Artista plástico capixaba propõe reflexão sobre negros em exposição

Luciano Feijão estimula os visitantes a questionarem a imagem servil dos negros, a partir do quadro "A Negra", de Tarsila do Amaral

Publicado em 12/06/2018 às 20h00

Atualizado em 27/07/2018 às 16h51

Foto: Tom Boechat/Divulgação
Na exposição, Luciano Feijão tenta desconstruir a imagem servil do negro

Foi a obra “A Negra”, pintada em 1923 por Tarsila do Amaral, que impulsionou o artista plástico capixaba Luciano Feijão a montar a exposição “Amas – Fisionomias e Desmembramentos”, aberta nesta quarta-feira (13) na Galeria Homero Massena, em Vitória. Na mostra, Feijão reúne desenhos em nanquim sobre papel, propondo uma reflexão acerca da objetificação dos corpos negros na sociedade.

A imagem da mulher negra retratada por Tarsila foi inspirada em histórias contadas pelas mucamas da fazenda que pertencia a seu pai, segundo registros de depoimentos da própria artista.

Foi durante uma conversa com um amigo que Feijão se sentiu motivado a produzir um material próprio que desconstruísse a imagem do negro apenas como servil ou objetificada.

A exposição, conforme conta Feijão, é uma reverberação de sua pesquisa de mestrado, concluído em 2014. Em 2016, o trabalho transformou-se na mostra “Torções”, uma espécie de embrião do projeto atual.

“No começo, o projeto envolvia uma viagem minha para Cachoeiro e outra para São Mateus, dois grandes polos de escravos no Estado. A intenção era procurar fotos de escravas amas de leite nos arquivos públicos, mas não tive tempo hábil para concluir essa pesquisa. Um amigo lembrou do quatro da Tarsila, fui atrás da história e achei que seria interessante problematizar essa questão”, explica.

Feijão parte de dois pontos neste trabalho: as fisionomias e os desmembramentos. Na primeira questão, a intenção é atentar para o fato de o quadro de Tarsila ter reforçado um estereótipo da mulher negra naturalizado pelas pessoas. Já quanto aos desmembramentos, entra a proposição de quebra deste pensamento.

Algumas das figuras pintadas pelo artista mostram fendas, justamente para instigar o visitante a “entrar” na obra e a refletir sobre o outro lado dos negros retratados, com interpretações mais diversas, e não somente atreladas à figura de servidão.

“Trago as duas referências para provocar um olhar mais crítico sobre a obra de Tarsila, que parte da construção de um tipo etnológico, da figura objetificada, muito comum na história iconográfica brasileira. Quis pegar isso e atrelar um discurso político que enfatiza a figura e o protagonismo do negro”, conclui.

Amas – Fisionomias e Desmembramentos

Exposição de Luciano Feijão.

Abertura: Nesta quarta-feira (13), às 19h.

Visitação: De segunda a sexta, das 9h às 18h. Sábado, das 13h às 17h. Até 8 de setembro.

Onde: Galeria Homero Massena. Rua Pedro Palácios, 99, Cidade Alta, Vitória.

Informações: (27) 3132-8395.

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