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Repetição de secas no norte do ES é alerta sobre mudanças climáticas

Em passagem pelo Estado, climatologista fala sobre as metas de emissão de carbono e como o Acordo de Paris também é aliado da atividade agrícola

Desmatamento: sem floresta, carbono das emissões vai direto para atmosfera
Desmatamento: sem floresta, carbono das emissões vai direto para atmosfera
Foto: Agência Brasil | Arquivo

Em passagem pelo Espírito Santo, onde participou do lançamento do Fórum Capixaba de Mudanças Climáticas, Carlos Nobre, climatologista e pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP, fala que Norte capixaba pode ser afetado diretamente pelo aquecimento global se tornando uma área com todas as características de semi-árido se a redução de emissões de gases do efeito estufa não for reduzida. Em entrevista à Rádio CBN Vitória, ele também alerta que a condução das metas do Acordo de Paris, preservação de florestas como a amazônica e reflorestamento devem ser feitos com muita responsabilidade, pois até mesmo cidades litorâneas podem se tornar inabitáveis com aumento da temperatura. 

"Emissões de gases do efeito estufa, principalmente do gás carbônico, no Brasil, vem das queimadas, historicamente. Nós vinhamos reduzindo os números de desmatamento da Amazônia e, muito do Cerrado, até 2014 e agora vemos um recrudescimento. A floresta absorve muito carbono, sem ela isso vai para atmosfera. E isso é muito grave, como a possibilidade de combater as mudanças climáticas", explica.

Questionado sobre o Acordo de Paris e suas consequências para atividades econômicas ligadas à agricultura, ele fala que o efeito é de proteção, não de proibição. "O Acordo de Paris protege a agricultura, principalmente em países tropicais. Estamos no limite da atividade agrícola. A maior parte da cultura de grãos e de atividade bovina não suportam esse calor. Se nós não tivermos o Acordo de Paris esquece o Brasil como potência agrícola. Vamos nos tornar um país de baixa produtividade. No Cerrado, por exemplo, aumentar alguns graus, a produção despenca. Não é uma queda, mas despenca. O Acordo é essencial para continuar como um país importante para a segurança alimentar do mundo".

Carlos Nobre também analista como o aumento da temperatura, impacta o Espírito Santo.

"Quando olhamos os últimos anos, as temperaturas estão aumentando no Brasil e também no Espírito Santo. É claro que numa região costeira, como o oceano aquece mais devagar, o efeito é menos notado. Vitória, por exemplo, o aumento da temperatura é menor do que em outra longe da costa, no centro do Brasil. O problema é a intensificação dos extremos, pois quando comparamos uma seca severa que acontece no Espírito Santo notamos que ela se repete mais do que antes dos últimos 50 anos. Secas se repetem no Estado, principalmente no norte capixaba. Nas modelagens feitas, essa região se torna semi-árido: vai perder a Mata Atlântica que ainda existe, por exemplo. Temos que botar o pé no freio. O Brasil tem potencial para ser um dos grandes países a zerar emissões antes de 2050, se nós fizermos tudo com responsabilidade. Cidades costeiras, úmidas e quentes, podem se tornar inabitáveis.

Carlos Nobre, que construiu sua carreira na área científica no Inpe também fala sobre o monitoramento de satélite das áreas de queimadas e desmatamento. "A indicação das áreas é em tempo real", frisa. Ouça a entrevista:

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