Caro Ferrer mistura música nordestina aos ritmos árabes em álbum

Segundo disco da cantora radicada na França traz fusões de ritmos e histórias

Publicado em 11/02/2019 às 11h58

Cantora Caro Ferrer
Foto:Sabrina da Paz/Divulgação
Cantora Caro Ferrer

Foi guiada pela intuição que a cantora brasileira Caro Ferrer, radicada na França há 18 anos, decidiu temperar a música nordestina com um toque árabe. Como resultado, nasceu o “Brisa Mourisca”, álbum lançado no fim do ano passado, que vai da zabumba à darbuka. Mais que a musicalidade, a conexão entre árabes e nordestinos também foi contemplada pela artista ao usar como inspiração questões político sociais, como migração e preconceito.

“Eu estava pisando em terreno desconhecido, me baseando na minha intuição de que ia ficar bonito, e quanto mais ia misturando, mais via que dava certo. Tudo se trançou muito naturalmente”, diz.

Embora o Rio de Janeiro seja sua terra natal, o Nordeste tem papel importante na vida e na carreira de Caro, que já morou em Natal (RN) e Fortaleza (CE). Desde que começou a cantar, seu repertório continha canções eternizadas por artistas como Alceu Valença, Vital Farias, Zeca Baleiro e Zé Ramalho.

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A característica, acredita a cantora, deu a ela um diferencial em relação aos demais artistas brasileiros na França, que priorizavam a bossa nova e o jazz. A escolha pela música nordestina fez com que alcançasse um público que tinha saudade da simplicidade e da aridez de coisas do Nordeste e do Norte.

Mesmo depois de começar a compor, a marca continuou a acompanhá-la. Em “Brisa Mourisca”, Caro decidiu inovar e desafiou a geografia para arriscar em uma combinação que ela já acreditava existir.

“Sempre senti pontos em comum entre ritmos nordestinos e a música maghrebina, egipciana ou argelina. Acho a maneira de cantar dos nordestinos próxima tanto da música árabe tradicional quanto do fado. Então, como eu estava fazendo um disco de côcos e baiões, com letras que retratavam paisagens e comportamentos áridos, eu decidi ornamentar essas canções com instrumentos árabes e persas”, explica.

OUSADIA

Caro não hesitou em arriscar misturas. “As percussões são brasileiras, árabes e persas. Tambores d’água, zabumbas, caixas, rebolos, chocalhos e congas que Wander Pio colocou entremeladas com dafs, reqs, carcabus, darbukas e bendirs de Amar Chaoui e Zé Luís Nascimento”, conta.

As composições falam dos povos, suas vidas e almas, e também dos desencontros dos amores migrantes. Uma inspiração que surgiu de suas viagens por Ceará, Paraíba, Marrocos, Sicília, onde viu trabalhadores braçais e migrantes, gente a quem ela chama de “firme e corajosa”.

“Ao mesmo tempo que eu ia mergulhando nas escutas e constatando cada vez mais semelhanças, fui associando as migrações, comuns desde sempre aos povos árabes e aos nordestinos. E, na sequência, os preconceitos e desqualificações que sofrem os migrantes. Eu vi o racismo aumentar com velocidade assustadora aqui na Europa exatamente ao mesmo tempo que o fascismo saía, também de maneira assustadora, do armário no Brasil”.

Por enquanto, “Brisa Mourisca” roda em Paris e subúrbios. Depois, a banda deve se apresentar em festivais na Europa entre maio e setembro. A vinda para o Brasil ainda é incerta, já que Caro faz questão de trazer toda a equipe, para garantir que a proposta chegue com perfeição ao público.

“Adoraria me apresentar com esse disco no Brasil. Mas é preciso ir com essa equipe, para conseguirmos manter a onda moura. Já me apresentei, com outros projetos, no Rio, em Fortaleza e João Pessoa. Mas sempre com músicos locais. Agora eu quero ir com essa equipe. Ando sonhando com um financiamento que organize uma turnê em algumas cidades. Ando também sonhando com algumas dessas canções tocando no rádio”, finaliza.

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