"Um corpo não deve ser tratado apenas como uma montanha de gordura"
De forma despretensiosa, a jornalista e DJ paulistana idealizou o maior evento plus size do país e um dos maiores do mundo, reforçando a função social da moda e estimulando a demanda por inclusão
No final de 2012, a jornalista e DJ paulistana Flávia Durante, 41, resolveu comprar alguns biquínis direto de uma fábrica no Guarujá, no litoral paulista, para revender a mulheres que, como ela, tinham dificuldade em encontrar peças em tamanho grande. A intenção era reforçar a renda de final de ano, mas mal sabia Flávia que a atitude seria o primeiro passo para sua trajetória como empreendedora social.
As tais peças de moda praia fizeram com que a jornalista tivesse a ideia de organizar um bazar para ajudar a vender também itens de outras marcas plus size mais modernas. Nascia ali a Pop Plus, maior feira de moda e cultura plus size do Brasil e um dos maiores eventos do segmento no mundo. No último final de semana, na última edição do ano, a feira reuniu cerca de 18 mil pessoas em uma área de eventos na Avenida Paulista. No total, apenas em 2018, 54 mil pessoas circularam por ali.
Em seis anos, Flávia passou a reunir quatro vezes por ano dezenas de marcas dos mais diferentes estilos, para homens e mulheres que vestem acima do tamanho 46, além de estimular debates acerca de questões que estão muito acima da moda: o discurso agressivo e o preconceito com pessoas gordas em geral, a chamada gordofobia, e o quanto isso influencia na vivência e no acesso a coisas básicas do dia a dia.
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Como foi a sua transição do jornalismo para a produção do Pop Plus?
Eu trabalhei 20 anos em redação, atuei em assessoria, fiz de tudo um pouco nessa área. Peguei aquela fase em que a internet estava começando, e peguei também a fase em que a comunicação começou a ficar ruim das pernas, principalmente aqui em São Paulo, quando começaram a demitir muitos jornalistas. Nessa fase, o Pop Plus estava começando a engrenar. Eu dei sorte porque não fiquei parada, fiz uma transição muito tranquila. Tive minhas dúvidas e inseguranças, achei que não daria certo, mas entrei de cabeça e são quase três anos que vivo praticamente só do Pop Plus. Nunca deixei de ser comunicadora, tenho um blog no Uol, escrevo sobre essas questões todas (moda plus size e gordofobia), e também faço alguns freelas de conteúdo, mas o meu foco mesmo é o Pop Plus.
E quando se deu conta de que havia uma questão social por trás do Pop Plus?
Eu entrei nesse meio de uma forma despretensiosa. A minha questão era biquíni, ter roupa para usar na praia, ter roupa de noite para badalar em São Paulo... mas para muita gente ainda falta o básico. Tem gente gorda que não tem uma calça jeans e uma blusa básica. Passei a ter empatia com mulheres com dificuldades maiores que a minha. Eu visto 52/54, encontrava coisas antiquadas, sem o meu estilo, mas ainda conseguia usar algo. Tem gente que não conseguia encontrar nada, principalmente os que vestem acima do 54, por aí. Já recebi mensagens de mulheres que têm um vestido e uma calça, apenas. Quando uma peça está lavando, usa a outra, e vice-versa. Outras pessoas chegam a se vestir com lençol ou canga. Isso é muito sério. É um ciclo: a pessoa não tem roupa, não consegue um trabalho, não tem dinheiro para comprar roupa, isso inviabiliza a convivência em sociedade... É um ciclo difícil de ser quebrado e onde entra a questão do preconceito em geral.
Você já disse em outras oportunidades que a pessoa gorda é a última na fila da empatia, porque até mesmo os grupos minoritários fazem um discurso problemático...
Ah, a gente vê uma discriminação muito grande, principalmente no meio LGBT. Quando a Britney Spears ou a Mariah Carey aparecem um pouco acima do peso rola um festival de memes, de avacalhação. Isso fere muito as pessoas mais sensíveis em relação ao tema. Acho que é necessário ter empatia também em relação a isso. Parece que tirar sarro do gordo é permitido o tempo inteiro. Vemos gente intelectualizada falar besteira sem a menor preocupação na frente de todo mundo. Dia desses a Carolina Dieckmann participou do “Altas Horas” e começou a falar sobre o casamento dela, dizendo que “não queria ser uma noiva gorda, obesa, vestindo branco” e outras coisas parecidas. Pelo vídeo, deu para perceber que ela quase chegou a falar “baleia”, “porca”, alguma coisa desse tipo, uma palavra bem ruim em plena TV aberta. É um programa editado e isso foi ao ar, mas você vê que a reação das pessoas já não é de dar risadinha mais. Muitas pessoas já ouvem uma coisa dessa e falam “nossa!”. O próprio Serginho amenizou o fato, enfim.
Mas muitas pessoas ainda relacionam a questão da obesidade a doenças, usam o argumento do emagrecimento em prol da saúde, apenas... Como funciona isso para você?
Olha, depois que me aprofundei nessas questões conheci linhas de estudo de nutricionistas, médicos e pesquisadores que pregam que todos os corpos devem ser tratados do mesmo jeito. Um corpo não deve ser tratado como número ou como uma montanha de gordura, uma bomba-relógio. Todos devem ser tratados da mesma forma, e não se deve chegar para uma pessoa falando que ela é gorda e por isso está prestes a morrer. Hoje em dia é sabido que ninguém mais tem a saúde perfeita, por conta de correria do trabalho, do dia a dia, do estresse das cidades grandes. Todos estão sobrecarregados, mas a culpa cai sobre o gordo. Ah, então o magro não fica doente? O magro não morre? Isso gera uma ansiedade e transtornos maiores do que o fato de a pessoa ser gorda. Pense em uma pessoa gorda, de boa, que come bem, se exercita, vive bem. Chega alguém martelando que ela é horrível, doente, preguiçosa, incapaz, fedida, suada, feia... daí para baixo. No mínimo ela vai ter um problema psicológico.
De que maneira a moda contribuiu para que você abrisse a cabeça para essas questões?
Me trazendo esse lance de ver a mulher amando o próprio corpo, mas sobretudo quando notei a questão da acessibilidade. No Pop Plus, vi adolescente de 13 anos comprando roupa e chorando ao experimentar uma peça que lhe cabia. Um vestido simples. Ali é um ambiente de empatia, de acolhimento. Ninguém a olhou de cima para baixo e saiu dizendo de antemão que “ali não era o lugar dela”, ou simplesmente “aqui não tem roupa para você”, como costuma acontecer em muitas lojas. Nas edições da feira eu vejo muitos casos parecidos. Em um deles, tinha um casal visitando e todos nós sabemos que os maridos geralmente não têm muita paciência para acompanhar as mulheres. No final da passagem deles por ali, o marido foi me abraçar e me agradecer pelo evento, porque a esposa vivia triste e infeliz, com a autoestima baixa e que as coisas melhoraram depois que ela encontrou roupas do jeito que queria, que encontrou influenciadores, participou de debates ali. Ele disse que estava muito grato, ela também me abraçou, se emocionou. É muito legal porque por meio desse empurrão da moda, a vida das pessoas muda de várias formas.
Quando passou a enxergar que a moda podia tornar um ambiente inclusivo?
Eu mesma antigamente pensava na moda como algo fútil. Sempre fui muito da cultura, da música, e esnobava um pouco, achava que era besteira. Depois entendi a moda como pertencimento, como identificação, identidade cultural e principalmente como expressão da sua própria personalidade. A partir do momento em que um gordo é obrigado a se vestir apenas de preto ou escuro, é negada a ele a expressão da sua personalidade. E agora, muitas pessoas já conseguem isso. Por isso, passei a entender melhor o papel da moda e a importância desse movimento.
Qual é o maior desafio na organização do Pop Plus Size?
Ser levada a sério, sem dúvida. Muita gente no início achou que era brincadeira, que era exótico, “ah, olha lá o evento das gordinhas”, acha que é só bonitinho. Não veem que estamos fazendo um evento grande, que gera empregos e renda para famílias, traz gente do Brasil inteiro a São Paulo. É um dos maiores eventos do mundo no ramo. Hoje, quando chegam e veem, já enxergam com outra proporção. O desafio inicial era esse: ser vista com respeito. Tem jornalista de moda que tira sarro até hoje, por exemplo. Mas vejo coisas assim e tento não dar moral. Nós criamos nosso próprio espaço, é um negócio para valer, penso que está rolando, está acontecendo.
Hoje em dia já existem outros eventos parecidos no Rio e em outros Estados. Como vê essa tendência?
Eu vejo com muitos bons olhos, porque não tenho como chegar a todos os lugares. O Pop Plus ainda é um evento independente, então é importante que ele inspire outras pessoas a fazerem em suas regiões. Tudo vai crescendo aos poucos também... Nós não começamos na Avenida Paulista, antes era em um galpão pequeno. Se cada meia dúzia se juntar e reunir marcas plus size locais, isso gera movimentos regionais importantes. Precisamos ser vistos como consumidores, fashionistas e influenciadores, mas acima de tudo como gente merecedora de respeito também.
E como mudar essa mentalidade das pessoas que insistem em enxergar o gordo apenas como um problema?
Eu acho, sinceramente, que tem que ser um trabalho feito nas bases, com as crianças. Os pais que têm cabeça mais aberta já educam a criança com autoestima para olhar para o seu próprio corpo de uma forma mais positiva. É difícil consertar adultos com uma cabeça preconceituosa. Não é impossível, mas é muito difícil. Acho que não devemos gastar energia com quem fala besteira na internet, por exemplo. É muito mais interessante nos mobilizarmos, tenho visto rodas de conversas em colégios, universidades, tenho feito muitas palestras e até participado de bancas de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) sobre moda, corpo, diversidade. É um caminho muito bom a ser trilhado por meio dos jovens. Existem muitos casos em que a paranoia já começa dentro de casa, com a família que maltrata a pessoa dizendo que a filha ou o filho “parece uma baleia”, que a pessoa não vai se relacionar se continuar gorda. Precisamos parar com isso. No futuro, isso traz adultos paranoicos, com a cabeça estragada mesmo. Precisamos preparar uma educação responsável nesse sentido.