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"É preciso que haja menos drama e histeria na educação dos filhos"

Psicoterapeuta Leo Fraiman lança livro em que explica o que é a Síndrome do Imperador" e defende que pais empoderados educam melhor

Pais se descontrolam diante de birra do filho
Pais se descontrolam diante de birra do filho
Foto: Shutterstock

Crianças são encantadoras e alegres. Mas também podem ser desafiadoras, autoritárias, cheias de vontades e, mesmo assim, estarem sempre insatisfeitas. Não se trata apenas de seres mimados. O problema é mais sério, segundo o psicoterapeuta, escritor e palestrante, Leo Fraiman. Elas sofrem - sim, é um sofrimento - do que ele chamada de Síndrome do Imperador.

A síndrome é desencadeada por uma série de fatores, todos ligados à forma como essa criança é criada. Em geral, sem limites. E o tratamento não é só para o pequeno, mas, sobretudo, para seus pais.

“Os pais andam com muito medo, com culpa na educação dos filhos, que acabam ficando na posição alfa na casa”, diz Fraiman, que acaba de publicar um livro explicando como os adultos podem se empoderar e educar melhor seus filhos. “É preciso que haja menos drama e histeria”. Confira o bate-papo.

Por que chamar esse comportamento das crianças de síndrome?

Uma síndrome é um conjunto de sintomas físicos e psíquicos sobre os quais o indivíduo não tem controle e que gera um sofrimento real. Um padrão disfuncional de educação gera efeitos muito sérios, com possibilidade de um aleijamento cerebral.

Como assim um aleijamento?

Existe uma área no cérebro chamada córtex orbitofrontal que é responsável por medir as consequências, executar o planejamento das ações, fazer análises de causa e efeito. É o freio moral da pessoa. Se ela não é estimulada a desenvolver essa área, pode culminar nessa síndrome. O cérebro é desenvolvido da mesma forma que um músculo: por uso e desuso. Não treinar a sensibilidade, a empatia, o foco, entre outras competências é como aleijar, é deixar a pessoa com uma incapacidade séria. Claro que aqui falamos figurativamente, mas os danos ao desuso são sérios.

Quais os sintomas dela?

A pessoa, de fato, não consegue se conter, se motivar, se sentir feliz. Chamo de os dez “is”, que incluem: imaturidade, intolerância, irritabilidade, insegurança, insatisfação, ingratidão, inadequação, incapacidade, instabilidade, imperatividade. É mesmo um déficit no cérebro.

E como chega a esse ponto?

Acontece com crianças que vivem sob um sistema permissivo, mimadas, com pais que ficam dando ‘carteirada’ nos professores porque não toleram uma nota ruim, uma dificuldade, nem que ela sofra a consequência de uma sanção na escola. Então, essa criança corre o risco de se tornar prejudicada na cidadania, no amadurecimento e no empreendedorismo. Já recebi casos no consultório de jovens de quase 30 anos, com duas pós-graduações, que sabem duas línguas, mas não querem assumir nenhuma responsabilidade. Na primeira frustração, se desgovernam pois não sabem se frustrar, nem perseverar.

Qual o perfil dos pais que criam pequenos imperadores?

Tem dois casos. Há pais que tornam filhos imperadores por terem eles próprios um perfil narcisista. Basta ver as fotos deles no Instagram, por exemplo. Só tem fotos do filho, que se tornam um totem narcisístico, o centro da felicitação da família. A felicidade do filho é a felicidade do pai, que passa a querer tudo de bom para o filho, e todo o mundo que se exploda. Ou são pais muito culpados: ‘não tenho como levar meu filho à Disney’, ‘Ah, ele é filho único’. Alguns tiveram uma educação muito severa, eram submissos com os pais e depois se tornaram submissos com os filhos. E a criança assume a posição de alfa da casa. Acontece aí uma tragédia para todo mundo. O problema é que a criança entregue a si mesma está em risco.

É o problema da falta de limites...

Sim, mas não só isso. O limite é uma alegria para o ser humano! O pai ou a mãe, ao dizerem ‘não vai ficar acordado’, está dizendo ‘não’, mas, ao mesmo tempo, dizendo ‘sim’ para no dia seguinte a criança ter saúde e conseguir prestar atenção na aula. Ao dizerem ‘não vai bater no seu irmão’, dizem ‘você vai se dar bem com seu irmão’. O ‘não’ é uma forma de proteção. A questão é também de falta de uma visão maior do que significa educar.

Muitos pais argumentam que só querem ver os filhos felizes...

Aí, é preciso entender a natureza da felicidade. Muitos estudos científicos mostram que o oposto de vício é a virtude, e que a felicidade é a prática cotidiana da virtude. Muitas vezes, o que se vê são crianças viciadas em prazer. Elas batem no pai, xingam a professora porque estão entrando como que em síndrome de abstinência por não aguentarem a frustração. Por isso ficam tão irritadas. É fácil um pai ou mãe acharem que era tão ruim apanhar que só querem que o filho seja feliz. Mas têm que entender o que é a felicidade. Ela tem mais a ver com competências sócio emocionais, como empatia, resiliência, disciplina, autoestima, saber trabalhar em grupo e ter criatividade. Se a criança não desenvolve essas habilidades, a consequência é que ela se torna inábil para lidar com a vida real. Vai ser mais infeliz. Não é missão dos pais fazerem os filhos felizes, e sim criar condição para que eles construam uma vida feliz para si e para os demais. Quando tomamos como exemplo casos de atletas, músicos, cientistas, entendemos que fazer algo bem feito demanda saber enfrentar o difícil, o desagradável e o demorado. Tem pai e mãe extrapolando seu papel, dizendo a professores como devem dar aula ou lidar com indisciplina na escola.

Ainda há famílias que defendem a palmada...

O problema está nos dois excessos. Bater, xingar, gritar só vai ensinar que o caminho da violência é positivo. Mas aceitar qualquer comportamento vai ensinar que a criança pode mandar na casa. Em vez de dar um “tapão” na criança, é melhor segurá-la nos ombros e dizer: ‘Chega! O que nós conversamos sobre isso?’. Existe uma grande diferença entre firmeza e brutalidade. Quando falo nas palestras sobre firmeza, limites e horários, as crianças vêm me agradecer! Os pais mandam mensagens dizendo: ‘meu filho falou que é isso mesmo, que ele gosta quando coloco regras’. Aquele limite que parece duro está preparando a pessoa para o futuro.

Como aplicar isso no dia a dia? Qual a dose do limite?

Tem uma técnica de que gosto bastante, que é a do “colo com mola”. É assim: quando o filho está com uma dificuldade, um problema, o pai pode dizer: ‘Entendo, filho, isso é muito difícil para você. E aí, o que você vai fazer a respeito disso?’. Você tem uma atitude empática, dá valor aos sentimentos da criança ou adolescente, mas tem a mola da autonomia para que ela vá atrás da resolução dos problemas que lhe cabem.

Por que é tão difícil para alguns pais? Quais os erros que eles mais cometem na educação?

Quando, por exemplo, sistematicamente deixam o filho dormir na cama deles. Ou se endividam para satisfazer desejos ou privilégios, sendo que isso não cabe. Eles giram sua vida inteira, feriados, finais de semanas, para fazer agrados e passeios, dar entretenimentos para os filhos. O casal não tem espaço, tudo que se fala, se gasta, se resolve é voltado à criança. E quando eles querem agredir outras pessoas que colocam limites ou impedimentos aos filhos deles. Dessa forma estão criando um filho imperador. E mudar isso aos três anos de idade é mais fácil do que aos 13 ou aos 33, quando entra maconha, bebida, quando o homenino (homem com atitude de menino) já tem carro. Aí, contornar essa situação é mais difícil.

E tem como reverter?

Se os pais sempre criaram o filho de maneira permissiva ou negligente, mudar isso pode levar um ano ou dois. Não adianta só levar filho para terapia. Os próprios pais têm que passar por sessões de orientação familiar, rever combinados, expressar seu papel, suas crenças e atitudes.

O que você pensa da disciplina positiva, tão alardeada hoje em dia?

No mundo ideal, todo pai e toda mãe teria toda uma capacitação para educar os filhos. É tudo muito bonito na teoria, não tem como negar que é positivo. Mas durante um passeio, no calor do momento, um ‘chega, vá para o seu quarto é importante sim’! Fico preocupado quando vejo pais com tanta culpa, com medo. Uma criança não fica traumatizada ou mimada por um ou outro momento. O que determina é quantidade, frequência. É preciso haver um equilíbrio. Porque qualquer técnica que seja eficaz, tem limitações na vida real. Tem hora que o pai vai perder a cabeça, por exemplo se ele está com quatro crianças gritando no carro, e ele atrasado para uma reunião... Não vai traumatizar só porque soltou um ‘Chega, silêncio!’. É preciso que haja menos drama e menos histeria na educação dos filhos. Esse medo é que acaba gerando a culpa, um pai com úlcera, um filho mimado, uma mãe magoada consigo mesmo.

No livro, você fala no empoderamento dos pais. Como seria isso?

Explico cinco atitudes que têm a ver com a palavra ‘poder’. O ‘p’ seria presença: os filhos tendem a respeitar os pais quando eles olham no olho, quando buscam o filho na festa ou, na refeição, não fica o tempo todo ao celular. O ‘o’ é organização. Digo que os pais precisam ajudar o filho a organizar a agenda de atividades dele, dizer a hora de tirar celular do quarto para a criança ter um sono de qualidade, por exemplo. O ‘d’ é de disciplina. A criança vai crescer mais madura se for estimulada a cumprir o que foi combinado, aprender a esperar e a finalizar o que começou. O ‘e’ seria o engajamento, envolver os filhos nas atividades domésticas, de solidariedade, seja com familiares seja com outras pessoas. E o ‘r’ é de resiliência, é o colo com mola, entender o filho, acolhê-lo e cuidar dele na parte emocional, mas não resolver as coisas para ele. É preciso lembrar que quando nascemos, dizemos que a nossa mãe deu à luz. A maior missão de pais e educadores, no meu entender, é contribuir para que cada filho, cada família se conecte com sua luz própria, viva e trabalhe com brilhos nos olhos e ilumine o mundo com sua presença.

 

 

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