Rodrigo Lombardi: "Vamos mostrar como é a realidade dessa profissão"

Ator é protagonista da série Carcereiros, que estreia nesta quinta, na TV Globo

Publicado em 26/04/2018 às 16h54

Atualizado em 26/04/2018 às 16h55

Penitenciária Vila Rosário é o cenário da trama de Carcereiros
Foto:Globo/Ramón Vasconcelos
Penitenciária Vila Rosário é o cenário da trama de Carcereiros

A Vila Rosário, pelo nome, poderia ser um bairro de interior, daqueles que levam a delicadeza de sua denominação ao cotidiano de seus corredores. Poderia, mas não é. Vila Rosário é a penitenciária onde trabalha Adriano Araújo (Rodrigo Lombardi), um homem que não cometeu nenhum crime, mas que vive ali dentro a maior parte de seu tempo, sem saber se terá um novo dia para contar sua história. Esse é o cenário de ‘Carcereiros’, série vencedora do Grande Prêmio do Júri do Mip Drama, em Cannes, no ano passado, e que chega à tela da Globo em abril.

A obra é livremente inspirada na obra de Drauzio Varella e conta com 15 episódios. “O carcereiro é um personagem muito pouco representado nas histórias de cadeia. A gente fala dos prisioneiros, mas não dos homens que tomam conta deles”, explica o médico.

Carcereiro, assim como o pai, Adriano leva uma vida sob constante tensão. “Estar na penitenciária é a experiência máxima de onde o ser humano pode ir. Ali ele chega ao seu limite. Ao assistir às cenas, você se coloca no lugar do personagem e se questiona se faria ou se poderia fazer diferente”, analisa Rodrigo Lombardi.

LUZ NA REALIDADE

Lá dentro, Adriano é o "seu Adriano", homem respeitado por sua integridade e, acima de tudo, por sua palavra, um bem tão precioso neste ambiente. No "papo reto" com o "ladrão", ele precisa ganhar a confiança da cadeia e vencer os desafios que a corrupção impõe para quem lida com esse tipo de trabalho, tantas vezes escondido entre as histórias dos presos e da polícia.

"A série joga luz sobre o sistema prisional brasileiro e em como essa pessoa que não é vista pela sociedade lida no dia a dia com dilemas éticos", explica José Eduardo Belmonte, diretor-geral da série. Rodrigo Lombardi completa: "Estamos aqui para olhar para aquilo que não queremos olhar. A função do cidadão é poder entender o que se passa aqui dentro. A gente não está aqui para glamurizar, mas sim mostrar como é a realidade dessa profissão e desse mundo. O Adriano é parte desse sistema e é só um cara que poderia ser seu vizinho".

O tempo e as preocupações da vida trataram de marcar o rosto e as expressões de Adriano com um ar sempre tenso, preocupado e cansado. Um sopro de afeto e confiança traz o sorriso de volta quando, vez ou outra, sente-se à vontade com os colegas de trabalho, um time de cinco carcereiros comandado pela rígida e respeitada Doutora Vilma (Nani de Oliveira), mulher de pulso firme e controle preciso sobre tudo o que acontece na Vila Rosário.

Vilma conta com a experiência de Valdir (Tony Tornado) para balancear as discussões e as crises que acontecem por ali. Homem alto, forte e com uma vida inteira “puxando cadeia” sem ter cometido qualquer crime, ele ainda é capaz de acreditar na reeducação e na reinserção desses presos na sociedade. Na tentativa de fazer algo a mais por esses homens, Valdir dá aulas de boxe para os detentos.

A experiência conquistada com os anos de vida – e de carreira – não foram suficientes para preparar Tony Tornado para esse trabalho. “O Fernando Grostein, um dos nossos diretores, apesar de ser muito jovem, tem toda uma convivência dentro dos presídios. Então, ele me ajudou muito até, acredite, a ter coragem de entrar em um presídio, que é muito difícil para mim”, conta o veterano. O ator Ailton Graça concorda que gravar dentro do presídio trouxe muita realidade e até uma certa tensão ao set. “Gravar uma série em um lugar como esse é sempre difícil. É difícil para mim, como artista, encontrar os momentos de respiro – quando digo respiro, é para tentar arrancar um riso, ou a ternura dentro de um sistema que é criado para oprimir”.

Adriano (Rodrigo Lombardi)
Foto:Globo/Marcelo Tabach
Adriano (Rodrigo Lombardi)

FAMÍLIA

O espírito de justiça de Adriano nem sempre garante que tudo vá ficar bem, seja do lado de dentro ou do lado de fora da penitenciária, o que faz com que a preocupação sobre os seus seja cada vez mais latente e justificada. Ao se colocar em risco, ele leva sua família para o mesmo clima de apreensão. A filha, adolescente, e o pai, em idade bastante avançada, não aliviam para o lado dele. Tão pouco a mulher, que se vê diante de um marido apático e cansado de tudo.

Othon Bastos já fez diversos papeis ao longo da carreira, mas encara esta produção como algo especial. “Tudo o que fizemos nesta série foi com muita dignidade. O Tibério diz: ‘A única coisa que dei ao meu filho foi a ética e a moral. Quando ele erra, caio em cima dele’”, relembra.

O núcleo familiar do carcereiro Adriano tem a presença marcante da atriz Mariana Nunes, que interpreta sua esposa, Janaína. “A Janaína faz parte de um outro lado da vida do Adriano, mas sofre as consequências desse trabalho dele. Ela entende o que ele passa, mas tem as necessidades próprias também. E cobra que ele esteja junto, um apoiando o outro, como qualquer casal”, resume.

Enquanto as sirenes continuam soando, as ameaças de morte já viraram rotina e os gritos por liberdade não param – sejam os que vêm de dentro das celas ou aqueles que ecoam na cabeça de Adriano. Num piscar de olhos, já é a hora da tranca, mais uma vez.

Abaixo, Rodrigo Lombardi, Mariana, Aílton, Tony e Othon falam um pouco mais sobre suas experiências.

Rodrigo Lombardi

(Adriano - o carcereiro e protagonista)

Carcereiros: Adriano (Rodrigo Lombardi)  Como foi a preparação para o papel?

Não tive tempo de fazer laboratório para a primeira temporada e fui aprendendo tudo na prática e nas gravações, sempre com muita troca de informações e experiências com direção, autores, roteiristas e equipe técnica. É um dos meus melhores trabalhos justamente por ter uma equipe em total sintonia, com muito entrosamento e de muita intensidade.

Então, qual foi o ponto de partida?

A falta de energia é algo em comum entre os personagens e acabei fazendo a dieta do sono. Só dormi quatro horas por dia e acho que funcionou. Foi necessário para passar essa verdade. Foi um custo muito alto que eu escolhi.

O que aprendeu com a série?

O que aprendi com a série foi ter um olhar mais humano e ser mais paciente com o outro, de respeitar o limite do próximo. Passei a me indignar quando vejo que os limites são ultrapassados. Carcereiros me deu uma aula de cidadania

Mariana Nunes

(Janaína - esposa de Adriano)

Carcereiros: Janaína (Mariana Nunes)Mariana, você já tinha lidado com a realidade carcerária?

Não, nunca convivi com ninguém que trabalhasse em penitenciária, foi a primeira vez que tive acesso a esse universo. Ainda assim, a Janaína não faz parte deste local diretamente, ela faz parte de um outro lado da vida do Adriano. A convivência que ela tem com ele é dentro de casa, mas sofre, sim, as consequências desse trabalho dele.

A Janaína é uma mulher que vive uma situação emocional muito densa. Como você avalia a postura dela diante das dificuldades com o marido?

A Janaína é uma mulher que tem desejos, vontades, ela mira uma trilha que quer seguir. Da mesma forma que o marido tem os problemas e as questões dele por conta do trabalho, ela também tem as suas próprias questões e dificuldades. Ela é professora e a gente sabe que não é fácil ser professor no Brasil, as dificuldades que os professores enfrentam até de violência dentro da sala de aula. Este é um casal como qualquer outro que tem dificuldades na relação. A Janaína entende o que o Adriano passa, é uma mulher compreensiva, está junto com ele, mas tem as necessidades próprias também. E ela cobra que ele esteja junto, um apoiando o outro, como qualquer casal.

O que, durante a preparação de elenco, mais te tocou?

Pessoalmente, o que mais me tocou foi a questão da maternidade, porque eu ainda não tenho filhos e quero ter. Então, pude emprestar um pouco dessa minha vontade para a Janaína. A minha preparação foi muito de conversas com o Belmonte e, como ele gosta muito de trabalhar com o ator e é curioso com a gente, acaba que nosso trabalho se deu muito nesse lugar do entendimento do que estava escrito, qual compreensão a gente tinha daquilo, qual era o nosso ponto de vista daquela cena. Como o Belmonte tem esse método da aproximação com o humano que há no ator, acaba que você empresta muito de você mesmo para o personagem.

Aílton Graça

(Juscelino - carcereiro corrupto)

Carcereiros: Juscelino (Aílton Graça) e Adriano ( Rodrigo Lombardi )Como você pensa que vai ser a recepção do público frente aos dilemas dos personagens?

As pessoas vão encontrar muita emoção, ação e, por incrível que pareça, lampejos de romance. A proposta da série é narrar desse ponto de vista para que as pessoas torçam pelo carcereiro, entendam como eles sobrevivem a esse sistema. Dentro do código de conduta dali, a palavra vale muito, ela é a grande moeda de troca.

Como é filmar dentro de um presídio?

Isso foi o que me trouxe bastante perturbação. Gravar uma série em um lugar como esse é sempre difícil. É difícil para mim, como artista, encontrar os momentos de respiro – quando digo respiro, é para tentar arrancar um riso, ou a ternura dentro de um sistema que é criado para oprimir. É difícil respirar com essas paredes, com essas portas de ferro. É tenso.

Tony Tornado

(Valdir - carcereiro e colega de trabalho experiente)

Carcereiros: Valdir (Tony Tornado)Você já tinha tido contato com outro presídio, carcerário antes?

Não, mas leio muito a respeito. No ‘Carandiru’, coloquei uma música minha, mas nunca tinha sentido tão próximo. Você tem que estar preparado. A gente vê no cinema, mas no real é muito puxado. Fiquei um pouco abalado. Apesar de termos filmado em um presídio que ainda não tinha sido inaugurado, fica um clima meio pesado.

Isso ajuda a compor o personagem?

Sim, você tem que embarcar, administrar isso pessoalmente. Às vezes, a gente vê coisas que não existem dentro de um presídio, por causa do medo... Mas têm atores, como o Caio Blat, que já fez cenas dentro de presídio, que administraram isso bem. Eu tenho meu lado medroso e emotivo muito pesado. É estranho, mas é bom de fazer. Vou colocar isso como uma experiência maravilhosa na minha vida.

Othon Bastos

(Tibério - pai de Adriano)

Carcereiros: Adriano (Rodrigo Lombardi) e o pai, Tibério (Othon Bastos)O que este personagem tem de especial para você?

Achei o roteiro maravilhoso, cada capítulo era uma história humana, de grande vivência. A realidade era ainda mais violenta do que a ficção. Era preciso criar uma maneira de chamar a atenção justamente sobre o que está acontecendo, com humanidade.

Você já tinha entrado em um presídio antes das gravações de ‘Carcereiros’?

Eu fiz um filme que era sobre presídios também, dos ex-cangaceiros que foram presos.

Como você vê a relação entre Tibério e Adriano? Ele se sente responsável pela carreira do filho?

Ele era professor, tinha o dom da didática e o Tibério o apoiou quando ele quis seguir essa carreira, mas colocou para ele todas as coisas ruins que podem acontecer. Ele diz para o filho “você nunca vai saber se vai sair vivo de lá. Você tem que demonstrar que não tem medo dele, tem que acreditar no que ele está falando”.

 

 

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