita gente sabe que precisa encarar uma dieta e sair do sedentarismo. Mas conseguir fazer esse movimento sozinho pode ser difícil. Melhor contar com alguma companhia. Se é seu caso, que tal chamar a turma para fazer isso “juntos e shallow now”, como diz o divertido “meme” do momento?

Brincadeiras à parte, o fato é que os desafios em grupo vêm dando bons resultados por aí. A vantagem é contar com a motivação da galera para emagrecer, entrar em forma. Só é bom tomar certos cuidados para não fazer dessa estratégia uma competição desenfreada que pode comprometer sua saúde.

“Fazer um desafio em grupo é bom pelo suporte que dá para cada integrante. São pessoas com o mesmo objetivo, compartilhando dificuldades parecida. Um ajuda o outro”, diz a nutricionista Beatriz Gaudio.

Se o grupo estiver alinhado em promover essa ideia, não tem como dar errado, segundo Beatriz. “Ali, os participantes trocam dicas de receitas, mandam fotos de seus pratos de comida, por exemplo”, cita ela.

Muitas disputas envolvem até prêmios para os que alcançarem os melhores resultados. Para Beatriz, porém, ganhar não deve ser o foco de cada um. “O objetivo ali deve ser ensinar as pessoas a comer melhor, a mudar o estilo de vida. Isso de forma leve. Porque tudo feito sob pressão tende a não durar muito. Por isso, o ideal é não ficar mensurando quem é perdedor quem é vencedor. Até porque quem tem mais peso vai perder mais. É importante respeitar a constituição individual”.

Consciência

Mais do que se apegar à competição, a pessoa deve procurar desafiar a si própria. “É preciso ter essa consciência. Não ficar se comparando com os outros e sim consigo mesmo. Se não, sempre vai olhar para o lado e achar que o outro é melhor. E isso pode trazer ansiedade e frustração”, pondera Beatriz.

A endocrinologista Rosina Erthal Villela também vê benefícios em grupos de emagrecimento. “Um dá força para o outro. Nesse aspecto, acho bom. Sempre funciona”.

No entanto, a médica destaca que os desafios precisam ser o pontapé para uma verdadeira mudança de vida. “Eles têm que ser um ‘start’ para todo um processo de reeducação alimentar que tem que durar uma vida toda. Muita gente faz dieta dentro dos desafios e até emagrece mais do que precisa, mas depois volta a comer tudo o que comia antes e engorda de novo”.

Efeito sanfona

Esse vai e vem pode ser prejudicial. “Pesquisas mostram que o chamado efeito sanfona não é saudável. Pode aumentar o risco cardíaco. O melhor é perder peso e ficar estável”, afirma.

Cada pessoa deve saber qual sua meta e seus limites. “Cada organismo responde de um jeito. Fazer uma restrição muito grande para ganhar um desafio pode estimular uma compulsão depois. Dietas que cortam um nutriente são perigosas. A pessoa passa a comer só salada e carne e até emagrece, mas ao custo de um desequilíbrio”, destaca a especialista.

Para Beatriz, antes de entrar nessa onda a pessoa deveria buscar o autoconhecimento. “Muita gente come por ansiedade. De que adianta fazer uma restrição alimentar se ela nem sabe o que a motiva comer ou quais são os atos que a levam a praticar esses hábitos?”.

Depois de descobrir que vivia um transtorno alimentar, três anos atrás, a empresária Carolina Pimentel Junqueira, 32 anos, decidiu procurar ajuda. “Tomei a decisão de mudar minha vida e cuidar da minha saúde, buscar ajuda de profissionais. Fui a uma nutricionista, comecei uma dieta e encontrei na atividade física uma forma de extravasar”, conta ela.

Carolina perdeu 14 quilos e não os recuperou mais. Animada, começou a influenciar quem estava à sua volta. “Saí de uma vida de fast-food para uma vida fit. Amo pizza e hambueguer, mas só como de vez em quando. Minha rotina hoje é saudável. E fui tentar inspirar outras pessoas da minha família a ter essa força de vontade”.

O primeiro alvo dela foi o marido, o funcionário público Fabrício Teixeira, 40 anos. “Eu estava sedentário e vivia um quadro de depressão. O médico falou que eu precisava incluir atividade física na minha rotina. A Carol já fazia isso e passou a me incentivar, a experimentar comidas mais saudáveis”.

Deu certo. Um ano depois de ser desafiado, ele comemora os resultados. “Eu não comia salada crua e acabei gostando. Hoje, ajudo a preparar em casa as marmitas para a semana. Nem sei quanto peso perdi. Mas vi muita diferença nas roupas e perdi a barriga”, relata.

O casal passou a fazer academia juntos, além de sair para pedalar e jogar squash. Tanta animação acabou contagiando a sogra de Carolina, a aposentada Angela Maria Teixeira do Carmo, 67 anos. “Tem um mês que vou malhar com eles. Também fazemos caminhadas juntos na praia. Mudei minha alimentação e passei a comer arroz e pão integrais. Agora estou fazendo a maior torcida para meu marido entrar no esquema”, comenta ela.

ELAS ENCARARAM UMA DISPUTA EM GRUPO EM QUE TODAS SAÍRAM VENCEDORAS

Ellen, Jaqueline e Regina queriam levar uma vida mais saudável, mais ativa, em paz com a balança. O objetivo em comum as colocou em um desafio em grupo que tinha aproximadamente 30 pessoas.

Durante 21 dias, no final de 2018, elas viveram a experiência de compartilhar sua rotina alimentar e de exercícios com toda aquela gente. E cada qual viu um resultado.

“Estava extremamente sedentária havia 12 anos. Eu começava uma atividade e não persistia. Beirando os 40 anos de idade, com dois filhos, vi que precisava me cuidar mais”, conta a farmacêutica Jaqueline Stöckl, 39 anos.

Regina Milanez Garcia, 30 anos, também precisava de um empurrãozinho na rotina. “Já malhava havia quatro anos, mas precisava melhorar. Era final de ano e queria um incentivo maior”, diz ela, que também é farmacêutica e trabalha com Jaqueline.

Da esquerda para a direita: Jaqueline, Regina e Ellen, que participaram do desafio
Da esquerda para a direita: Jaqueline, Regina e Ellen, que participaram do desafio
Foto: Vitor Jubini

A mesma história da contadora Ellen Schneider Ewald, 33 anos, que sentia que devia encarar mais seriamente o exercício. E fez o dever de casa com tanta disciplina que acabou a vencedora do desafio e levando a bolada de cerca de R$ 1 mil para casa.

“Um gás”

“Sou mais competitiva. E um desafio te dá uma vontade de vencer. No final, perdi uns quatro quilos. Mas fui a campeã nem tanto pelo peso, mas porque reduzi muito as medidas. Achei uma experiência ótima. Pretendo até encarar mais vezes, sempre que precisar de um gás”, vibra ela.

As outras amigas também comemoraram suas conquistas individuais. “Também emagreci com o desafio. Foi muito bom! Mas meu objetivo era me fidelizar mais no exercício. E consegui! Quando a gente malha com as amigas, uma disciplina a outra, não deixa a outra desistir. E o desempenho de uma te faz correr atrás de algum desempenho. Vira uma grande troca de experiência. O fato de ver os outros emagrecendo gera a sensação de que eu sou capaz, por menos competitiva que eu seja”, ressalta Jaqueline.

E a motivação não foi embora depois que o grupo se desfez. “Até emagreci mais depois do desafio, pois ele me estimulou a continuar. Não parei”, comemora ela.

O fato de não ter ficado em primeiro lugar não abalou a Regina. Pelo contrário. “Ali acho que ninguém queria necessariamente ganhar do outro. Era um clima de amizade. A gente ia se autodesafiando, pegando um gancho para melhorar a cada dia”, comenta.

A educadora física Thaynara Fumiere, que coordenou o desafio para os alunos do seu estúdio de treinamento funcional, se surpreendeu com o engajamento dos participantes. “O fato de todos terem um propósito em comum foi o que mais os motivou”, afirma ela.

Rotina saudável

Mesmo elegendo três ganhadores, que receberam prêmios, o desafio acabou representando uma vitória para todos. “Não teve ninguém que saiu do desafio sem um resultado bom. Nem eu esperava isso! Muitos mudaram drasticamente o estilo de vida e seguem uma rotina saudável até hoje”, observa Thaynara.

Até quem não estava no desafio acabou sendo afetado de alguma forma. “Minha família toda entrou nessa onda. E consegui até levar minha irmã para o treino”, diz Ellen.

DESAFIE-SE

As vantagens...

Motivação

É um dos principais benefícios dos desafios em grupo. Um incentiva o outro, compartilha vitórias e dificuldades. Essa identificação facilita o engajamento

Dicas úteis

Os participantes trocam dicas sobre alimentação saudável e atividade física. E podem tirar dúvidas com os profissionais envolvidos no grupo

... E os cuidados

Sem comparação

Cada um no grupo deve se desafiar, ou seja, ter a si próprio como referência nas metas e não ficar se comparando com os demais participantes, pois isso pode gerar ansiedade e frustração

Sem radicalismo

Os desafios devem ser o pontapé para a pessoa mudar hábitos de vida para sempre. Assim, dietas muito restritivas, além de não funcionarem a longo prazo, podem trazer outros problemas de saúde

Nova vida

Encare a disputa de forma leve e saudável, aproveitando o aprendizado para mudar o estilo de vida. Reduza o consumo de industrializados, priorize alimentos naturais, e faça atividade física regularmente. Os resultados são aparecer

Acompanhamento

Seguir as dicas dos participantes é válido. Mas busque orientação de um profissional para estabelecer suas metas. Uma pessoa com problemas renais ou com colesterol muito alto não pode comer muita proteína, por exemplo. Faça exames e estabeleça o que é mais indicado para o seu caso

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