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Geleia Geral: Por que o Tropicalismo ainda é relevante na sociedade

Movimento capitaneado por Caetano, Gil, Os Mutantes e cia. completou 50 anos em 2017

Em pé, da esquerda para a direita: Jorge Ben, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Rita Lee e Gal Costa. Agachados: Sérgio Dias e Arnaldo Baptista.
Em pé, da esquerda para a direita: Jorge Ben, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Rita Lee e Gal Costa. Agachados: Sérgio Dias e Arnaldo Baptista.
Foto: Divulgação

Baião, folk, rock’n’roll , bolero, samba de raiz, música regional e erudita: foi essa miscelânea musical que dominou a cena brasileira no final dos anos de 1960. O movimento Tropicalista queria ser tudo e nada, ou melhor, parafraseando o grande Tom Zé, a Tropicália buscava “explicar para confundir”.

Há 50 anos, Caetano Veloso e Gilberto Gil, acompanhados d’Os Mutantes, subiram ao palco do 3º Festival de Música Popular Brasileira apresentando as canções “Alegria Alegria” e “Domingo no Parque”; nascia o movimento Tropicalista.

Em um contexto de ditadura militar, aquela noite rompeu de vez com as barreiras do que se entendia, até então, por música popular brasileira. A relevância do movimento foi tamanha que ainda hoje há ecos reverberando política e culturalmente no país.

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Em terras capixabas há quem ainda sinta as frequências sonoras deixadas pelos tropicalistas. O cantor e compositor Fepaschoal se diz influenciado pela postura antropofágica do movimento.

“A mescla de estilos e linguagens artísticas diferentes, a avidez simultânea pelas culturas de massa e pela erudita, e a postura poética e politicamente combativa ao regime totalitário da época são características superinspiradoras. Há muitos artistas que, mesmo sem saber, são influenciados pelo legado”, pondera.

A expressão “Geleia Geral”, do poeta Décio Pignatari, que depois tornou-se título de uma canção de Gilberto Gil, representava os diversos “brasis” na cultura nacional ao final dos anos 1960, que foram utilizadas pelos tropicalistas como “prato principal” de composições e arranjos.

O tropicalismo passou por muita censura poética e musical naquele período. Mas acho que nesse momento de censura artística que vivemos é sempre bom lembrar que o novo causa estranhamento, e ele é necessário para quebrar velhas posturas e posicionamentos
Fernando Zorzal

As métricas, as composições lineares e principalmente o clima de banquinho da bossa nova deram lugar às guitarras distorcidas e a uma verdadeira deglutição de elementos da cultura de massa norte americana, como a pop art. Todo esse “banquete” cultural caiu de maneira indigesta aos olhares atentos dos intelectuais e artistas bossanovistas, sob a alegação de que a tropicália representava o imperialismo ianque e, portanto, era oposta aos símbolos nacionalistas.

O cantor e compositor capixaba, Fernando Zorzal, outro também influenciado pelo movimento, lembra que, à época, aconteciam passeatas contra a guitarra elétrica.

“Os Mutantes, por exemplo, faziam suas próprias guitarras e se apresentavam nos festivais debaixo de vaias”. Zorzal ainda complementa que, as mudanças trazidas pelo movimento tropicalista, foram essenciais para que velhas ideologias e posicionamentos pudessem ser rompidos.

INFLUÊNCIA

A onda transgressora da “geleia geral” tropicalista, avançou também em outras vertentes artísticas. No cinema, na figura de Glauber Rocha, na poesia concreta e nas artes plásticas, com Hélio Oiticica – cujo a instalação “Tropicália” foi decisiva para dar nome ao movimento.

O tropicalismo rompeu também com os padrões comportamentais. Influenciados pelos movimentos de contracultura, os tropicalistas se apropriaram da linguagem da paródia e do deboche em apresentações e performances que chocavam o público ao revelar as tradições e contradições dos valores e práticas conservadoras da sociedade brasileira.

À medida que a repressão avançava, os tropicalistas conseguiam, aos poucos, burlar as “regras do jogo” em suas composições. Isso, claro, antes da instauração do AI-5, que legalizava a censura e forçou Caetano e Gil a serem exilados – o exílio dos baianos é considerado um marco

Mais um filho do tropicalismo, o músico capixaba André Prando diz ter sido influenciado política e artisticamente pelo movimento.

“Apesar de eu não considerar que faço uma música de protesto, eu procuro de uma forma geral, instigar o pensamento crítico. Não diretamente ligado à política, mas a tudo que ela reflete”.

“Hoje, vivemos um momento semelhante ao de 1967. Há uma repressão política e artística em uma tentativa de retomada do conservadorismo, e eu não sei até que ponto os artistas de hoje estão preocupados com isso”, pondera André.

Já Fernando Zorzal vê o cenário pode ser entendido também como uma nova quebra de paradigmas. “Nesse momento de censura artística é sempre bom lembrar que o novo causa estranhamento e ele é necessário para quebrar velhas posturas e posicionamentos”.

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