Clubes de leitura reúnem apaixonados por livros em Vitória

Além de estimularem a leitura, grupos mostram que compartilhar ideias sobre uma obra pode ser o maior barato e criam redes de amizade e conhecimento para além das reuniões

Publicado em 26/05/2019 às 08h14

Atualizado em 26/05/2019 às 18h14

Clube do Livro Vórtice Fantástico se reúne mensalmente na Pedra da Cebola para debater obras literárias
Foto:Marcelo Prest
Clube do Livro Vórtice Fantástico se reúne mensalmente na Pedra da Cebola para debater obras literárias

Ler é quase sempre uma atitude solitária. Navegar por uma história real ou ficcional enquanto folheia as páginas de um bom livro é prazeroso. Mas melhor ainda é compartilhar reflexões e pensamentos sobre a leitura e trocar ideias sobre uma obra. Esse é o grande elo que une grupos de leitura, ou clubes do livro. À primeira vista pode parecer ultrapassado para alguns, mas os clubes de leitura continuam na ativa em todo o mundo. Em Vitória não é diferente.

Alguns grupos são temáticos, como o Leia Mulheres, que se dedica à leitura de obras escritas por mulheres, e o Leia Capixabas, voltado para escritores do Estado. E tem até quem foque em textos em francês, como o Causerie Littéraire. Outros clubes se dedicam à obras de diferentes gêneros, como o Clube do Livro Vórtice Fantástico, que se reúne uma vez por mês na Pedra da Cebola.

O clima no Vórtice Fantástico é tipo o de um piquenique. Toalha no chão, livros e comidinhas espalhadas enquanto o grupo discute sobre a obra da vez. Criado em novembro de 2014, ele é coordenado pela produtora de conteúdo on-line Juliana Cirqueira. São 11 integrantes ativos que se reúnem mensalmente. O grupo é fechado, e atualmente conta até com lista de espera para quem quiser fazer parte.

“Algumas pessoas estão desde o começo e acabamos nos tornando amigos. Brinco que é quase um grupo de apoio. E o nosso bate-papo é mais solto, vamos conversando sobre o cada um achou do livro”, conta Juliana.

Apesar do clima de amizade, existe divergência de opiniões de vez em quando. Afinal de contas, o grupo é formado por pessoas de idades e profissões diferentes, como publicitários, estudantes, professores e engenheiro. “Mas a gente quer justamente ouvir o outro lado, saber por que gostou, por que não gostou. Às vezes acontece até de alguém mudar de opinião”, conta Juliana.

ABERTO AO PÚBLICO

Outro grupo que também se reúne mensalmente, porém é aberto ao público e não possui lista de espera, é o Clube do Livro ES, que conta ainda com apoio de grandes editoras de livros para sua realização. O clube já existe há oito anos e, em 25 de maio, fizeram um encontro sobre romance de época. Os encontros do Clube do Livro ES acontecem sempre no último sábado de cada mês.

CLUBES TEMÁTICOS

Fundado em maio de 2013, o grupo Causerie Littéraire é coordenado pela psicanalista Maria Celeste Faria. Primeiro, surgiu como Club De Lecture Quartir Latin, no qual o foco eram livros em francês. Ao todo, foram mais de 40 obras lidas pelo clube. Neste ano, eles decidiram mudar o nome e migrar para a leitura de pequenos textos.

“Observamos que todo mundo estava com a vida corrida e não estávamos conseguindo ler uma obra por mês. Agora, cada um dos oito integrantes leva um poema e sua crítica literária. Os encontros são mais descontraídos e as reuniões são itinerantes, cada vez em um canto”, diz a organizadora.

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Celeste também integra um grupo bem antigo, o CLIC - Clube de Leitura Italo Calvino. Com 10 anos de história, os participantes do grupo organizado por Sandra Martinelli se debruçam sobre clássicos como “Ulisses”, de James Joyce, e “Em Busca do Mundo Perdido”, de Marcel Proust. Para Celeste, participar de grupos como esse é prazeroso, principalmente nos dias de hoje, em que as pessoas parecem possuir dificuldades de escutar o outro.

“O clube representa uma oportunidade de sair da solidão da leitura. Quando uma pessoa se interessa por um livro, ela pensa em dividir aquilo com alguém que sabe do que ela está falando. Hoje as pessoas conversam tão pouco, falta interlocução. E no clube acontece essa troca, com as referências que cada um tem, de acordo com seu repertório linguístico”, explica.

EXPANDIR CONHECIMENTO

Renato Pacheco, Bernadette Lyra, Carlinhos Oliveira são alguns dos escritores explorados pelo clube Leia Capixabas. Com apenas dois meses de vida, os encontros são mensais e abertos para quem estiver interessado em desvendar e debater as riquezas da literatura capixaba. “Inclusive aceitamos ouvintes. Nossa ideia é fazer o conhecimento girar e descobrir coisas novas”, conta o idealizador do grupo e escritor Anaximandro Amorim.

O movimento de se reunir em torno da literatura nunca parou, segundo Anaximandro. Tanto que seus encontros reúnem pessoas de várias idades e matizes diferentes. “O que acho legal é imortalidade do livro, como ele continua importante. O que mudou é que agora vivemos em uma sociedade de nichos, então cada um procura o seu nicho, é um fenômeno normal da nossa era. Vejo isso com bons olhos porque surgem vários clubes temários e os participantes só tem a ganhar. Leitura nunca é demais.”

INCENTIVO E TROCA DE IDEIAS

Algumas obras podem ser difíceis de chegar até o final. Seja pelo tema, pela linguagem ou mesmo pelo tamanho do livro. É comum desistir no meio do caminho e o clube de leitura pode ser uma das formas de criar o hábito da leitura. Foi conversando sobre isso que a técnica em informática Elisabete Finco teve a ideia de criar um grupo de leitura conjunta on-line, o Clube do Farol, que existe desde fevereiro de 2016.

“Percebi a dificuldade de ler clássicos. Falta estímulo e as pessoas acabam desistindo desses clássicos e preferindo livros de autores mais contemporâneos. Na leitura conjunta podemos analisar vários pontos e aguçar a curiosidade, nos fazendo continuar. Em conjunto acho que uma pessoa consegue ler uma obra que ela não leria sozinha”, opina Elisabete.

O clube representa uma oportunidade de sair da solidão da leitura. Quando uma pessoa se interessa por um livro, ela pensa em dividir aquilo com alguém que sabe do que ela está falando
Maria Celeste, organizadora do Causerie Littéraire

O Clube do Farol é aberto para novos leitores. Por serem obras mais densas, as leituras geralmente duram dois meses. Existe um cronograma semanal, com uma média de 60 páginas por semana, e a leitura é feita de segunda a sábado. Aos domingos acontecem as discussões via WhatsApp. A leitura da vez é “Razão e Sensibilidade”, de Jane Austen.

Maria Celeste Faria, organizadora do grupo Causerie Littéraire e participante do CLIC-Clube de Leitura Italo Calvino, também acredita que os clubes de leitura a ensinam a gostar de ler ainda mais.

“Acho que ninguém nasce gostando de ler e obras mais difíceis às vezes parecem impossíveis de ler sozinha. No grupo um dá força para o outro. A leitura precisa ser incentivada ”, diz.

UNIÃO DOS GRUPOS

Mais do que encorajar um ao outro, os integrantes dos clubes de leitura acabam criando vínculos maiores. É o caso do Leia Mulheres Vitória.

O projeto acontece em 129 cidades do Brasil e surgiu em 2015. O objetivo é ler e discutir a literatura produzida por mulheres. “Mas o grupo acaba se estendendo para uma rede ampla de amizade e afeto”, diz Taiga Scaramussa, fundadora do grupo em Vitória.

Encontro do grupo Leia Mulheres Vitória, que tem o objetivo de discutir a literatura produzida por mulheres
Foto:Arquivo Pessoal Leia Mulheres
Encontro do grupo Leia Mulheres Vitória, que tem o objetivo de discutir a literatura produzida por mulheres

O primeiro encontro do Leia Mulheres Vitória ocorreu em setembro de 2016. Até hoje já foram realizados 27 encontros, sendo seis bate-papos com a presença de escritoras capixabas, como Bernadette Lyra e Brunella Brunello.

“A ideia de ter encontros assim foi proporcionar maior aproximação das leitoras com as escritoras locais que muitas vezes ainda são desconhecidas e que estão aí, em pleno vapor de produção, vivas!”, diz Taiga.

Em quase três anos, o clube de leitura formou um núcleo de mais ou menos 10 mulheres ativas. Todas dividem com Taiga a mediação dos encontros. Mais do que apenas ler um livro, as integrantes do Leia Mulheres buscam fortalecer umas às outras. “Assim vamos caminhando, nos ajudando, tentando colocar em prática palavras tão caras e difíceis para o movimento feminista, como o que conhecemos enquanto ‘sororidade’. A potência desses nossos encontros físicos vai desde os abraços, beijos e risadas, até a partilha das impressões, interpretações e opiniões relacionadas à leitura. Seria mais fácil e cômodo um encontro apenas on-line, mas também perderíamos muito do contato humano, da experiência que é estar umas com as outras”, conclui Taiga.

ANÁLISE

A primeira vez em um grupo de leitura

"Já tinha escutado falar do movimento Leia Mulheres e de seu grupo em Vitória. Sempre tive vontade de participar, mas foi só quando anunciaram o livro “Só Garotos”, de Patti Smith, que tomei coragem de participar pela primeira vez. Esse livro estava na minha lista de leitura há muito tempo, então uniu o útil ao agradável. Enrolei um pouco ainda, mas por ter uma data limite e uma meta de ler o livro até lá, confesso que foi muito mais fácil. O livro é muito bom, como eu imaginava, outro ponto positivo que me fez devorar as páginas rapidamente.

Ao chegar ao encontro, apesar de não conhecer ninguém, sabia que tínhamos algo em comum, o que tornou tudo mais fácil. Pessoas de idades e mundos completamente diferentes, dos 20 aos 80 anos, deixaram a discussão ainda mais enriquecedora. O encontro foi inspirador e já estou pronta para o próximo."

Benahia Figueiredo, repórter do Gazeta Online

SEIS LIVROS PARA QUEM QUER COMEÇAR A LER

"E Não Sobrou Nenhum" - Agatha Christie

Um delicioso mistério que faz com que o leitor não consiga largar o livro até descobrir os responsáveis pelas mortes. Afinal, nada parece ser o que realmente é, e o convite ao leitor (a) ser o detetive da trama é irresistível. (Dica de Elisabete Finco)

"Harry Potter e a Pedra Filosofal" - J. K. Rowling

Uma iniciação fantástica no universo literário da fantasia. Mais que um conto de fadas, bruxos e seres mágicos, o texto traz valores, autoconhecimento, amizade e o que todos nós temos, um universo de oportunidade de escolhermos quem queremos ser. (Dica de Elisabete Finco)

"Fique Comigo" - Ayòbámi Adébáyò

É um romance ambientado na Nigéria sobre um casal que, por desejar muito ter filhos, sucumbe à pressão da família tornando a tarefa de ser pais algo muito diferente do que esperava. É um livro poderoso e cheio de surpresas, que nos mostra o quão complexas as relações conjugais podem ser. (Dica de Juliana Cirqueira)

"Eu Receberia as Piores Notícias de seus Lindos Lábios" - Marçal Aquino

Neste livro, Marçal conquista os leitores com um romance tão real quanto doloroso, que revira os sentimentos do leitor, repleto de personagens extremamente bem construídos e sedutores. É uma história com uma narrativa envolvente, quase poética, e que traz um final totalmente inusitado. (Dica de Juliana Cirqueira)

"Madame Bovary" - Gustavo Flaubert

Considerado por muitos críticos e estudiosos como a maior realização do romance ocidental, a obra trata da desesperança e do desespero de uma mulher que, sonhadora, se vê presa em um casamento insípido, com um marido de personalidade fraca, em uma cidade do interior. “Madame Bovary” é sem dúvida a obra-prima do francês Gustave Flaubert. (Dica de Maria Celeste Faria)

"La Carte et Le Territoire (O Mapa e o Território)" - Michel Houellebecq

A história da vida do artista plástico Jed Martin é uma perturbadora fábula sobre arte, dinheiro, amor, amizade e morte, em que o celebrado e polêmico escritor francês consegue combinar, com maestria, poesia e violência, desesperança e compaixão. (Dica de Maria Celeste Faria)

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