"Hex" tem bruxa assustadora em terror moderno e original

Após passar pelo Brasil, autor holandês Thomas Olde Heuvelt fala sobre sua obra e a adaptação da história para uma série de TV

Publicado em 16/07/2018 às 15h38

Atualizado em 16/07/2018 às 15h48

Foto: DarkSide/Divulgação
Escritor Thomas Olde Heuvelt é um dos expoentes do terror contemporâneo holandês

Escrever uma história de terror ou fantasia de sucesso requer, além de criatividade, originalidade. Foi com esse detalhe na cabeça que o holandês Thomas Olde Heuvelt escreveu “Hex”, obra que acaba de ser lançada no Brasil. O autor, inclusive, esteve no País no início de junho para divulgação do livro.

A trama aterrorizante, que vai virar uma série para a TV produzida pela Warner, se passa em Black Spring, na Costa Leste norte-americana – o escritor optou por mudar o cenário da Holanda para os EUA quando adaptou o livro para o inglês. No vilarejo, os moradores são assombrados pela bruxa Katherine Van Wyler, que 300 anos atrás foi condenada e teve seus olhos costurados.

O toque original de Heuvelt na história aparece em muitos pontos: além da bruxa estar sempre presente na cidade, os habitantes contam com o HEXapp, um aplicativo que controla os passos da feiticeira 24 horas por dia. Em entrevista ao Gazeta Online, o autor falou sobre sua obra, a adaptação para a TV e sua passagem pelo Brasil:

Como você teve a ideia da história de “Hex”?

Desde que “As Bruxas” (livro infantil lançado em 1983), de Roald Dahl, me traumatizou, eu sempre quis escrever minha própria história sobre uma bruxa. Há alguns anos eu vim com um conceito para uma cidade que era assombrada por uma mulher do século 17 que havia sido condenada por bruxaria. Ela teve seus olhos fechados e costurados porque as pessoas acreditavam que ela tinha os olhos malignos. E hoje, ela ainda está lá. Mostrei o conceito a um amigo que é cineasta e ele o queimou completamente. Com razão. Era chato, sem graça e sem originalidade. Então começamos a brincar com isso e ver onde nos levaria. E se a bruxa não fosse essa aparição assustadora sobrenatural, mas o bobo da cidade? E se os habitantes da cidade estivessem tão acostumados com a presença dela que, em vez de ficarem com medo, pendurassem uma toalha no rosto quando ela aparecesse na sala de estar pela milésima vez? Eu fiquei animado. Essa reviravolta fez a história andar. Imagine isso acontecer em sua cidade hoje em dia, como as pessoas lidariam com isso? Todos eles teriam um aplicativo em seus telefones, é claro – o HEXApp – para relatar avistamentos e acompanhá-la. E para evitar que pessoas de fora a vejam, eles a encobrem com coisas malucas como galpões de ferramentas ou arbustos quando ela está em lugares públicos. Mas ao mesmo tempo – e é aí que se volta ao horror clássico – em seu núcleo, eles ainda têm muito medo. Eles têm medo do desconhecido que a bruxa representa. Eles têm medo do dia em que ela possa abrir os olhos. E eles temem o que vai acontecer com eles se eles não obedecerem as regras da cidade...

A que personagem do terror você compararia a bruxa Katherine?

Ela é exatamente o oposto da Bruxa de Blair (do filme homônimo de 1999) – ela está sempre lá. Ela aparece sempre que ela quer. Mas ela é muito sinistra, e a coisa assustadora sobre ela é que nunca conseguimos ver o que ela pensa, enquanto seus olhos estão costurados. Dessa forma ela se parece com Samara Morgan, de “O Chamado” (filme de 2002), a garota com o cabelo preto na frente do rosto. Você nunca consegue ver o rosto dela... o que a torna ainda mais assustadora. Dito isso, Katherine é realmente um personagem próprio, diferente de qualquer outro vilão de terror icônico.

É bom saber que oferecemos a todos os editores em todos esses países tanto o original com o cenário holandês quanto a edição americana... e todos eles escolheram o americano. Isso lhe diz algo sobre como o mundo funciona, certo?
Thomas Olde Heuvelt

Quando a obra foi adaptada para o inglês, alguns detalhes da história foram modificados, até mesmo seu final. Por que essa decisão?

O livro foi originalmente criado na Holanda e eu escolhi mudar o cenário quando os direitos foram vendidos para os Estados Unidos. “Hex” é um livro assustador, e, quando saiu na Holanda, eu recebi centenas de mensagens de leitores que me disseram: “Seu desgraçado, eu tive que dormir com as luzes acesas”. Isso é o que eu queria dos leitores nos EUA também. Para realmente assustar seu leitor, você precisa criar esse senso perfeito de familiaridade, para sugar o leitor, e então você o dilacera quando o sobrenatural entra em ação. Se um leitor americano lesse um livro na Holanda, um país em que eles não conhecem muito, eles estariam se perguntando: “como você pronuncia seus nomes? Qual é a norma para essas pessoas? Qual não é a norma? O que as assusta e o que não?”. Para qualquer outro gênero, literário ou fantasia, o estranhamento que isso cria é maravilhoso. Mas, no terror, isso cria um distanciamento que fica no caminho da primeira impressão que você quer dar. É por isso que eu mudei e acho que funcionou, porque a nova edição já foi vendida para 26 países. É bom saber que oferecemos a todos os editores em todos esses países tanto o original com o cenário holandês quanto a edição americana... e todos eles escolheram o americano. Isso lhe diz algo sobre como o mundo funciona, certo?

Quem foram suas maiores inspirações para escrever terror?

Antes de ler grandes livros, acredito que toda criança deve crescer com um contador de histórias. Para mim, meu tio era meu contador de histórias. Ele costumava me contar histórias de dormir toda vez que eu ficava em sua casa. E ele lia as boas histórias, sem editar ou se importar com minha idade. Quando eu tinha sete anos, ele leu para mim “As Bruxas”, de Roald Dahl. Aos oito, “Drácula”, de Bram Stoker. E ele não parou por aí. Ele é o único que me influenciou em me tornar o contador de histórias que sou hoje. Quando finalmente tive permissão para ler o “O Cemitério”, de Stephen King, aos 11 e 12 anos (eu provavelmente ainda era um pouco jovem), fiquei viciado. King teve uma profunda influência sobre quem eu sou como escritor hoje. Muitos autores de terror tendem a evitar mencioná-lo, porque ele é tão óbvio... mas ainda assim, ele influenciou toda uma geração de escritores, e eu faço parte dessa geração.

Já escreveu ou pensou em escrever algum outro gênero?

Eu escrevo. Muitos dos meus contos são obras de realismo mágico. Três anos atrás eu ganhei o Prêmio Hugo (premiação literária para os melhores nos gênero de ficção científica e fantasia) de melhor história de ficção científica nos EUA – foi a primeira história traduzida para ganhar um Hugo –, mesmo que a história vencedora não fosse ficção científica, mas realismo mágico. Eu também gosto de humor. “Hex” parece começar realmente alegre, bem humorado... mas fica escuro rapidamente. Muito escuro.

“Hex” é seu primeiro trabalho adaptado para a TV? Como você se sente com esse novo passo?

Sim, e estou muito, muito animado com a adaptação.

LEIA AQUI OS TRÊS PRIMEIROS CAPÍTULOS DO LIVRO

Você terá algum envolvimento com a produção da série?

Estou envolvido como consultor da série. E vou ter uma pequena participação especial, como Alfred Hitchcock e Stephen King sempre tiveram em seus trabalhos.

O que você pensa sobre adaptações literárias para a TV e o cinema?

Você sabe de antemão que as coisas vão mudar e você nunca tem certeza de como será o resultado final. Mas essa é a beleza da coisa. É uma colaboração. É a impressão de outro artista sobre sua criação. Arte inspirando arte. A equipe que está trabalhando em “Hex” é uma das grandes do terror hollywoodiano. Por exemplo, o autor do roteiro é Gary Dauberman, que também escreveu os roteiros dos filmes “Annabelle” (2014) e “It: A Coisa” (2017), que adapta o livro de Stephen King. Eu confio completamente que eles farão justiça ao livro – isso é exatamente o que eles se propuseram a fazer, porque eles amam muito a história.

Atualmente você trabalha em alguma nova obra? Pode dar detalhes?

Atualmente estou terminando meu próximo romance, um romance de possessão. O que envelhece em tramas de possessão é o aspecto religioso. Há sempre um demônio ou um espírito maligno que possui uma pessoa e um padre vem para exorcizá-lo. Todos nós conhecemos a história. Eu não sou uma pessoa religiosa ou muito espiritual, mas no meu tempo livre eu sou um alpinista, e sempre que estou nas montanhas, sinto que elas são seres vivos, que têm uma alma. Outros montanhistas desceram com histórias semelhantes. E cada montanha tem uma alma muito específica e diferente, que é única. São lugares de poder. Então não seria ótimo ter um montanhista que tem um acidente horrível subindo e desce, possuído pela alma da montanha? Ter essa força da natureza furiosa dentro dele? Essa é a premissa do novo livro.

O terror e a literatura fantástica são gêneros que fazem sucesso e lançam muitos novos escritores todos anos, inclusive no Brasil. Qual conselho daria para quem está começando a escrever?

Primeiro de tudo: leia muito, escreva muito. Mire alto. Mas acima de tudo: aproveite o que você está fazendo. É o conselho que Stephen King deu a Neil Gaiman quando ele fez sucesso, mas vale para todos os autores, não importa em que fase da sua carreira você está. Se você não está gostando das coisas que escreve, e se não está curtindo o passeio, não vale a pena.

Por último, como foi sua passagem pelo Brasil?

Brilhante. Eu tive duas semanas incríveis. Longas filas de pessoas em São Paulo, Porto Alegre e Rio de Janeiro. Eu amo o quão emocionalmente envolvidos os leitores brasileiros ficam. Na verdade, havia alguns que haviam tatuado Katherine van Wyler em seus braços – olhos costurados e tudo mais. Ver o grande sucesso do livro em um país tão longe da minha casa é fascinante. Além disso, eu amo as pessoas. Eu amo como todos vocês se abraçam e se abraçam. Os europeus podem aprender muito com isso!

 

 

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