Aos 95 anos, Bibi Ferreira conta vida e paixões em novo disco e DVD

Artista brinca com letras de óperas e eterniza lembranças da própria infância

Publicado em 11/01/2018 às 08h51

Atualizado em 11/01/2018 às 09h20

Bibi Ferreira lança "Histórias e Canções" em CD e DVD
Foto:Montenegro ENTITY_amp_ENTITY Raman/Divulgação
Bibi Ferreira lança "Histórias e Canções" em CD e DVD

“Lá, pelos meus 13, 14 anos”, brinca Bibi Ferreira, de 95 anos, quando se refere ao século XVII antes de cantar “By a Waterfall”, segunda faixa de “Histórias e Canções” – CD e DVD recém-lançados. A dama do teatro brasileiro remonta à infância e lembra de grandes nomes da música nacional e internacional. E, é claro, brinda o pai, o dramaturgo e diretor Procópio Ferreira, com óperas que levam uma interpretação com um toque diferente.

As árias cantadas por Bibi, apesar de respeitarem a harmonia composta por Verdi, Francesco Maria Piave e Gioachino Rossini, têm a letra alterada. Hoje, o passatempo dela, como a própria artista declara, é encaixar os versos da MPB nessas obras centenárias. A paixão pelas óperas vem do pai, que enchia a casa de vinis com os mais requintados compositores. Assista trailer de "Histórias e Canções": 

Por outro lado, foi com a mãe, a bailarina Aida Izquierdo, que Bibi aprendeu cinco idiomas. E não é à toa que no novo álbum a artista dá show na interpretação de “Cuesta Abajo” e “Esta Noche me Emborracho”, dois sucessos do saudoso Carlos Gardel.

“Minha mãe exigia que eu falasse só espanhol em casa. E era o que eu fazia. E os tangos... O irmão da mamãe, tio Antônio, trabalhava na embaixada argentina no Rio de Janeiro. Ele ficava sabendo da chegada dos grandes astros argentinos ao Brasil, e esses cantores iam lá para casa para jantar. Eles cantando, afinando os violões, e eu lá, afinando os ouvidos”, exemplifica.

"À LÁ AMERICANE"

Certa vez, Bibi brincou em um show dizendo que Piaf, cantora francesa que a artista também interpreta, dizia que as canções que ela traduzia para o inglês eram “à lá americane”. Coincidência ou não, a dama do teatro tem uma queda pelas canções americanas e percebe-se um quê de fã quando ela se apresenta nessas faixas.

“Sem dúvida Sinatra é com quem eu mais me identifico. Aos 11 anos me lembro de já escutar e ficar apaixonada pelo ritmo”, destaca. Seja pelo romantismo de Hollywood ou a Broadway “pé no chão”, como Bibi classifica o clima da avenida mais famosa de Nova York, “Nasty Man” e “By a Waterfall” foram as apostas do novo álbum para homenagear a música dos EUA.

MUSICAIS

No espetáculo, Bibi lembra dos musicais que já fez – mas também surpreende com os que quer fazer. “My Fair Lady”, “Hello, Dolly” e “O Homem de la Mancha” já estão na lista que ela coleciona de sucessos de bilheteria. No entanto, ela deixa clara a vontade de protagonizar em novas apresentações. “Vocês me subestimaram, mas eu ainda vou fazer”, dispara, às gargalhadas.

Cantando e contando, ela destaca “Memory”, do musical “Cats”, “America”, de “West Side Story”, e “My Favorite Things”, da “Noviça Rebelde” – cantadas em um fino inglês, of course.

ERA DO RÁDIO

Enquanto nos Estados Unidos a população aplaudia as superproduções dos espetáculos mais famosos do mundo, aqui, no Brasil, Bibi se lembra de Orlando Silva, Francisco Alves, Ângela Maria e Elizeth Cardoso.

“Todos primavam por um repertório de extremo bom gosto”, diz. A dama do teatro interpreta “Nossos Momentos”, “Onde Anda Você”, “Nem Eu”, “Meiga Presença”, “As Praias Desertas” e “Eu Sei Que Vou te Amar” para ilustrar a passagem dos anos 1940 no país.

"E NÃO VAI TER PIAF?"

Apesar de ser fã mesmo da música americana, foi interpretando a francesa Edith Piaf que Bibi fez o que é o considerado um dos maiores sucessos da própria carreira. “Em todo show tem uma pergunta que não falta: ‘ué, mas não vai ter Piaf’”, conta, interpretando, também, até a forma como o público reage.

O que tinha que estar nesse show está. E de todas as histórias, as que lembram meus pais são as mais importantes
Bibi Ferreira, de 95 anos

Com a participação do empresário, Nilson Raman, ela canta “À Quoi ça Sert L'Amour”, “La Vie en Rose”, “L’Hymne a L'Amour” e “Non, Je Ne Regrette Rien”. E é na “vida cor de rosa” que ela recebe, ainda, mais palmas. Aliás, se for certa a teoria de que “La Vie en Rose” foi feita em dedicatória a uma paixão da francesa, esse sentimento irradia na letra imortal da canção que faz sucesso até hoje.

“Grande compositora. Ela era singular na música”, diz, se referindo a Piaf. “Ela só gostava de duas coisas na vida: cantar e amar. E amar no sentido prático. Sempre tinha um amante, um namorado. O último amor de Piaf tinha metade da idade dela – essa sorte, por exemplo, eu não tive”, conta, às gargalhadas.

Com exclusividade, o Gazeta Online conversou com Bibi Ferreira, que revelou detalhes do que significa "Histórias e Canções" para sua carreira.

Durante ensaio para o espetáculo "4X BIBI", a artista recebeu o Gazeta Online, em 2017
Foto:Pedro Permuy
Durante ensaio para o espetáculo "4X BIBI", a artista recebeu o Gazeta Online, em 2017

Gazeta Online: no disco, você fala muito dos seus 13 e 14 anos, até em tom de brincadeira. Mas, de fato, nessa idade você teve algum contato com a música que te marcou? Seu pai já te apresentou à ópera nessa época?

Bibi Ferreira: "Sim, muita coisa aconteceu nessa época. Eu cantar na Radio Ipanema, fazer o filme Cidade Mulher, onde cantava uma musica do Noel Rosa. Alias, fui ensaiado por ele. E papai me apresentou o de melhor na musica, nas letras, no teatro, sempre. Desde que me conheço por gente, papai era referência para mim. As operas foi o tempo todo que morei com ele. Ele chegava da rua com aqueles bolachões e ficava ouvindo direto."

Gazeta Online: falando em ópera, você destaca que hoje passa o tempo escrevendo letras de músicas populares que se encaixem em árias famosas. De onde saiu essa ideia? Você acha que de alguma forma isso incentiva as pessoas a se interessarem mais pelos clássicos?

Bibi Ferreira: "Para mim é uma grande brincadeira que faço, só isso, que surgiu dessa época do papai, pois ouvia as óperas e ainda não as entendia. Brincava de cantar com letras que eu sabia. Sem nenhum objetivo intelectual ou de promoção da música clássica, mas que é muito divertido juntar Vedi com Leandro e Leonardo, é! Exercito a inteligência..."

Gazeta Online: no CD, você parece inclinar um pouco mais para as músicas americanas. Em "By a Waterfall", por exemplo, a interpretação é emocionante. Realmente há um amor maior por essas músicas? (Vale lembrar a sua interpretação em Ol' Man River, também)

Bibi Ferreira: "Eu conto no DVD, as musicas americanas foram minha primeira influencia e referencia de fato. Esse é o som que gosto. Adorei fazer o Sinatra por causa disso. Meu maestro foi mais para o jazz, como em queria, em relação aos arranjos do Sinatra. Ficou deslumbrante. Você vai ouvir no CD. Adorei o resultado."

Gazeta Online: "Histórias e Canções" vai rodar algumas cidades do Brasil, ainda, depois de lançados CD e DVD? Que tal uma visita ao Espírito Santo? (Risos)

Bibi Ferreira: "Não, esse espetáculo já acabou há anos, depois já fiz três novos espetáculos. Agora estamos em cartaz com "Por Toda a Minha Vida", voltando ao repertório brasileiro. Está muito bom de fazer. Agradeço o convite do Espírito Santo. Adoro Vitória."

Gazeta Online: ficou alguma história de fora do CD? Algo que tenha te marcado muito, também?

Bibi Ferreira: "Não. O que tinha que estar nesse show está. E de todas as histórias, as que lembram meus pais são as mais importantes."

4X BIBI

Última apresentação de Bibi no Espírito Santo, "4X Bibi" aconteceu no fim do ano passado. Na ocasião, o Gazeta Online acompanhou, com exclusividade, parte do ensaio da artista. Ela cantou com a Orquestra Camerata Sesi, em Jardim da Penha, em Vitória. Relembre:

SERVIÇO

"Histórias e Canções", de Bibi Ferreira

Valor: R$ 34,40 (CD) e R$ 46,40 (DVD) no site da gravadora Biscoito Fino

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