Livro "pornográfico" faz pai processar professora da rede estadual

Por conta da obra "Kitty aos 22: Divertimento" , escrita por Reinaldo Santos Neves, foi alvo (mais uma vez) de controvérsia

Publicado em 26/10/2017 às 08h46

Atualizado em 27/10/2017 às 08h49

“De novo?!”, indaga o escritor Reinaldo Santos Neves ao saber que “Kitty aos 22: Divertimento”, obra publicada em 2006, está – mais uma vez – sendo considerado imprópria para adolescentes. O mesmo aconteceu há alguns anos, quando o livro foi adotado para o vestibular da Ufes nos processos seletivos dos anos de 2012 e 2013.

À época, a história da jovem patricinha Kitty, de 22 anos, moradora da Mata da Praia e estudante de jornalismo, já havia gerado controvérsias por levar em seu texto palavrões e passagens que abordam baladas, sexo e outras situações típicas de jovens em seus primeiros passos rumo à vida adulta.

Foto:Gildo Loyola

Desta vez, a polêmica se passou no início do mês em uma escola da rede estadual de Vitória. Tudo aconteceu quando uma professora de Português indicou “Kitty aos 22” para alunos do 1º ano do Ensino Médio. “Aí recebi uma notificação do Ministério Público”, explica a professora, que optou por não identificar seu nome ou da escola que leciona.

O autor da denúncia foi Roberto Xavier, pai de uma adolescente que era aluna da professora. “Para uma pré-adolescente, esse livro não é adequado em sala de aula”, opina o funcionário público. “Há tanta literatura que a professora podia colocar, pra que justamente essa? Para induzir o jovem à sexualidade?”, questiona Roberto.

A palavra que o livro fala é para homens formados. Isso é inadmissível dentro da sala de aula de uma adolescente”
Roberto Xavier, pai da adolescente

A professora justifica a escolha: “O adotei porque acho um livro divertido, que tem uma linguagem flexível para o aluno”, explica ela, acrescentando um outro fator que, ao seu ver, aguçaria o interesse dos alunos para a obra.

“Eles nunca ouviram falar de um livro que se passasse em Vitória. O aluno se identifica com o lugar em que mora. Por exemplo, a obra fala do Parque Moscoso, no Centro, e é algo próximo deles”, reforça.

Para Reinaldo, mais do que a linguagem flexível e ter como pano de fundo a cidade onde esses alunos vivem, “Kitty aos 22” é um romance sobre jovens. 

Não sei nem o que dizer sobre essa situação. Não sei encarar uma coisas dessas. Os dias de hoje... É um obra literária, pô!
Reinaldo Santos Neves, escritor

“O livro fala deles, sobre eles e sobre as coisas deles, como as músicas de que gostam”, explica o autor, entendendo que essa proximidade pode ser benéfica para eles.

“É um incentivo à leitura. Ao invés de os obrigar a ler obras que não têm nada a ver com eles e que, por mais que tenham qualidade literária, estão distante deles. O próprio Machado (de Assis) está mais distante deles do que ‘Kitty’”, reforça o escritor, autor de livros como “Reino dos Medas”, “Sueli: romance confesso” e a trilogia “A Folha de Hera”.

“Pornografia”

Antes de recorrer ao Ministério Público do Espírito Santo (MPES), Roberto Xavier afirma ter lido “Kitty aos 22: Divertimento”. Para ele trata-se de uma obra pornográfica. “Ela induz o adolescente a um caminho que pode ser preservado”, explica o pai, que até já retirou a filha da escola, mas pretende manter a ação.

Quem defende a obra é o escritor e editor Saulo Ribeiro. Para ele, o processo do pai é ilógico. “Mesmo que o livro não tivesse a relevância que tem, isso é um absurdo”, diz ele, relembrando a indicação ao Vest Ufes e que o título de Reinaldo já foi contemplado no edital de compras da biblioteca da Sedu.

Por mais que a obra se debruce sobre a vida e o dia a dia de jovens, o escritor reconhece que há, em seu romance, um certo moralismo. “No sentido de tentar converter os jovens para uma vida de mais significado”, diz.

Procurado pela reportagem para comentar a situação, o Ministério Público do Estado do Espírito Santo (MPES) informou que, por meio da Promotoria de Justiça Cível de Vitória, que “abriu o procedimento para apurar o em caso em tela”.

ANÁLISE

Vivemos tempos sombrios

Reinaldo Santos Neves é um patrimônio cultural do Espírito Santo, uma referência quando se trata da literatura feita com o compromisso na originalidade, conteúdo e pesquisa. Um dos autores mais sofisticados do país. “Kitty aos 22 – Divertimento” traz uma visão seca da juventude contemporânea. Me perdoem o espoiler: é a releitura da clássica história da gata borralheira. Uma jovem passando pelo dolorido processo de amadurecimento. Estamos presenciando tempos sombrios. O ser humano nasce nu e isso nunca foi um escândalo. O próximo passo será fazer fogueiras de livros em praças pública?

Sérgio Blank

Escritor

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