Paulo César Pinheiro comemora 70 anos com livro de crônicas

Em "Figuraças", renomado compositor reúne crônicas sobre ícones como Candeia e Madame Satã

Publicado em 02/06/2019 às 08h44

Foto: Silvana Marques/Divulgação
Paulo César Pinheiro: "Ainda tenho muita lenha para queimar, muita ideia na gaveta esperando o tempo, muita música inédita, ideias e rascunhos"

“Eu não me preocupo com modernidades. Prossigo fazendo tudo da maneira que sempre fiz: escrevo à mão e guardo, decoro o que estou fazendo. Torço por uma pane mundial em um satélite qualquer”, diz, aos risos, o compositor, poeta e dramaturgo Paulo César Pinheiro. Com 70 anos recém-completados e “pai” de mais de duas mil músicas que integram o cancioneiro popular brasileiro, Paulo acaba de lançar o livro “Figuraças”, coletânea de crônicas que retratam, como o nome sugere, figuras emblemáticas que cruzaram o caminho do artista ao longo das sete décadas de vida – cinco delas dedicadas à escrita e à música.

Entre os “causos” reunidos, estão alguns que citam do sambista Candeia a Madame Satã, figura emblemática que marcou, por décadas, as ruas e becos do bairro boêmio da Lapa, no Rio.

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Em entrevista por telefone ao Gazeta Online, o compositor gravado por mais de 500 intérpretes falou sobre o novo livro, sobre as inspirações e fez um balanço da carreira. Confira o bate-papo.

O livro traz retratos muito comuns ao subúrbio do Rio. Tudo foi tirado de fatos do cotidiano?

As pessoas acham que é mentira, falam que exagerei, mas eu vivi tudo mesmo, não mexi em nada. Conheci dezenas, talvez centenas de pessoas assim. Tenho material para mais uns três livros de figuraças, gente interessante mesmo, que a gente escreve com um certo humor, histórias emblemáticas. Como é o caso que conto sobre Candeia e sobre Sá Teresa, decana do jongo da Serrinha, matriz do Império Serrano. Quando a escravidão terminou, ela veio da Zona da Mata mineira trabalhar como engomadeira para o Marechal Deodoro da Fonseca. A conheci com 117 anos, ela morreu com 119.

O senhor atravessou gerações, chegou a musicar choros do Pixinguinha e hoje faz parceria com compositores na casa dos 20 e poucos anos…

O Pixinguinha, se estivesse vivo, estaria fazendo 122 anos. Eu atravessei cinco gerações. Minha obra é grande, vasta, são mais de 2.000 músicas, já me disseram que é coisa de livro dos recordes (risos). De novembro para cá, diversos discos com músicas minhas foram lançados. Falando de um panorama, o leque das coisas mais emblemáticas tem as parcerias com Baden Powell, Dori Caymmi, João Nogueira, Eduardo Gudin…

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E onde busca inspiração em tempos como o que estamos vivendo?

Já vivi muitas fases parecidas, não é novidade para mim. De tempos em tempos as coisas se modificam, passei por muitos momentos políticos pesados, às vezes leves. A cultura vai caminhando maleavelmente desse jeito e eu vou atrás. Quando posso fazer, faço. Quando não posso, calo. Costumo dizer que fico “guerrilheiramente” trabalhando. Nasci fazendo isso, é minha sina, meu dom, virou minha profissão. A música me carregou para caminhos, gêneros diversos. Faço melodia, letras, contos, crônicas, escrevo romances, faço teatro, são muitos braços. Quando um esmorece e sinto que estou me repetindo, parto para outro gênero literário. Além disso, minhas parcerias me renovam o tempo inteiro. Estou sempre fazendo, sempre trabalhando. Sou e quero ser inesgotável.

Consegue traçar um paralelo entre o compositor que começou ainda adolescente e o de agora?

Só a idade! Comecei a fazer música com 13 para 14 anos. Tenho músicas desta época que são regravadas até hoje no mundo inteiro. Ultrapassei fronteiras, nem sei mais por onde andam minhas músicas. Eu jamais andaria por onde elas andam, nem se eu viver 100 anos. Já ouvi composição minha como música ambiente no metrô no Japão. Essas coisas são muito agradáveis, simbolizam a força daquilo que você fez, que cruzou fronteiras, foi embora e te deixou lá para trás.

Assim como atravessou gerações, passou também por várias fases diferentes da literatura e da música… Como encara isso?

Eu digo que vivo minha própria fase. Em todas as fases eu sou a minha fase. As mídias de hoje… eu não sei. Não tenho celular, não trabalho no computador como as pessoas. Escrevo à mão e guardo. Decoro o que estou fazendo, gravo em fita cassete. Então não me preocupo com modernidades, com essas coisas de cada tempo. Prossigo fazendo do jeito que fazia sempre e torcendo por uma pane mundial em algum satélite qualquer (risos). Acho um absurdo que as pessoas se sentem em um bar e conversem pelo celular.

Quem tem acompanhado da nova safra?

Tem muita gente que me procura para mostrar as coisas, mas o mais jovem deles é o Miguel Rabello, que tem 23 anos. Nessa faixa até os 40, muitos procuram porque gostam do que faço. São jovens que não seguem modismos, estudam, conhecem, tocam bem, não se levam pelos caminhos industriais da arte: Bernardo Diniz, João Camarero, Miguel Rabello, meus filhos Julião (Pinheiro) e Ana (Rabello). É uma nova geração potente, que sabe o que quer, que não quer estar na mídia e está fazendo a retomada dos elos perdidos. Essa é a definição mais clara e contundente dessa meninada que tenho visto por aí.

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“Figuraças” é parte das comemorações de seus 70 anos de idade, não é?

Sim, as comemorações começaram em novembro passado, com o lançamento do “Poemúsica”. Agora lancei o “Figuraças” e pretendo lançar um outro em novembro próximo, chamado “Mil Versos, Mil Canções”. Este último surgiu da minha percepção, ao longo dos anos, de que as pessoas citavam versos meus até comigo mesmo presente, na mesa de bar, numa festa, enfim, citavam como se fossem provérbios. Uma vez recebi um cartão de Natal de uma firma com “o importante é que a nossa emoção sobreviva” como se fosse um ditado popular. Por causa disso, peguei meus primeiros cadernos, lá do começo de tudo, de quando eu tinha 14, 15 anos e fui destacando esses versos que parecem provérbios. Quando minha lista chegou a mil, eu parei e fiz o livro. Mas já tenho outras selecionadas para livros posteriores também.

Vejo que o senhor ainda tem muita lenha para queimar…

Bastante (risos). Tem muita música inédita, muita ideia na minha gaveta, esperando um tempo para serem organizadas. Estou com duas peças teatrais na cabeça, que também não tive tempo de sentar para escrever. Ainda tenho duas ideias de romances rascunhados. Em um momento qualquer vou ter tempo, aí sento e não levanto até terminar a ideia. Nesse ponto sou mesmo compulsivo. Quando começo um projeto, não paro. Já as músicas eu vou fazendo, já são minha rotina.

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