Cenas da ditadura 

50 anos do AI-5: Filmes nacionais retrataram realidade da ditadura

Veja como o cinema nacional abordou um dos períodos mais sombrios da história do país

Leandro Reis

Publicado em 15/12/2018 às 08h27

* Texto foi publicado originalmente no jornal A Gazeta, em 2014

Em uma peculiar sexta-feira, 13 de março de 1964, dentro do Cinema Vitória, no Rio de Janeiro, Corisco bradava aos quatro cantos: "Mais fortes são os poderes do povo". Mal sabia o personagem de "Deus e o Diabo na Terra do Sol", filme de Glauber Rocha, que logo ali fora, na Praça da República, o então presidente João Goulart ouriçava os setores conservadores, que apoiariam o vindouro golpe militar, dias depois. Era o Comício das Reformas, ensejo que encontrou eco involuntário na obra de Glauber Rocha. Corisco, aliás, morreu no final.

De todo modo, a sessão de "Deus e o Diabo", povoada por críticos, como lembrou Eduardo Escorel na revista "Piauí" deu fôlego para o filme ir ao Festival Cannes e, até hoje, ser lembrado como um marco na cinematografia brasileira, sobretudo por sua importância dentro do Cinema Novo. Só que o longa teve que passar pelo crivo da ditadura, que só o liberou depois de alguns embates com a censura.

 Data: 27/03/2014 - Deus e o diabo na terra do sol, de Glauber Rocha
Data: 27/03/2014 - Deus e o diabo na terra do sol, de Glauber Rocha Foto: Divulgação

Filmes posteriores, no entanto, não tiveram a mesma sorte, visto que o regime já tinha solidificado seus valores, baseados no autoritarismo e no consequente ascetismo das obras. "Cabra Marcado Para Morrer", de Eduardo Coutinho, foi um que sofreu nas mãos dos militares: suas filmagens foram interrompidas em 1964, quando o set foi cercado pela polícia. A alegação era de "comunismo" – o documentário retratava a vida de João Pedro Teixeira, líder camponês da Paraíba, morto dois anos antes. Apenas dezessete anos depois a obra foi retomada.

Após a redemocratização, uma série de filmes brasileiros começou a discutir aquele período sombrio da história. Em sua maioria, as obras ficcionais privilegiaram recortes dos anos de chumbo, o período entre o decreto do Ato Institucional nº 5, em 1968, e o fim do Governo Médici, em 1974.

"Esse período é rico em situações do ponto de vista dramático. Para o cinema que busca o grande público, essas histórias são atraentes como espetáculo", explicou Caroline Gomes Leme, autora de "Ditadura em Imagem e Som" (2013, Unesp) - livro que analisa trinta anos de filmes sobre o regime (1979-2009) -, ao Caderno Dois em 2014.

Data: 27/03/2014 - Ação Entre Amigos, de Beto Brant
Data: 27/03/2014 - Ação Entre Amigos, de Beto Brant Foto: Divulgação

Como exemplo da abordagem lembrada por Caroline, pode-se citar "Zuzu Angel" (2006), estrelado por Patrícia Pillar. O drama conta a história da famosa estilista, mãe do militante Stuart Angel, assassinado pela ditadura militar. Outro filme que ilumina o período é "O Que é Isso, Companheiro?" (1997), que narra o sequestro do embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Charles Elbrick, ocorrido em 1969, por guerrilheiros do MR-8 e da Ação Libertadora Nacional.

Caroline lembra que, enquanto o Cinema Novo buscava "interpretações 'totalizantes' sobre a realidade brasileira", as obras recentes voltaram suas lentes para trajetórias individuais. "Isso pode ser bom no sentido de se construir personagens com grande densidade subjetiva – penso aqui, por exemplo, no filme 'Hoje', de Tata Amaral (2011)."

Data: 27/03/2014 - Hoje, de Tatá Amaral
Data: 27/03/2014 - Hoje, de Tatá Amaral Foto: Divulgação

Bom exemplo de cuidado acerca da individualidade, embora não tão recente, é "Ação Entre Amigos" (1998), de Beto Brant. No filme, duas décadas depois de passarem pela tortura, quatro amigos se reencontram para capturar seu torturador. A obra, no entanto, trata a história de maneira emotiva. "Quando faço cinema, quero fazer uma viagem emocional, não um tratado", disse o diretor ao Caderno Dois, em 2014. "Quem vivenciou aquele período, legitimou o filme como real. Simpatizantes ou guerrilheiros que sobreviveram tiveram leituras muito comovidas.”

Cinco anos depois de findada a ditadura, Nuno César Abreu resolveu adentrar o período com um protagonista de direita, perspectiva pouco explorada na filmografia sobre o assunto. Na tela, destaca-se Lima Duarte, que vive o Dr. Athos, responsável por adulterar laudos de vítimas dos militares.

"Pude sentir que havia certa rejeição a tratar de temas ligados ao regime militar", lembrou Nuno, em entrevista ao Caderno Dois, em 2014. "Parecia que, naquele momento, era melhor sublimar. Coisas do tipo ‘pra que tratar disso, agora?".

Cineasta faz filme sobre pai desaparecido

Em 2013, o Espírito Santo conheceu a história trágica do pai de Orlando Bomfim Netto, no documentário "Orlando Bomfim Jr. – Desaparecido Político". Ao longo de 22 minutos, o filho do militante de esquerda resgatou depoimentos de amigos, familiares e expoentes políticos da época, a exemplo do jornalista e músico Sérgio Cabral.

Bomfim Júnior foi capturado no dia 8 de outubro de 1975 por militares, no Rio de Janeiro, depois de viver 11 anos clandestinamente como dirigente do Partido Comunista. O que se sabe por relatos informais, segundo Bomfim Netto, é que o pai foi morto sob tortura.

Orlando Bonfim teve o pai preso e torturado
Orlando Bonfim teve o pai preso e torturado Foto: Carlos Alberto Silva

"Eles ficavam mudando ele de prisão para que ninguém o localizasse", disse. "Ele foi morto com uma injeção para matar cavalo. Depois, o corpo foi esquartejado e jogado em um rio de São Paulo."

De acordo com o diretor, apesar de o filme ter suscitado memórias pesadas então distantes, o sentimento de indignação diante do ocorrido nunca aquiesceu, de fato. "Esses dois anos de Comissão da Verdade (2012 - 2014) foram muito complicados. Você não está só com a sua lembrança, porque começa a conviver com pessoas que passaram pelo mesmo processo", diz.

Ex-presos políticos têm vidas contadas em "Setenta"

Ao final de "Setenta", de Emília Silveira, não se sabe ao certo o que se viu – se são as sobras de pessoas fraturadas pela ditadura; documentos de um momento político; ideais intrincados a um período que não os permitiam; histórias de personagens anônimos, porém essenciais; ou tudo isso em forma de documentário.

A certeza é que o filme se ocupa de uma realidade tenebrosa que merece ser desvelada. Ele acompanha, sustentado em imagens de arquivo e depoimentos perturbadores, as vidas pregressa e atual de alguns ex-militantes que fizeram parte dos "70", grupo de presos políticos enviados ao Chile no final de 1970. Na ocasião, eles foram trocados pelo embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher, sequestrado por organizações armadas de resistência contra a ditadura.

Data: 28/03/2014 - Emília Silveira, diretora de "Setenta", também foi presa no regime militar
Data: 28/03/2014 - Emília Silveira, diretora de "Setenta", também foi presa no regime militar Foto: Divulgação

Na sessão do filme no Cine Jardins, em Vitória, realizada em março de 2014, havia dois deles: Afonso e Mara Alvarenga, que residiam em Anchieta. A diretora Emília, aliás, também fez parte do grupo que foi preso e torturado por militares antes de seguir para o então socialista Chile, governado por Salvador Allende.

"Sou ex-presa política, mas o filme é um acerto de contas que o Brasil de hoje faz com aquele outro Brasil", disse. Em entrevista ao C2, em 2014, ela contou que o documentário começou em 2003, quando participou de um encontro de remanescentes do grupo. Confira, a seguir, trechos da entrevista.

ENTREVISTA EMÍLIA SILVEIRA

O documentário não é didático e nem um passeio pelas torturas. Por que você optou por essa estrutura?

Porque haviam se passado 40 anos (o início da produção foi em 2003). Se eu fizesse o filme logo depois do que aconteceu, eu trataria com aquela carga de revanche. O que o filme quer é pensar a história do Brasil, mas se aproximar do público para mostrar que vidas são essas. A melhor forma de fazer isso é ter sinceridade no que se está dizendo, muito mais do que defender teses. Os personagens não querem convencer ninguém, ou fazer proselitismo político.

Que balanço você faz daquela experiência de militância?

Nós fomos jovens que viviam em um momento histórico de transformação, que não era brasileiro, mas mundial. Nós sofremos, mas tivemos a sorte de viver em uma época de ideais, onde acreditávamos que poderíamos mudar o mundo. Eram sonhos para a humanidade.

Você vê, hoje, algum aspecto da ditadura ainda presente?

 

 

O que está presente é a desigualdade social, que a gente lutou tanto contra e agora continua pior. A distribuição de renda foi destruída durante o regime militar. Estamos há 50 anos tentando recuperar isso.

Esse período está sendo retratado de maneira satisfatória pelo cinema?

Há grandes filmes, só acho que a quantidade é pequena em relação ao resto da América Latina.

Por que isso acontece?

Tem a ver com o cinema brasileiro como um todo. As pessoas não têm dinheiro para fazer os filmes. E também tem pouca coisa disponível. O Arquivo Nacional cobra uma nota por foto. Jornais e emissoras de TV quase não têm nada. Quem tem muita coisa é a ditadura. E estamos abrindo, então futuramente teremos muita coisa para mostrar.