Agnès Varda se despediu com um borrão branco em filme-testamento

Exibido no Festival de Berlim, 'Varda par Agnès' foi feito para encerrar carreira

Publicado em 29/03/2019 às 11h49

Foto:Reprodução/Instagram @cinema_arts

Ainda inédito no Brasil, o filme "Varda par Agnès" é a obra-testamento com a qual a cineasta nascida na Bélgica, morta nesta sexta (29), escolheu se despedir de um público que a cultuou ao longo de seis décadas.

O documentário, exibido no último Festival de Berlim, mostra um esforço concertado por parte da diretora nesse sentido. Para começar, ela desloca os créditos da produção, que tradicionalmente sobem na tela ao final do filme, para aparecerem logo no início. Ela quis claramente que sua imagem derradeira fosse outra, e não a tela preta com uma lista de nomes.

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E a imagem que escolheu para se despedir é a de uma névoa que vai crescendo até virar um borrão branco e ocupar toda a tela, apagando a cena anterior, que trazia Agnès Varda, aos 90, contemplando uma praia. 

"Preciso me preparar para dizer adeus e achar a paz necessária para isso", disse ela em conversa com a imprensa na capital alemã, logo após a exibição do longa, 46 dias antes de morrer. Ovacionada pelos jornalistas, escondia o rosto entre as mãos, deixando à mostra apenas o cocuruto grisalho cercado pelas madeixas ruivas. "Não sou lenda, gente!"

O filme, ainda sem data de estreia no Brasil, é estruturado como se fosse uma aula de cinema. Diante de plateias diversas, a precursora da nouvelle vague senta no palco e fala de suas obras. Entremeadas nas discussões sobre o que é cinema, sobre o que se deve filmar etc, ela inclui bastidores de alguns de seus filmes mais famosos. Destrincha, assim, o que a moveu por trás de títulos como "Cleo das 5 às 7", "Os Catadores e Eu" e "As Praias de Agnès".

A diretora olha para o passado sem autoindulgência. Quando fala de "Os Renegados", por exemplo, longa com o qual ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza em 1985, ela convoca Sandrine Bonnaire, protagonista da obra, para uma conversa. A atriz reclama de que Varda era extremamente rude, e a cineasta enfim se compadece. A diretora também ri de fracassos retumbantes de sua carreira, caso de "As Cento de uma Noites".

A ironia com a qual revê a própria trajetória foi uma conquista recente, como ela mostra no filme. Próxima de completar 80 anos, diz, estava apavorada. Conforme os anos foram passando, o medo cedeu a uma serenidade algo fanfarrona. 

No ano passado, quando seu "Visages Villages" foi indicado ao Oscar e fez dela a pessoa mais velha a concorrer ao prêmio da Academia, ela não pôde ir a Los Angeles. Mas mandou em seu lugar um display em papelão com sua foto e em tamanho real que rodou de mão em mão enquanto atrizes como Meryl Streep e Greta Gerwig tiravam selfie com ele.

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