A busca do cinema brasileiro pela estatueta do Oscar

Por que apesar do sucesso nos festivais de cinema, o Brasil não consegue ter relevância no Oscar? Cineastas e especialistas explicam

Publicado em 25/07/2019 às 12h01

A busca pelo Oscar
Foto:Arabson
A busca pelo Oscar

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas vai anunciar, no dia 22 de janeiro os indicados ao Oscar 2019, uma corrida na qual ano após ano o Brasil parece nadar, nadar, nadar... e morrer na praia. Nos anos 1990 três filmes concorreram ao prêmio de Melhor Filme Estrangeiro: “O Quatrilho” (1996), “O Que é Isso, Companheiro?” (1998) e “Central do Brasil” (1999, ano em que Fernanda Montenegro também foi indicada como Melhor Atriz), mas nenhum levou. Em 2004, “Cidade de Deus” foi indicado a Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Fotografia e Melhor Edição, mas também não levou nenhuma estatueta.

Os motivos para essa constante ausência brasileira são muitos. A campanha para conquistar a Academia requer esforço e investimento (financeiro, inclusive). Além disso, a quantidade e qualidade dos filmes aumentou não só no Brasil, mas em todo o mundo, acirrando a disputa – cerca de 90 países enviam suas obras para a premiação. Ou seja, de 90 países, apenas cinco são selecionados.

“Em suma, há muito poucas vagas, muita concorrência, e o mais normal será não entrar mesmo. Não é nenhum choque, e o anormal mesmo será algo como as três indicações em quatro anos que tivemos entre 95 e 98 - ainda mais improvável hoje em dia”, diz o cineasta Eduardo Valente, assessor internacional na Ancine entre 2011 e 2016 e delegado do Brasil no tradicionalíssimo Festival de Berlim.

Para ele, apesar de não figurar entre os indicados, nosso cinema vai bem, obrigado.

“Tanto em termos de qualidade e variedade de produção quanto na circulação internacional dos filmes. Mas a indicação ao Oscar de Filme Estrangeiro é um medidor muito específico tanto por seus critérios e métodos de seleção quanto pelo olhar para tipos de filmes. Nesse caso não temos aderência. O que vai acontecer em algum momento”, acredita.

Para a produtora e diretora de cinema Úrsula Dart, a demanda do Oscar é diferente do que o cinema brasileiro vem produzindo.

“Ali é uma premiação que está atrelada ao formato da indústria americana, claro que existem exceções. Nem mesmo a cena independente americana está no Oscar. A proposta não é como a de um festival que busca identificar cinematografias diferentes, reunir profissionais do mundo inteiro, que é mais o lugar do Brasil e onde estamos arrasando. O Oscar é diferente”, explica Úrsula.

Festivais

Recentemente o Festival Internacional de Berlim, um dos mais importantes do mundo, anunciou as obras selecionadas para sua 69ª edição. Cinco produções brasileiras estão na lista, entre elas “Marighella”, de Wagner Moura. Já “No Coração do Mundo”, de Gabriel Martins Alves e Maurílio Martins, e “Nona. If They Soak Me, I’ll Burn Them”, da chilena Camila José Donoso, uma coprodução com o Brasil, foram selecionados para a competição oficial do Festival Internacional de Cinema de Roterdã. Ainda, “Divino Amor”, de Gabriel Mascaro, “Impeachment”, de Petra Costa, “O Mistério da Carne”, de Rafaela Camelo, e “Abe”, de Fernando Grostein Andrade, estarão em Sundance este ano.

Para quem trabalha na área, o Oscar não é a única maneira de validar um bom filme.

“É importante pensar que o Brasil ganhou muitos festivais importantes nos últimos tempos. Acredito que a gente não pode focar toda nossa arte na benção da academia americana”, contesta o diretor Rodrigo Aragão, eleito por muitos o mestre do terror brasileiro.

Polêmicas nas indicações

Foto: Vitrine Filmes/Divulgação
O longa "Aquarius" é protagonizado por Sônia Braga vive uma jornalista aposentada

Muitos filmes brasileiros tinham tudo para alcançar o prêmio. Elogiados pela crítica, vencedores de prmêmios em festivais, ou até mesmo indicados em outras categorias do Oscar, menos no Melhor Filme Estrangeiro. É o caso de “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles e Kátia Lund. O filme foi indicado em 2003 para concorrer na categoria, mas não foi aprovado.

No ano seguinte, 2004, Hollywood voltou atrás a indicou “Cidade de Deus” para concorrer nas categorias de Melhor Diretor, Melhor Fotografia, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Montagem. Mesmo indicado a tantos prêmios, o filme não disputou a estatueta entre os filmes estrangeiros.

Em 2016, “Aquarius”, de Kleber Mendonça Filho, recebeu o prêmio de melhor filme estrangeiro no Spirit Awards, considerado o “Oscar do cinema independente”. O filme foi destaque em Cannes e conquistou a critica internacional. Durante o festival de Cannes, os artistas organizaram um protesto contra o impeachment de Dilma Roussef.

Um dos críticos do protesto foi Marcos Petruccelli, que viria ser um dos jurados da comissão do Oscar no Brasil. Pouco depois, “Aquarius” foi dispensada pelo Ministério da Cultura , responsável ppela escolha do filme concorrente.

Críticos e cineastas foram pegos de surpresa quando o MinC escolheu “Pequenos Segredos” de David Schurmann. A escolha foi vista pelo diretor Kleber Mendonça Filho como já era esperada e relacionada a realidade política do Brasil.

“O MinC já tentou vários métodos de indicação de acordo com os andamentos políticos do país, e nenhum deles era exatamente ‘profissional’, atendendo mais critérios que parecem voltados para atender demandas internas no país do que realmente privilegiar a indicação. O caso exemplar de ’Aquarius’ em 2016 é apenas o mais escandaloso e radical”, diz Eduardo Valente, cineasta, assessor internacional na Ancine entre 2011 e 2016 e delegado do Brasil no tradicionalíssimo Festival de Berlim.

Para Eduardo, em outros anos aconteceu a mesma coisa e neste ano a cena se repete. As trajetórias internacionais dos filmes pré-indicados favoreceriam claramente o filme “Benzinho”, de Gustavo Pizzi. “O filme nacional que mais participou de festivais e teve lançamentos comerciais pelo mundo. Então, se já é difícil ter a indicação por questões matemáticas e de concorrência, e você não envia o filme mais capaz, fica quase impossível”, contesta.

Para o cineasta capixaba Rodrigo Aragão, “Bingo”, filme de Daniel Rezende, merecia ter entrado na disputa em 2017. “Não só como estrangeiro, mas algumas categorias como edição. O editor Renato Rezende é um cara muito talentoso”, defende Rodrigo.

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