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Confira a crônica: "Tudo em casa", de Maria Sanz

"Era uma casa de esquina, de muro baixo e janelas largas, pintada de amarelo claro"

Confira a crônica: "Tudo em casa", de Maria Sanz
Confira a crônica: "Tudo em casa", de Maria Sanz
Foto: Unsplash

Pergunta de abertura, qual é a mãe que ama mais: aquela que arruma o quarto do filho, ou aquela que o faz arrumar?

(Nota: óbvio que para essa pergunta não existe resposta).

Era uma casa de esquina, de muro baixo e janelas largas, pintada de amarelo claro.

No pequeno quintal, havia uma churrasqueira feita de tijolos e uma mesa de ferro branca, com quatro cadeiras de braço, que ficavam debaixo de um pé de carambola.

Ali, a vida passava lenta nas manhãs de domingo e animada nas tardes de sábado.

Serena e Augusto haviam se juntado há menos de um ano e depois de morarem num quarto e sala na Praia do Canto, resolveram fugir da correria constante. Procuraram um bairro mais afastado, arborizado, de ruas calmas e crianças jogando bola, e encontraram a casa perfeitamente bucólica.

Ele, que tocava banjo, organizava serestas que varavam a madrugada; ela, que fazia bolos por encomenda, amava cada ritmo da casa: os passarinhos, o sol da manhã, o cheiro das tardes e o véu da noite que cintilava na grama no quintal, quando se sentavam para fazer fumaça.

A vida seguia como um poema de Drummond. Até uma tarde de quinta-feira, quando Serena passou mal com o cheiro do bolo de laranja, foi até o banheiro, vomitou, depois pagou pra ver: dois tracinhos vermelhos do teste de farmácia.

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Grávida, chorou sentada no chão. Metade, medo purinho, a outra, emoção.

Quando Augusto chegou em casa, encontrou a mulher com a bochecha suja de trigo, descabelada e de olhos inchados. "Eu tô grávida, Guto". Ele a apertou num abraço profundo que dizia tudo sem dizer uma palavra.

Passa marcha. Compra berço, paninho de boca, babador, escolhe a cor, escolhe o nome, divide angústia, aquela história... Nove meses de devir: uma vida nova.

Até que num domingo de manhã a bolsa rompeu e Aurora chegou.

Tão linda, tão serena... Perfeita. Foi o fim das serestas, o fim da fumaça, outro ritmo, outro tipo de festa. As tardes da casa já não tinham cheiro de bolo assando. Só o ronronar preguiçoso da pequena, que mamava no peito, depois dormia lambendo os beiços. E as noites, sem a velha resenha da madrugada. Agora Augusto a levava de carrinho para o quintal e tocava banjo bem baixinho – ela ria, ele babava.

A vida seguia como um poema de Adélia. Até que Aurora completou 8 anos e talvez fosse a hora de mudá-la de escola. Serena e Augusto começaram a pensar na ideia de voltar para um apartamento mais perto de tudo. Sentiam-se incertos, contudo. Não estavam preparados para abrir mão da própria métrica... E passaram a ter dúvidas sobre seguir a banda, ou mostrar como ela toca.

E assim vararam a madrugada conversando sobre o assunto... O desejo de ficar na casa amarela estava entre duas opções: um gasto considerável com condução (e paciência no trânsito); ou manter Aurora na escola do bairro – onde ela queria ficar, mas, supostamente, o ensino era mais fraco.

Por outro lado... Era tudo uma questão de ponto de vista (e aprendizado)... Porque nem sempre o menos difícil é o mais fácil.

Augusto deixou para Serena a palavra final.

Ela, que quando estreou no papel de mãe se descobriu uma filósofa-instintiva, tirou a tarde para pensar e foi até a casa se sua mãe, que morava num prédio antigo do outro lado da cidade. Chegando lá, foi deixando as coisas no sofá e se servindo de café. Quando viu, sua mãe já estava arrumando cada coisa em seu lugar – a bolsa sobre o aparador, os sapatos do lado da porta e o celular na mesa lateral. E foi também cortando pra ela, em cubinhos, um pedaço de bolo de fubá.

Com os cotovelos sobre a mesa, o café fumegando e o bolo cortadinho, Serena se deu conta de que nunca na vida precisou fazer o prato, pegar condução, ou arrumar o quarto. E naquele instante teve certeza de que não faria mal ensinar. Ao contrário.

 

 

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