Filme premiado em Cannes é exibido no ES para celebrar o Dia do Índio

A sessão do luso-brasileiro "Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos" encerra a projeto "Aliança Indígena", no Cine Metrópolis, na Ufes.

Publicado em 16/04/2019 às 15h46

Atualizado em 16/04/2019 às 15h59

Filme: "CHUVA É CANTORIA NA ALDEIA DOS MORTOS"
Foto:Divulgação
Filme: "CHUVA É CANTORIA NA ALDEIA DOS MORTOS"

Num período em que os direitos dos indígenas estão sendo deixados de lado pelo atual governo (vide as dificuldades impostas ao funcionamento da Funai, como cortes de verbas e de pessoal), nunca foi tão importante se celebrar o Dia do Índio. Apesar de, neste ano, a data cair na Sexta-feira da Paixão, o Cine Metrópolis, na Ufes, antecipa as comemorações e debates acerca do assunto para esta quarta-feira (17) com o "Aliança Indígena". O evento promete reunir arte e cinema para trazer a reflexão sobre um povo bastante esquecido.

Das 8h às 20h, atividades multidisciplinares (como exibições de filmes, debates de projetos acadêmicos sobre o tema, lançamentos de livros, pintura corporal, mostra de dança e exibição de fotos) servirão para lembrar o Dia do Índio. Entre os destaques, estão as apresentações da banda de congo Tupinikim, de Caieiras Velha (de Aracruz), o lançamento da exposição "Tebi’u Eté", de Syã Fonseca e Raquel Lucena, e a pré-estreia do filme luso-brasileiro "Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos", entre outras ações culturais.

A sessão do longa-metragem está marcada para 20h. Após a exibição, haverá debate com o professor Fabio Camarneiro. A programação do "Aliança Indígena" é gratuita, exceto a pré-estreia do longa que terá cobrança de ingressos: R$ 10,00 (inteira) e R$ 5,00 (meia).

PRÊMIO

Um dos longas mais elogiados do circuito de festivais internacionais na temporada passada, "Chuva..." chega agora ao País após vencer mais de 11 troféus internacionais. O mais importante deles foi o Prêmio Especial do Júri na Mostra Un Certain Regard, do Festival de Cannes.

Aplaudido de pé, o filme luso-brasileiro perdeu o prêmio principal para o excelente sueco "Border", de Ali Abbasi. A conquista, porém, marcou o retorno do cinema nacional (na categoria longa-metragem de ficção) às premiações do festival de cinema mais importante do mundo. O drama indígena, dirigido por João Salaviza e Renée Nader Messora, veio cobrir um hiato de 10 anos, quando Sandra Corveloni levou a Palma de Melhor Atriz por sua atuação em "Linha de Passe" (2008), de Walter Salles. 

EXPERIÊNCIA

"Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos" deve ser encarado como uma experiência antropológica, de esmerada fotografia, direção de arte e pesquisa de linguagem. João Salaviza e Renée Nader Messora fizeram uma "viagem" imersiva ao cotidiano da aldeia Pedra Branca (Terra Indígena Krahô, em Tocantins). Rodado em nove meses, em um oportuno 16mm - o que dá um tom documental necessário à trama naturalista -, o filme acompanha Ihjãc, um jovem Kraho que, após um encontro com o espírito do seu falecido pai, se vê obrigado a realizar sua festa de fim de luto.

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Rejeitando seu dever e com o objetivo de escapar do processo de se transformar em xamã, ele foge para a cidade, onde enfrentará a realidade social do povo indígena e sua dificuldade de adequação ao cotidiano da sociedade.

João Salaviza e Renée Nader Messora acertam ao apostar no tom realista que beira o sobrenatural, tendo o cineasta tailandês Apichatpong Weerasethakul ("Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas", de 2010) como referência estética. Magia, misticismo e natureza transcendem o choque cultural de um homem que lutra contra a realidade de um mundo que não lhe pertence.

Filme: "CHUVA É CANTORIA NA ALDEIA DOS MORTOS"
Foto:Divulgação
Filme: "CHUVA É CANTORIA NA ALDEIA DOS MORTOS"

"O que mais aprendemos nessa relação com os Krahô foi a respeitar o tempo das coisas. Você não pode controlar tudo. Na aldeia, nosso filme era tão importante quanto lavar roupa, ir colher mandioca ou fazer reunião no pátio. Não era especialmente importante para ninguém. Nós também passamos a encarar o filme com esta perspectiva. O importante era justamente estar ali, 100% presente, vivendo aqueles dias com aquelas pessoas e tentando contribuir de alguma forma. Para isso, precisávamos de tempo”, acredita a diretora Renée Nader Messora.

Para a cineasta, a convivência na aldeia, participando da rotina da comunidade, fez a produção ganhar novos contornos. "Quando finalmente decidimos que Ihjãc seria o protagonista, ele também trouxe todo o seu núcleo familiar, suas questões cotidianas e sua maneira muito particular de se relacionar com o mundo. Então, o filme foi se moldando, ancorado numa forte presença de elementos reais e do dia a dia na aldeia", finaliza.

SERVIÇO

"Aliança Indígena"

Quando: 17 de abril (quarta-feira)

Onde: No Cine Metrópolis, no campus de Goiabeiras da Ufes - Av. Fernando Ferrari, s/n, Goiabeiras, Vitória

Todas as atividades do "Aliança Indígena" são gratuitas, exceto a pré-estreia de "Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos", que tem ingressos a R$ 10,00 (inteira) e R$ 5,00 (meia). Estudantes da Ufes têm entrada gratuita.

PROGRAMAÇÃO

8h: Apresentação de banda de congo e dança dos guerreiros Tupinikim, de Caieiras Velha (Aracruz); pintura corporal indígena; mística Guarani com Werá Djekupe (Marcelo Guarani); abertura da exposição "Tebi’u Eté", de Syã Fonseca e Raquel Lucena.

9h: Debate com o tema "Mulheres Indígenas: Saberes e Ancestralidade nos Tempos Atuais. 

Antes do início do debate, exibição do curta"Kayka Aramtem, Saber e Tradição de um Sábio Arukwayene", de Elissandra B. da Silva, Carina S. de Almeida, Adonias G. Ioiô e Ramiro Esdras C. Batista.

11h: Apresentação de trabalhos acadêmicos e culturais desenvolvidos em parceria com aldeias indígenas no Espírito Santo.

12h: Mostra de filmes indígenas, com a exibição de "Brincando na Aldeia"; "A Guerreira Gavião";  "Konãgxeka: o Dilúvio Maxakali"; "Manã Bai"; "Reikwaapa"; "Arandu Nhembo'e - Em Busca do Saber"; "Memórias de Comboios"; "Tatantin Wua Retée".

14h: Debate, "Direitos Adquiridos/Direitos Violados". 

16h: Mesa, "O Indígena e/na Universidade".

18h: Lançamento dos livros "Lutas Territoriais Tupinikim, Saberes e Lugares Desconhecidos" e "Devassa da Reforma da Religião da Companhia Nesta Comarca do Espírito Santo". 

20h: Pré-estreia do longa metragem "Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos". Após a exibição do filme, acontece um debate com o professor Fabio Camarneiro (Departamento de Comunicação da Ufes)

 

 

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