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A canonização de Irmã Dulce pelo olhar de missionária capixaba

Maria Amélia Reuter, 54, está há quatro dias em Roma para presenciar a canonização da primeira santa brasileira, Irmã Dulce dos Pobres. Ela afirma que o momento é de emoção e agradecimento.

Maria Amélia Reuter, 54, missionária devota de Irmã Dulce, que acompanhou a canonização da primeira santa brasileira
Maria Amélia Reuter, 54, missionária devota de Irmã Dulce, que acompanhou a canonização da primeira santa brasileira
Foto: Maria Amélia Reuter

“Foi o momento de me interiorizar, rezar e agradecer a Deus. Agradecer a Deus por ela estar ali, mas também por eu estar ali”. É dessa forma que a missionária Maria Amélia Reuter Mota Carreira, 54 anos, descreve a sensação de estar presente na canonização da primeira santa brasileira, a Irmã Dulce dos Pobres. A cerimônia foi realizada neste domingo (13), no Vaticano, na Itália. Para a missionária a emoção desse momento começou muito antes, ainda na preparação da viagem.

“A emoção começou quando eu consegui me programar, dar tudo certo pra eu chegar até aqui. Depois a vivência desses dias, tem 4 dias que eu estou aqui, então encontrar com as pessoas, conversar, de ver como foi a preparação a praça. Uma mulher brasileira, da Bahia que a minha família conheceu, podia dizer assim, a minha avó dizia que pegou na mão. A foto dela, pendurada na basílica, no ponto mais alto da fé da nossa igreja então… um testemunho lindíssimo!”, afirma Maria Amélia.

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Ela afirma que hoje acordou cedo, às quatro da manhã na Itália, para conseguir um bom lugar na Praça São Pedro, no Vaticano. O desejo de acompanhar de perto esse momento vem de uma admiração antiga por Irmã Dulce, que começou ainda na infância. A avó de Maria Améria trabalhou nas Obras Sociais Irmã Dulce (Osid), em Salvador (BA).

Durante esses dias Maria amélia conheceu muitas pessoas que, assim como ela, são devotos de Irmã Dulce. Indianos, ingleses, brasileiros de várias regiões do país e conterrâneos. Ela conta que conheceu um casal de Jardim da Penha, que também pretendia acompanhar a canonização da santa brasileira.

Fiéis acompanhando a canonização de Irmã Dulce dos Pobres - primeira santa brasileira
Fiéis acompanhando a canonização de Irmã Dulce dos Pobres - primeira santa brasileira
Foto: Maria Amélia Reuter

“Por incrível que pareça eu encontrei sim com capixabas. Não foi na hora da canonização, foi na sexta feira a noite, no ponto de ônibus. De repente a gente se descobriu amigos dos mesmos amigos. Nunca imaginei encontrar capixabas, tudo festa, muita festa”.

A missionária, que também esteve na beatificação de Irmã Dulce, em Salvador em maio de 2011, afirma que o sentimento de agora é diferente. “A beatificação foi no Brasil, chovia muito, muito, muito. Minha mãe foi comigo, meu pai não pôde ir, ficou no hotel, porque ele já não estava com a saúde tão boa, mas estava ali presente também. Então foi uma emoção diferente no sentido de que foi muito compartilhada. A canonização é uma resposta que é dada para a igreja inteira, a beatificação é mais local, a canonização não, é da igreja universal. Hoje a Irmã Dulce é santa pra igreja do mundo, pra todos nós católicos do Brasil e em qualquer lugar do mundo”.

Irmã Dulce será canonizada neste domingo no Vaticano
Irmã Dulce será canonizada neste domingo no Vaticano
Foto: G1

QUEM FOI A IRMÃ DULCE

A Irmã Dulce nasceu em 26 de maio de 1914, em Salvador, e foi batizada Maria Rita de Souza Brito Lopes Pontes. O interesse pela vida religiosa começou a se manifestar já no início da adolescência quando , aos 13 anos, já atendia doentes no portão de sua casa. Em 1933, ela ingressou na Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus, no Convento de Nossa Senhora do Carmo, em São Cristóvão (Sergipe). No mesmo ano, recebe o hábito e adota, em homenagem à sua mãe, o nome de Irmã Dulce. Em 1935, ela inicia um trabalho assistencial nas comunidades carentes.

OBRAS SOCIAIS

As Obras Sociais Irmã Dulce (Osid) abrigam atualmente um dos maiores complexos de saúde com atendimento 100% gratuito do Brasil, com cerca de 3,5 milhões de procedimentos ambulatoriais realizados por ano na Bahia. Entre o público atendido pela instituição filantrópica, estão pacientes com câncer, idosos, pessoas com deficiência, crianças e adolescentes em situação de risco social, dependentes químicos, pessoas em situação de rua e demais usuários do Sistema Único de Saúde (SUS). Fundada em 26 de maio de 1959 por Irmã Dulce, a organização conta com um perfil de serviços distribuídos em 21 núcleos que prestam assistência à população de baixa renda nas áreas de saúde, assistência social, pesquisa científica, ensino em saúde, ensino fundamental e na preservação e difusão da memória da freira.

PROCESSO DE CANONIZAÇÃO

A causa da Canonização de Irmã Dulce foi iniciada em janeiro de 2000. Em abril de 2009, o Papa Bento XVI reconheceu as virtudes heroicas da Serva de Deus Dulce Lopes Pontes, autorizando oficialmente a concessão do título de Venerável à religiosa. O título é o reconhecimento de que Irmã Dulce viveu, em grau heroico, as virtudes cristãs da Fé, Esperança e Caridade. Já em outubro de 2010, a Congregação para a Causa dos Santos, através de seu colégio de cardeais e bispos, atestou a autenticidade do primeiro milagre atribuído à Irmã Dulce, cumprindo, dessa forma, a última etapa do processo de beatificação.

MILAGRES E BEATIFICAÇÃO

O primeiromilagre ocorreu na cidade de Itabaiana, em Sergipe, quando, após dar à luz seu segundo filho, Gabriel, em 11 de janeiro de 2001, Claudia Cristina dos Santos sofreu uma forte hemorragia, durante 18 horas, tendo sido submetida a três cirurgias na Maternidade São José. Diante da gravidade do quadro, o obstetra Antônio Cardoso avisou a família que apenas “uma ajuda divina” poderia salvar a vida de Cláudia. Em desespero, a família da miraculada chamou o padre José Almí para ministrar a unção dos enfermos. O padre, no entanto, decidiu fazer uma corrente de oração pedindo a intercessão de Irmã Dulce e deu a Cláudia uma pequena relíquia da freira. A hemorragia cessou subitamente. O caso de Cláudia foi analisado por dez peritos médicos brasileiros e seis italianos. Segundo o médico Sandro Barral, um dos integrantes da comissão científica que analisou o milagre, “ninguém conseguiu explicar o porquê daquela melhora, de forma tão rápida, numa condição tão adversa”.

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O milagre passou por três etapas de avaliação: uma reunião com peritos médicos (que deram o aval científico), com teólogos, e, finalmente, a aprovação final do colégio cardinalício, tendo sua autenticidade reconhecida em todos os estágios. Já no dia 10 de dezembro de 2010, o Papa Bento XVI autorizou a promulgação do decreto do primeiro milagre. Irmã Dulce foi então beatificada no dia 22 de maio de 2011, em cerimônia realizada no Parque de Exposições de Salvador. Ela passou a se chamar Bem-Aventurada Dulce dos Pobres, tendo o dia 13 de agosto como data oficial de celebração de sua festa litúrgica.

No dia 13 de maio deste ano, o Papa Francisco promulgou um decreto reconhecendo a autenticidade de um segundo milagre atribuído à intercessão de Irmã Dulce, cumprindo-se assim a última etapa do processo de canonização da beata. Trata-se da cura da cegueira de José Maurício Moreira, 50 anos. Ele teve, aos 22 anos, o diagnóstico de um glaucoma muito sério, descoberto tardiamente e já em estado avançado. O tratamento, que durou dez anos, não foi suficiente para impedir que o nervo ótico – responsável pela comunicação com o cérebro – fosse destruído. Desse modo, na virada do ano de 1999 para 2000, ele ficou totalmente cego de ambos os olhos e assim permaneceu por 14 anos. Em 2014, Maurício teve uma conjuntivite muito grave e, sofrendo com fortes dores, pegou a imagem de Irmã Dulce que pertencera a sua mãe, a colocou sobre os olhos e, com muita fé, fez uma oração pedindo a intercessão da irmã para que aliviasse as dores daquela inflamação. Ao acordar, Maurício percebeu então que tinha voltado a enxergar. O segundo milagre validado pelo Vaticano também passou por três etapas de avaliação.

Irmã Dulce, reconhecida por seu trabalho social, será canonizada no dia 13
Irmã Dulce, reconhecida por seu trabalho social, será canonizada no dia 13
Foto: Divulgação/OSID

PROGRAMAÇÃO

A programação da canonização segue com a realização, no dia 14 de outubro, da primeira missa em honra da Santa, às 10h, na Basílica Sant’Andrea della Valle, localizada em Corso Vittorio Emanuelle II, em Roma (Itália). A celebração será presidida pelo Arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil, Dom Murilo Krieger. Para participar da missa do dia 14, não é necessário ingresso.

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