Festival Varilux completa 10 anos com exibição de 17 filmes franceses

Em Vitória, as sessões acontecem de 6 a 19 de junho, com sessões no Cine Jardins e no Centro Cultural Sesc Glória. Neste último, as projeções serão gratuitas

Publicado em 03/06/2019 às 09h34

Cena do filme "Graças a Deus", de François Ozon
Foto:Divulgação/Califórnia Filmes
Cena do filme "Graças a Deus", de François Ozon

Cento e vinte cinco anos já se passaram desde que os irmãos Louis e Auguste Lumière apresentaram o cinematógrafo para o mundo, em 1895, com a exibição de "Chegada de um Trem à Estação da Ciotat". O público, que lotou a sala Eden (ainda existente em Paris), nem poderia imaginar a potência que a indústria cinematográfica francesa se tornaria e, o que é melhor, sua forte influência social e cultural para o resto do mundo.

Os números são de fazer inveja para um país como o Brasil, atualmente sofrendo com cortes de verbas para a produção audiovisual e faltas de leis protecionistas no mercado exibidor. A França produz mais de 350 filmes por ano, conta com quase seis mil salas de exibição (quase o dobro do nosso mercado) e rende anualmente cerca de 1,4 bilhões de euros nas bilheterias.

Para celebrar o bom momento do audiovisual francófono, o Festival Varilux de Cinema Francês chega a décima edição confirmando a sua importância no calendário cultural brasileiro. Para 2019, a orgia cinematográfica - que acontece de 6 a 19 de junho - terá a exibição de 17 filmes em 80 cidades. Em Vitória, os espaços escolhidos foram o Cine Jardins e o Centro Cultural Sesc Glória. No último, as projeções serão gratuitas. A programação pode ser conferida no site.

UM LUGAR NA PLATEIA

Em entrevista exclusiva ao Gazeta Online, Christian Boudier, diretor e curador do evento, fez questão de ressaltar o aumento expressivo que o Festival Varilux ganhou com o passar dos anos. "Em 2010, o evento era apresentado em nove cidades para 22 mil espectadores. No ano passado, desembarcou em 88 lugares e contou com 180 mil pessoas na plateia, provando que o público sempre está aberto para novas experiências audiovisuais", comemora, dizendo que o amor incondicional que o brasileiro sente pela cultura francesa também é um forte indicador para o sucesso da empreitada. Nestes 10 anos, o evento já apresentou 25 mil sessões para quase um milhão de pessoas.

"O brasileiro conhece os atores e gosta das temáticas dos filmes, sempre questionadores, trazendo denúncias sociais, dramas familiares ou mesmo comédias de costume, sempre com a marca de cinema de autor peculiar aos franceses", acredita.

Da seleção de 2019, Boudier destaca a delicada questão da pedofilia, que está presente em duas produções. "É um tema muito questionado, que está provocando debates acalorados em todo o mundo", acredita. A polêmica temática, inclusive, é a espinha dorsal do longa-metragem mais esperado do Varilux. "Graças a Deus", de François Ozon ("Sob a Areia"), retrata a história de um padre acusado de molestar dezenas de meninos entre os anos 1980 e 1990. A produção, muito elogiada na Europa, venceu o Urso de Prata no Festival de Berlim 2019. O filme teve como base a história real que conduziu à condenação do cardeal francês Philippe Barbarin.

A pedofilia também entra em debate em outro título que merece ser conferido, "Inocência Roubada", de Andrea Bescond e Eric Metayer. Baseado na história real da diretora, o longa mostra a dança como um importante meio de superar traumas sofridos a partir de abusos sexuais na infância. Destaque no Festival de Cannes do ano passado, o drama ganhou dois César 2019 (o Oscar francês): Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Atriz Coadjuvante (para a sempre excelente Karin Viard).

Neste ano, o Festival Varilux faz uma espécie de tributo ao escritor Edmond Rostand, um dos mais festejados da literatura francesa. Autor do clássico "Cyrano de Bergerac", ele terá dois filmes relacionados ao seu nome em exibição na mostra: "Cyrano de Bergerac" (1989), de Jean-Paul Rappeneau, e "Cyrano Mon Amour" (2019), de Alexis Michalik.

Cena do filme "Cyrano de Bergerac", de Jean-Paul Rappeneau
Foto:Divulgação/Bonfilm
Cena do filme "Cyrano de Bergerac", de Jean-Paul Rappeneau

"Vamos aproveitar que 'Cyrano...' está fazendo 30 anos para exibir o longa de Rappeneau, que conta com a melhor atuação da carreira de Gérard Depardieu. Foi o filme que consolidou a grande indústria no cinema francês”, acredita, não esquecendo de citar a comédia de Alexis Michalik. "'Mon Amour' é uma delícia. Mostra o processo criativo de Rostand para escrever sua obra clássica. Uma comédia leve, que deve fazer muito sucesso no Brasil", pontua. Abaixo, veja o trailer de "Cyrano mon Amour".

Dentre os filmes imperdíveis que também merecem ser conferidos estão, "Filhas do Sol", polêmico longa de Eva Husson, que causou controvérsia em Cannes 2018 por mostrar um batalhão composto apenas por mulheres curdas que atua ofensivamente na guerra civil do Curdistão; "Finalmente Livre", comédia inteligente, que causou sensação na França, dirigida por Pierre Salvadori; "Meu Bebê", nova comédia de costumes da talentosa Lisa Azuelos; e "A Revolução em Paris", de Pierre Schoeller, uma superprodução que mostra um novo olhar sobre a Revolução Francesa.

DURA REALIDADE

Durante o bate-papo, Christian Boudier traçou um panorama preocupante sobre o setor audiovisual no Brasil. "Estamos vivendo uma fase sombria, com cortes de patrocínio, repressão artística e achatamento do circuito exibidor", analisa.

Não podemos aceitar este mercado colonizado que estão nos impondo, com três mil salas exibindo Os Vingadores e dando pouco espaço para produções brasileiras e filmes de arte. Precisamos nos unir para encontrar uma saída sustentável
Christian Boudier, curador do Festival Varilux

Sobre a recente passagem do cinema brasileiro pelo Festival de Cannes - com dois longas, "Bacurau" e "A Vida Invisível de Eurídice Gusmão", levando prêmios importantes -, o curador diz que é preciso aproveitar esse bom momento para firmar a nossa indústria audiovisual.

"Cannes mostrou solidariedade com o momento político por qual o Brasil está passando, mas as premiações também confirmam que o mercado estrangeiro está começando a ver o nosso produto audiovisual com outros olhos. O Brasil é um país diverso, com muitas histórias para mostrar e gente muito talentosa para fazer cinema. A hora é agora", aconselha.

FILMES NA PROGRAMAÇÃO

AMOR À SEGUNDA VISTA

De Hugo Gélin. Com François Civil, Joséphine Japy e Benjamin Lavernhe. Comédia. Da noite para o dia, Raphaël se vê mergulhado num mundo no qual nunca encontrou Olivia, mulher da sua vida. Como ele vai fazer para reconquistar sua mulher, que se tornou uma perfeita desconhecida?

ASTERIX E O SEGREDO DA POÇÃO MÁGICA

De Louis Clichy e Alexandre Astier. Animação. Versão dublada com a voz de Gregório Duvivier (Asterix) e versão legenda. Asterix e Obelix precisam ajudar o velho druida Panoramix a encontrar um novo guardião para a poção mágica da Gália. Durante a viagem pela região, eles devem impedir que a receita mágica caia em mãos erradas, dando início a uma inesperada aventura.

FILHAS DO SOL

Cena do filme "Filhas do Sol", de Eva Husson
Foto:Divulgação/Califórnia Filmes
Cena do filme "Filhas do Sol", de Eva Husson

De Eva Husson. Com Golshifteh Farahani e Emmanuelle Bercot. Drama. Bahar é a comandante das Filhas do Sol, um batalhão composto apenas por mulheres curdas que atua ofensivamente na guerra do país. Ela e as suas soldadas estão prestes a entrar na cidade de Gordyene, local onde Bahar foi capturada uma vez no passado. Mathilde é uma jornalista francesa que está acompanhando o batalhão durante o ataque. O encontro entre as duas mulheres, dentro do cenário caótico que as cercam, irá mudar a vida de ambas permanentemente.

ATRAVÉS DO FOGO

De Frédéric Tellier. Com Pierre Niney, Anaïs Demoustier e Chloé Stefani. Drama. Franck é bombeiro de Paris. Ele salva pessoas, é feliz. Durante uma intervenção num incêndio, ele se sacrifica para salvar seus homens. Ao acordar num centro de tratamento de queimaduras graves, ele entende que seu rosto se derreteu nas chamas. Ele terá que reaprender a viver e aceitar a ser salvo agora.

BOAS INTENÇÕES

De Gilles Legrand. Com Agnès Jaoui, Alban Ivanov e Tim Seyfi. Comédia. Sempre envolvida em uma série de trabalhos humanitários, Isabelle, professora de francês, vê-se em concorrência no centro social no qual trabalha. Ela vai então levar seus alunos a fazerem um curso inusitado de alfabetização.

CYRANO MON AMOUR

De Alexis Michalik. Com Thomas Solivérès, Olivier Gourmet e Mathilde Seigner. Comédia. Dezembro de 1897, Paris. Edmond Rostand ainda não completou 30 anos, mas já tem dois filhos e muitas angústias. Ele não escreve nada há dois anos. Desesperado por trabalho e há dois anos sem conseguir escrever, ele propõe ao renomado ator Constant Coquelin uma nova peça, uma comédia heroica, em verso. Ele começa a escrever essa peça na qual ninguém acredita. Por enquanto, ele só tem o título: “Cyrano de Bergerac”.

OS DOIS FILHOS DE JOSEPH

De Félix Moati. Com Vincent Lacoste, Benoît Poelvoorde e Mathieu Capella. Comédia. Para Ivan, um menino de 13 anos, seu pai Joseph e seu irmão mais velho Joachim são os seus principais modelos de vida. Porém, em determinado momento os dois falham e o jovem percebe como pode ser ruim conhecê-los.

FINALMENTE LIVRES

Cena do filme "Finalmente Livres"
Foto:Divulgação/ Califórnia Filmes
Cena do filme "Finalmente Livres"

De Pierre Salvadori. Com Adèle Haenel, Pio Marmai e Damien Bonnard. Comédia. Yvonne, jovem inspetora de polícia, descobre que o marido, o capitão Santi, herói local morto em combate, não era o policial corajoso e íntegro que ela pensava, mas um verdadeiro bandido. Determinada a reparar os erros cometidos por ele, Yvonne cruza o caminho de Antoine, injustamente preso por Santi durante oito longos anos.

GRAÇAS A DEUS

De François Ozon. Com Melvil Poupaud, Denis Ménochet e Swann Arlaud. Drama. Alexandre vive em Lyon com a esposa e os filhos. Um dia, ele descobre, por acaso, que o padre que abusou dele enquanto era escoteiro ainda prega junto às crianças. Ele inicia, então, um combate, ao qual se juntam, rapidamente, François e Emmanuel, também vítimas do padre, para “liberar a palavra” sobre o que sofreram e criam um grupo de apoio para aumentar a pressão na justiça por providências. Mas, eles terão que enfrentar todo o poder da cúpula da Igreja. 

UM HOMEM FIEL

De Louis Garrel. Com Laetitia Casta, Louis Garrel e Lily-Rose Depp. Comédia. Marianne deixa Abel por Paul, seu melhor amigo e pai de seu futuro filho. Oito anos depois, Paul morre. Abel e Marianne voltam a namorar, despertando sentimentos de ciúmes tanto no filho de Marianne, Joseph, quanto na irmã de Paul, Eva, que secretamente ama Abel desde a infância.

INOCÊNCIA ROUBADA

De Andrea Bescond e Eric Metayer. Com Andrea Bescond, Karin Viard, Clovis Cornillac e Pierre Deladonchamps. Drama. Aos oito anos, Odette gostava de pintar e desenhar, como toda criança inocente. Eventualmente, ela também brincava com os adultos, por isso não recusou participar de uma "guerra de cócegas" com um homem mais velho, amigo de seus pais. Anos depois, Odette é uma adulta assombrada pelos traumas da infância, algo que ela vem tentando esquecer através da dança, sua profissão.

MEU BEBÊ

Cena do filme "Meu Bebê", de Lisa Azuelos
Foto:Divulgação/Bonfilm
Cena do filme "Meu Bebê", de Lisa Azuelos

De Lisa Azuelos. Com Sandrine Kiberlain, Thaïs Alessandrin, Victor Belmondo. Comédia. Héloïse é mãe de três filhos. Jade, sua "caçulinha", acabou de fazer 18 anos e vai sair do ninho para continuar seus estudos no Canadá. Ela se lembra dos momentos compartilhados, de uma terna e profunda relação mãe-filha e antecipa tanto a partida que vai se esquecer de viver o presente.

O MISTÉRIO DE HENRI PICK

De Rémi Bezançon. Com Fabrice Luchini, Camille Cottin e Alice Isaaz. Comédia. Em uma estranha biblioteca no coração da Bretanha, uma jovem editora descobre um manuscrito extraordinário que imediatamente decide publicar. O romance se torna um best-seller. Mas seu autor, Henri Pick, um fabricante de pizza bretão que morreu dois anos antes, nunca teria escrito nada além de suas listas de compras, segunda a viúva. Convencido de que se trata de uma fraude, um famoso crítico literário decide liderar a investigação.

O PROFESSOR SUBSTITUTO

De Sébastien Marnier. Com Laurent Lafitte, Emmanuelle Bercot e Pascal Greggory. Drama. Um professor, de um respeitado colégio, se joga da janela sob os olhares assustados de seus alunos. Seis deles não demonstram sentimento algum. Pierre, o professor substituto de francês, rapidamente nota o comportamento estranho deste grupo de seis alunos, que são extraordinariamente inteligentes e admirados por todos os professores. Da curiosidade à obsessão, Pierre tentará descobrir o segredo destes jovens.

QUEM VOCÊ PENSA QUE SOU

De Safy Nebbou. Com Juliette Binoche, François Civil e Nicole Garcia. Drama. Desconfiada de seu marido Ludo, Claire Millaud, de 50 anos, decide criar um perfil falso em uma rede social. Lá, ela atende por Clara, uma bela jovem de 24 anos. Alex, amigo do seu marido, é uma das pessoas com a qual o avatar interage. O homem acaba se apaixonando por Clara, enquanto Claire, por trás das telas, também nutre um sentimento de amor por Alex. Apesar de tudo se desenrolar no mundo virtual, as emoções evocadas são bastante reais, e podem trazer complicações para ambos.

A REVOLUÇÃO EM PARIS

Cena do filme "A Revolução em Paris"
Foto:Jerome Prebois/ Divulgação
Cena do filme "A Revolução em Paris"

De Pierre Schoeller. Com Gaspard Ulliel, Adèle Haenel, Olivier Gourmet, Louis Garrel, Izïa Higelin, Noémie Lvovsky e Laurent Lafitte. Drama. Em 1789, sob o reinado de Luís XVI, o povo francês rebela-se contra a monarquia e exige uma transformação na sociedade baseada nos princípios de liberdade, igualdade e fraternidade. "Un Peuple et Son Roi" cruza os destinos de homens e de mulheres comuns com figuras históricas. No meio da história, há o destino do rei e o surgimento da República.

CYRANO DE BERGERAC

De Jean-Paul Rappeneau. Com Gérard Depardieu, Anne Brochet, Vincent Perez e Jacques Weber. Comédia. Poeta sentimental, filósofo emotivo e dualista hábil, Cyrano é apaixonado pela bela Roxanne, mas não a paquera por vergonha do seu grande nariz. Ao invés disso, ele escreve cartas de amor para o lento, mas charmoso Christian para que ele conquiste a mão da donzela. Ela acaba se apaixonando perdidamente pelo autor, mas não sabe que foram escritas por Cyrano.

SERVIÇO

Festival Varilux de Cinema Francês

Quando: de 6 a 19  de junho

Onde: no Cine Jardins e Centro Cultural Sesc Glória. O Centro Cultural Sesc Glória contará com sessões gratuitas.

Veja a programação no site oficial do evento. 

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