Crítica: Química entre os protagonistas tira "O Anjo" do lugar comum

Longa argentino, em cartaz nos cinemas do Espírito Santo, traz a biografia de Carlos Robledo "Carlito" Puch, maior serial killer da história do país

Publicado em 02/05/2019 às 16h55

Filme argentino "O Anjo", em cartaz nos cinemas
Foto:Divulgação
Filme argentino "O Anjo", em cartaz nos cinemas

Bandidos sedutores no cinema são sempre uma atração à parte. É difícil não se apaixonar por Danny Ocean (George Clooney), em “11 Homens e um Segredo” (2011), por exemplo. Resistir a Clyde Barrow (Warren Beatty), de “Bonnie and Clyde” (1967), ou mesmo a Butch Cassidy e Sundance Kid (Paul Newman e Robert Redford, respectivamente), do filme de mesmo nome lançado em 1969, é um exercício e tanto.

Tomando as devidas proporções, também é praticamente impossível não se encantar com a dupla de anti-heróis Carlos Robledo “Carlito” Puch (Lorenzo Ferro) e Ramón (Chino Darín), que protagonizam o drama policial argentino “O Anjo” (em cartaz no Espírito Santo).

O interesse se dá graças à ótima química entre Ferro e Darín, bem dirigidos por Luis Ortega em uma trama movimentada, que mistura o noir e a violência gráfica de Quentin Tarantino com a sofisticação visual de Pedro Almodóvar (produtor do longa argentino). Não à toa, a fotografia estilizada de Julián Apezteguia abusa dos tons vermelho-sangue, azul e verde vibrante, muito comuns nas obras do mestre espanhol e usadas com maestria em clássicos como “De Salto Alto” (1991) e “Kika” (1993).

De Almodóvar, também, há a opção emocional de escalar uma de suas musas, Cecilia Roth, como a mãe superprotetora de Carlito. A atriz argentina trabalhou com o espanhol em seu filme mais premiado e cultuado, “Tudo Sobre a Minha Mãe”.

A história climática de “O Anjo” também é destaque. Luis Ortega acerta ao apostar no intimismo quase minimalista para retratar o maior serial killer da Argentina, o já citado “Carlito” Puch. Por conta de sua aparência angelical, a imprensa de seu país o chamava de “O Anjo da Morte”. Celebridade da noite para o dia, acredita-se que tenha cometido mais de 40 roubos e 11 homicídios. Hoje, quase 50 anos depois de sua prisão, Carlos é o prisioneiro mais antigo na história argentina e ainda possui uma legião de fãs.

DITADURA

A reconstituição de época retrata quase que cirurgicamente uma Argentina em busca dos valores morais perdidos enquanto enfrentava a ditadura militar de Alejandro Lanusse, no início da década de 1970.

O Carlos personificado por Ferro nada mais é do que o produto de uma juventude sem perspectivas, que rouba para passar o tempo e mata por diversão, em uma dura crítica social proposta pelo roteiro de Sergio Olguín, Luis Ortega e Rodolfo Palacios.

Ao contrário do que possa dar a entender, “O Anjo” não glamoriza o crime. Lógico que o filme não é moralista, mas a dura crítica à imprensa e sua necessidade de construir mitos traz um tom mais sóbrio ao filme.

Ramón, espécie de mentor e interesse sexual de Carlito (em uma tensão homoerótica que é apenas sugerida) poderia ser apenas um coadjuvante na trama. A expressividade de Chino Darín tira o personagem da mesmice, compondo um bandido que usa o sexo para conquistar a fama no showbiz. Sua masculinidade e olhar endurecido contrasta perfeitamente com a delicadeza feminina de Lorenzo Ferro. Filho de Ricardo Darín, Chino herdou o talento e o carisma do pai. Sua atuação sólida comprova isso.

A atmosfera complexa de “O Anjo” casa perfeitamente com o tom de crônica social quase policialesca que o cinema argentino vem impondo as suas produções. Com a mesma história violenta, Luis Ortega busca inspiração em Pablo Trapero, que também mostrou a ditadura militar influenciando um crime bárbaro, como visto em “O Clã”, de 2015.

Há, também, a sordidez social de Damián Szifron (“Relatos Selvagens, 2014), principalmente em retratar pessoas vivendo em situações-limite e apostando na barbárie para sobreviver. Seria uma radiografia da crise econômica atual da Argentina?

 

 

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