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"Extraordinário" encanta e emociona sem pesar a mão no drama

Filme mostra como uma criança com uma síndrome rara consegue mudar a vida de todos ao seu redor

Filme traz Owen Wilson, Jacob Tremblay e Julia Roberts
Filme traz Owen Wilson, Jacob Tremblay e Julia Roberts
Foto: Paris Filmes/Divulgação

“Extraordinário”, que estreia quinta-feira (7) no Estado, tinha tudo para ser um daqueles filmes piegas insuportáveis, adaptação de best-seller feita à medida para arrancar as lágrimas do espectador e, assim, conquistar seu público, mas talvez o diretor Stephen Chbosky não tenha recebido o memorando. Gabaritado pelo belíssimo “As Vantagens de Ser Invisível” (2012) (outro livro de sucesso), o cineasta conseguiu criar uma história que, claro, emociona, mas também diverte e até encanta quem assiste a ela.

O filme leva para as telas o livro homônimo de R. J. Palacio e acompanha a história de Auggie Pullman, uma criança de 10 anos que sofre com a síndrome de Treacher Collins (o que causa uma grave deformação facial), no momento em que ele está trocando a educação em casa pela escola pública.

O início não é fácil. O jovem sofre bullying e sua chegada causa estranhamento a todos, mas Auggie não se afeta, pelo contrário; a magia que o cerca acaba contagiando colegas e até professores que o cercam – algo por que sua família passa desde seu nascimento.

CLICHÊS

Como a premissa indica, “Extraordinário” poderia ser uma sucessão de clichês dramáticos (que até

O jovem Auggie leva amor a todos que o cercam
O jovem Auggie leva amor a todos que o cercam
Foto: Paris Filmes/Divulgação

 existem) ou uma história de superação que faria sucesso nos grupos de WhatsApp da família, mas ele vai bem além disso.

‘As atuações do trio principal – Julia Roberts, Owen Wilson e o pequeno Jacob Tremblay (“O Quarto de Jack”) – elevam o nível da obra e a colocam em um patamar acima de seus pares. Para completar, Stephen Chbosky, como já havia mostrado em “As Vantagens de Ser Invisível”, lida dos temas mais sérios com delicadeza e sem pesar a mão.

Grande parte da força de “Extraordinário” está em sua narrativa construída sob muitas perspectivas, uma escolha também presente no livro, mas ousadamente mantida por Chbosky e os roteiristas Jack Thorne e Steve Conrad.

O filme tem início com o ponto de vista de Auggie, mas logo ganha novos contornos quando outras visões surgem em tela, o que acontece com frequência durante as quase duas horas de projeção.

O recurso, que em outros filmes serve apenas como estilo e cansa pela repetição, aqui funciona como maneira de aprofundar o público nas histórias de cada personagem e em seus dramas pessoais. O resultado é tudo o que um filme do gênero precisa ter: despertar empatia.

ELENCO

Sem excessos, Julia Roberts e Owen Wilson vão muito bem como os pais de Auggie. Os dois possuem boa química e o amor de seus personagens pela criança é comovente.

Izabela Vidovic, como Via, irmã de Auggie, também chama a atenção. É interessante como outros textos poderiam criar a irmã carente por atenção, mas o livro e o filme se preocupam mais em mostrar o amor fraternal entre os dois. Também merecem destaque Danielle Rose Russell, como a melhor amiga de Via, e Noah Jupe, que vive Jack, o primeiro colega de escola com quem Auggie cria um vínculo especial.

Mas é claro que o destaque do filme é Jacob Tremblay. O protagonista cativa a todos e emociona sem fazer força – nem a prótese facial e toda a maquiagem o atrapalham.

“Extraordinário” mostra que Stephen Chbosky é um nome a ser observado em Hollywood. Enquanto “As Vantagens de Ser Invisível” tem uma pega mais jovem, com trilha sonora descolada e alma cult, seu novo filme traz uma história universal e comovente, mas que poderia se transformar num drama barato. Mas, com tom certo, o filme emociona e até diverte sem brincar com o sentimento do público ou forçá-lo a se emocionar frente a um personagem frágil (uma criança) com problemas. Chbosky respeita seus personagens, o texto original e, o mais importante, o público.

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