"Desobediência" é subversão ao conservadorismo religioso

Filme do diretor chileno Sebastián Lelio, de "Uma Mulher Fantástica", fala sobre as fugas e os reencontros da vida

Publicado em 11/07/2018 às 19h03

"Desobediência" mostra subversão ao conservadorismo do judaísmo
Foto:Sony/Divulgação
"Desobediência" mostra subversão ao conservadorismo do judaísmo

Ao lado de nomes como Pablo Larraín (“No” e “Neruda”) e Andrés Wood (do maravilhoso “Machuca”), Sebastián Lelio é um dos pilares do novo cinema chileno, aquele construído pós-Pinochet, general que comandou o regime militar ditatorial no Chile de 1973 a 1990. Seu cinema utiliza a simplicidade e a rotina para tratar de temas que mexem com o espectador e até com a sociedade. Em “Gloria” (2013), narrava as aventuras sexuais de uma mulher madura; já no oscarizado “Uma Mulher Fantástica” (2017), discursa sobre a identidade de gênero com a história de Marina (Daniela Vega), uma mulher transexual. “Desobediência”, seu novo filme, segue o discurso de liberdade ao examinar o judaísmo e seus dogmas.

O filme, em cartaz no Cine Jardins, em Vitória, acompanha Ronit (Rachel Weisz), uma bem sucedida fotógrafa que volta ao berço da comunidade onde nasceu, em Londres, após a morte de seu pai, um rabino devotado à comunidade e aos costumes judaicos. O problema, claro, é que Ronit nunca se encaixou naquele ambiente e, por isso, fugiu de lá deixando várias pontas soltas. É nesse ponto, aliás, que o filme encontra sua força.

FUGA E REENCONTRO

O reencontro com o passado e a “volta pra casa” é tema recorrente na cultura – todos, ou quase todos, afinal, fogem de algo ou alguém. Ronit fugia de sua cultura, o que acabou afastando-a também de pessoas queridas como Esti (Rachel McAdams), com quem teve um relacionamento no passado.

O que não é mensurável é o quanto as escolhas de um indivíduo afetam a vida dos outros – Ronit seguiu em frente, mas Esti nunca mais foi a mesma após a ida da parceira para Nova York. Mergulhada na cultura de uma comunidade conservadora, se casou com Dovid (Alessandro Nivola) e cumpre à risca todos os ensinamentos da igreja. O reencontro, então, é transformador.

Sebastián Lelios já provou que sabe filmar e o Oscar por “Uma Mulher Fantástica” não parece ter sido obra do acaso. Com enquadramentos fechados, reforça quão poucas opções há naquela cidade. Ainda, o diretor faz ótimo uso de planos e camadas para mostrar, nas feições de seus atores, as emoções reais dos personagens.

Esse trabalho é facilitado pela qualidade do elenco. As “Rachel” Weisz e McAdams se saem ótimas tanto juntas quanto em cenas separadas – são estas, aliás, que mostram como Esti vive confinada a um relacionamento de aparências. O trio principal é completado por Alessandro Nivola, que entrega um complexo Dovit, um personagem bem construído pelo roteiro e que vive seus próprios dilemas.

Outro grande acerto do diretor é fugir dos clichês e tratar o relacionamento entre Ronit e Esti sem o costumeiro fetiche cinematográfico de relações entre duas mulheres. Para Lelio, é uma relação como outra qualquer, que geraria praticamente o mesmo filme se o roteiro tratasse de um homem e uma mulher.

“Desobediência” é um grande filme sobre não pertencimento, sobre não se encaixar, sobre conservadorismo e seguir em frente. A sexualidade serve apenas como ponto de partida para a discussão e para apontar a direção do olhar do público.

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