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Crônica: "Paz dos filhos", por Maria Sanz

"Eu mesma, joguei logo cedo a bússola fora. Segui meus instintos e fiz filhos de um amor que nunca coube em si mesmo, como um balde na chuva"

Confira a crônica escrita por Maria Sanz Martins
Confira a crônica escrita por Maria Sanz Martins
Foto: Unsplash

Ser pai de um povo, mesmo que seja só dois garotinhos, é carregar uma enorme coroa.

É ser um totem, é ter a última palavra, é ser adorado, imitado e glorificado – da cor do carro ao açaí especial, batido com mel e morangos congelados.

Ser pai é ser um rei que não cabe no conto, transborda. É ter em cada gesto, e em cada palavra, uma luneta, uma lanterna, uma espada e uma moldura do planeta. Ser pai é ser-curandeiro, é trazer nos braços a magia e nos olhos a medicina, regenera, restaura, reabilita. Ser pai é ser espelho, orientador, mago, professor, gigantesco e, ainda assim, um simples servo do amor.

Tenho um pai de quem tem sorte. Nasci com um lar farto e macio em outro peito. E herdei dele a essência do amor por tudo que há de bom, a começar pela justiça das coisas. E assim sendo, mesmo sem ter feito as contas, desejo aos meus filhos o mesmo: um homem-espelho, um guia pelo caminho do meio, um sábio do amor – ainda que sem instrumentos.

Eu mesma, joguei logo cedo a bússola fora. Segui meus instintos e fiz filhos de um amor que nunca coube em si mesmo, como um balde na chuva. E de tanto não caber no nosso querer, sobramos. Fizemos planos gigantes, domingos de festa e uma família inteira. (É, sempre fomos à beça.)

Transmutamos. Agora temos nos filhos uma promessa de honra: sermos melhores do que somos por aqueles que antes, e depois de tudo, mais amamos.

Eles, dois moleques, homens do futuro. Nós, pai e mãe que antecedem a mulher e o homem. Um rei e uma rainha em castelos diferentes (e tudo bem). Aliás, sendo inteligentes, pode ser melhor ainda! Mais geladeira, mais travesseiros, mais amigos, mais beijos, tudo em dobro. Claro, tudo isso depende da gente. Depende da sabedoria-necessária-contemporânea: que o amor quando se divide, se multiplica. (Obrigada, comadre).

Então sejamos grandes! Doemos paz àqueles que sorriem por causa de um picolé de milho verde. E agradecem com os olhinhos o nosso cafuné. E usam pijamas de super-heróis, mas não entendem as maldades do mundo. Fazem guerra de almofadas, mas não almejam vitória, é tudo pela gargalhada... Doemos paz àqueles que acreditam em tudo que a eles dissermos – porque a língua que eles operam é a mais simples do mundo, chama-se 'amor-sincero'.

A paz dos filhos depende do pai e da mãe: somos instrumentos. Um meio, um mecanismo. Portanto, sempre que um puder ajudar o outro, vira um comando. Simples assim.

Nossos filhos são as sementes mais preciosas de todo canteiro. Precisam ser regadas diariamente com atenção e confiança; merecem proteção dos vendavais mundanos e, sobretudo, preservadas do escuro de nossos calabouços humanos.

Finalmente, pais e mães do mundo inteiro, sejamos grandes! Entendamos que os erros não passam de pontes entre dois acertos. Sigamos para o alto e avante, como uma dupla brilhante, em nome da essência dos frutos, da paz dos filhos que fizemos juntos.

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