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Onde está o acervo de obras do Museu Capixaba do Negro (Mucane)?

Onde está o acervo de obras do Museu Capixaba do Negro (Mucane)?

Espaço possui acervo importante sobre a história do negro no ES. que fica guardado e não é colocado à mostra. Enquanto isso, museu está vazio

Publicado em 1 de fevereiro de 2019 às 00:31

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Um espaço vazio e sem movimento. Foi assim que a reportagem encontrou o Museu Capixaba do Negro Verônica da Pas (Mucane), no Centro de Vitória, na tarde da última quarta-feira (30), durante uma visita em pleno período de férias.

A imagem assustou a reportagem, uma vez que um museu é uma instituição dedicada a buscar, conservar, estudar e, principalmente, expor objetos de interesse duradouro ou de valor artístico, histórico - como visto em qualquer dicionário. Assim, nos perguntamos, onde está o acervo do Mucane, o único museu do negro do Estado?

Mucane - Museu Capixaba do Negro. ( Elizabeth Nader / Divulgação)

O material poderia estar exposto e preenchendo o espaço com obras importantes que contam a história do negro no Estado, uma vez que museus também são lugares onde os turistas buscam mais informações sobre a cidade e sua cultura.  Ao questionarmos funcionários do espaço sobre a falta de um acervo ou exposição, nos foi explicado que o local, antes de ser cedido à Prefeitura de Vitória, em 2007, passou por diversos roubos e muitos materiais históricos e importantes se perderam. Mas, desde 2012, quando a Prefeitura de Vitória entregou à população o espaço totalmente reformado, o Mucane recebe exposições - muitas por meio do Edital de Seleção de Projeto de Ocupação - que doam uma obra do seu montante para o acervo do espaço. Onde está esse material?

Procurando saber um pouco mais sobre o "acervo perdido", encontramos uma matéria de 2017 no próprio site da prefeitura falando sobre a catalogação do acervo do Mucane. Na época, a publicação falava de um patrimônio de 108 obras, organizadas em 11 conjuntos, que reúnem esculturas, fotografias, desenhos, gravuras e instrumentos musicais. O trabalho foi feito pela arte-educadora Franquilandia Raft, que conversou com a reportagem desse acervo que se encontra oculto.

"Iniciei o trabalho em 2017 e concluí no final de 2018. Ele foi realizado junto à equipe fixa do Mucane, com participação ativa dos estagiários. Estive num contrato temporário, devido a um edital de chamamento público que terminou no fim do ano passado. Minha função era de educadora e, como havia acervo sem pesquisa, isso me atraiu muito. Começamos a investigação sobre artistas e material para falar e contar a história do Mucane pelo seu acervo. Nesta pesquisa, houve a identificação das peças, entrevistas com os artistas, além da higienização básica e acondicionamento das obras", explica Franquilandia à reportagem do Gazeta Online.

Segundo ela, foram catalogadas 116 peças, algumas de nomes como Luciano Feijão, Juliana Pessoa, J.Cunha, Kika Carvalho, Luhan Gaba, Irineu Ribeiro, Zuiton Ferreira. "Essas peças estão descritas em 14 conjuntos. São 14 fichas com as descrições destas 116 peças que foram expostas no local ou que chegaram ao museu por outros meios, que tanto acontece quando o artista faz a doação quanto quando a prefeitura transfere de outros acervos", conta ela, explicando que algumas obras vieram da Casa Porto pois tinham ligação com a temática étnico racial.

Franquilandia conta que algumas peças deste patrimônio foram expostas dentro do museu em pequenas exposições de acervo. "Algumas peças foram exibidas no saguão do Mucane, como por exemplo o São Benedito com o Menino Jesus, escultura do artista Irineu Ribeiro, e o tambor mestre do artista Zuilton Ferreira. São peças importantes do acervo, que ajudam a contar um pouco da nossa história. Tudo está ligado: o congo, São Benedito, a batida do tambor. Raízes da nossa ancestralidade".

Por sinal, a escultura de São Benedito com Menino Jesus é a única que continua exposta no saguão de entrada do museu, que conta com auditório, anfiteatro, salas de exposição, biblioteca e espaços para oficinas de dança, percussão, entre outras atividades.

01/02/2019 - Escultura de São Benedito com o Menino Jesus, do artista Irineu Ribeiro. (Erik Oakes)

"O potencial educativo do acervo é inegável e por isso a documentação é importante. As fichas das obras e os termos de doação que organizamos constituem o primeiro passo para o cuidado com esse legado. Salvaguarda, pesquisa e exposição são vitais aos museus. E toda essa riqueza em um museu de recorte étnico-racial precisa ser compartilhada", analisa.

Mas, pelo jeito, uma mostra completa deste material está longe de sair da sala onde ele está guardado e ocupar o salão expositivo quando este estiver vazio e sem novas mostras. Procurada, a Prefeitura de Vitória respondeu que as 116 peças catalogadas estão no museu, mas ao responder o motivo das peças não estarem expostas, o órgão se limitou a dizer que "periodicamente, um pequeno conjunto de obras do acervo – que dialogam entre si - são expostas no hall de entrada do museu, espaço escolhido para dar visibilidade às obras".

Por que não expô-las nos salões expositivos? Em resposta a esta questão, a prefeitura apenas respondeu que "o acervo é composto por obras que integraram as exposições temporárias do Mucane, que foram realizadas no espaço expositivo".

Franquilandia, que já não faz mais parte do quadro do Mucane, explica que é necessário investimento adequado para expor os materiais. "A pesquisa foi o primeiro passo. Agora será necessário fazer um investimento em mobiliário adequado para segurança das obras, identidade visual, montagem, iluminação e outros aparatos necessários a uma exposição de artes visuais".

ESPAÇO É OCUPADO COM ATIVIDADES

Sobre o espaço estar vazio em pleno período de férias, a prefeitura explicou que no local foi realizada uma "programação de férias para o espaço com a realização da colônia de férias Quilombinho, entre os dias 21 e 25 de janeiro; os aulões da Companhia Vitória Street Dance (nos dias 26 de janeiro, 02, 09 e 16 de fevereiro) e os ensaios abertos ao público do Bloco Afro Kizomba, que estão sendo realizado as terças e quintas, desde o dia 10 de janeiro".

Anfiteatro do Mucane recebe oficinas e apresentações. (Divulgação / Semc / PMV)

A prefeitura também disse que, "neste período, também estão sendo realizadas manutenções periódicas no espaço expositivo e nas salas onde acontecem as oficinas. Além disso, em 2018, o Mucane realizou 05 oficinas/ cursos; 15 oficinas e ações a partir de projetos, 03 exposições temporárias; 14 eventos, entre realizados e apoiados, atingindo um público de aproximadamente 16 mil pessoas".

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