Almodóvar: entre melodrama e o erotismo, diretor aposta na diversidade

Gazeta Online aproveita a estreia do novo filme do diretor, "Dor e Glória", e traça um perfil das obras do cineasta

Publicado em 20/06/2019 às 15h30

Pedro Almodóvar, cineasta espanhol
Foto:Divulgação/Universal
Pedro Almodóvar, cineasta espanhol

É impossível destacar as referências cinematográficas de Pedro Almodóvar (69) - cujo novo filme, "Dor e Glória", estreia nesta quinta (20) nos cinemas do Estado - sem relacioná-los a alguns dos acontecimentos marcantes de sua infância, especialmente quando morava com a mãe, Francisca Caballero (chamada carinhosamente de Paquita) na minúscula Calzada de Calatrava, cidadezinha do interior da Espanha.

Abandonado pelo pai, Pedro era paparicado pela matriarca, com quem mantinha uma relação de amor e ódio. Antes de morrer, em 1999, Paquita revelou um dos grandes segredos do rebento: quando menino, o filho adorava colecionar figurinhas de estrelas do cinema que vinham como brindes em pequenos chocolates.

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Seu mimo preferido? Uma imagem de Ava Gardner usando um chamativo vestido vermelho. Diva de John Ford, ela foi estrela de uma das obras-primas do diretor: "Mogambo" (1953), papel que rendeu a única indicação ao Oscar da subestimada atriz. "Uma dia vou ser como ela", repetia, insistentemente, o esperto Pedrito (como era chamado pela mãe), que passou a adolescência trancado nos cinemas "absorvendo" clássicos de seu diretor preferido, Douglas Sirk, em obras como "Amar e Morrer" (1958) e "Imitação da Vida" (1959).

LEMBRANÇAS

Pedro Almodóvar, cineasta espanhol
Foto:Divulgação
Pedro Almodóvar, cineasta espanhol

Memórias à parte, relembrando passagens da vida de Pedro Almodóvar podemos entender algumas (ou talvez todas) das suas referências narrativas: a relação quase que magnética com personagens femininos fortes, especialmente mães; a paixão pelo vermelho-sangue e a peculiar verborragia visual vista em todos seus projetos; as influências estéticas de Douglas Sirk, John Cassavetes, do escritor Tennesse Williams e do pintor Edward Hopper em muitos de seus trabalhos.

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Ah, sim: de um lar dividido e disfuncional (de onde Pedrito saiu), veio o conceito de "nova família" sempre presente nos longas "almodovarianos". Travestis, padres, drogados, freiras, mulheres estéricas, drag queens e pervertidos sexuais convivem em perfeita harmonia, compondo, com ironia e exagero, a classe média padrão idealizada pelo diretor, que já venceu dois Oscar (Filme Estrangeiro, com "Tudo Sobre a Minha Mãe", de 1999, e Roteiro Original, por "Fale com Ela", de 2002). Multipremiado, só não conseguiu um reconhecimento importante na carreira: a Palma de Ouro no Festival de Cannes.

Em tópicos, o Gazeta Online listou algumas características narrativas sempre presentes nas obras do cineasta. Com isso, aproveitamos para apontar os seus títulos imperdíveis.

DIVERSIDADE SEXUAL

Tema marcante em toda a cinematografia de Pedro Almodóvar. Em "A Lei do Desejo" (1987), seu melhor filme, há uma ciranda amorosa entre um cineasta (Eusebio Poncela), seu namorado (Antonio Banderas, jovem e em início de carreira) e a irmã trans, Tina Quintero (Marisa Paredes, a atriz preferida do realizador). Abaixo, veja um trecho de "A Lei do Desejo".

Em "De Salto Alto" (1991), o espanhol abusa do vermelho-sangue para mostrar os impulsos sexuais de uma mulher (Victoria Abril, outra musa do diretor) que se apaixona por uma drag queens (o galã Miguel Bosé), engravida e tem problemas com a mãe distante (Marisa Paredes).  Veja o trailer do filme.

Vencedor do Oscar, "Tudo Sobre Minha Mãe" (o maior sucesso comercial do realizador), trazia uma mulher (Cecilia Roth) assumindo o filho de uma freira (Penélope Cruz, em início de carreira) com um travesti (Toni Cantó). 

A FORÇA DELAS

As mulheres são o epicentro dos filmes de Almodóvar, sempre vivendo histórias passionais, que flertavam como metamelodrama (gênero narrativo criado pelo diretor). "Mulheres À Beira de um Ataque de Nervos" (1988), o projeto que revelou o diretor para o mercado, traz uma ciranda de relações, mostrando os apuros de mulheres abandonadas, amantes proibidos e atentados terroristas, tudo embalado por um humor kitsch delicioso. No elenco, estrelas consagradas por Pedro, como Carmen Maura, Julieta Serrano, Rossy de Palma e Chus Lampreave. 

"A Flor do Meu Segredo" (1995) - talvez sua fita mais depressiva - mostra uma escritora famosa (Marisa Paredes), separada do marido e que começa a trabalhar como crítica literária, tendo que avaliar o seu próprio trabalho. Uma dura crítica à mulher que precisa se reinventar quando chega à maduridade. 

Uma curiosidade: a mãe de Almodóvar, Francisca, também foi musa inspiradora em vários de seus filmes, fazendo participações especiais em obras como "O Que Fiz Eu Para Merecer Isso?" (1984), "Mulheres À Beira de um Ataque de Nervos" (1988), "Ata-Me" (1989) e "Kika" (1993).

VIOLÊNCIA EM OUTROS TONS

A violência, quase sempre estilizada e materializada em forma de erotismo, é um atrativo mórbido nas obras do diretor. Em "Kika" (1993), uma mulher (Verónica Forqué) é estuprada enquanto debate sobre os problemas sociais da Espanha. "Ata-Me!" (1989), por sua vez, traz Antonio Banderas vivendo um homem que sequestra uma mulher (Victoria Abril) e começa a torturá-la para demonstrar o seu amor, em uma alegoria sobre amores abusivos. Em "O Matador" (1986), Nacho Martínez é um toureiro que costuma fazer amor com as mulheres antes de matá-las. Tudo muda quando ele conhece Maria (Assumpta Serna).

Abaixo, veja os trailers de "Kika", "Ata-Me!" e "O Matador"

"Kika"

"Ata-me!"

"O Matador"

TUDO É PERMITIDO

Uma vida de excessos, repleta de drogas, pessoas "subversivas", que estão prontas para quebrar os padrões de sociedades conservadoras. Assim foi com as freiras que cultivam drogas, e são usuárias, em "Maus Hábitos" (1983). No longa, uma madre superiora (Julieta Serrano, em grande atuação) é lésbica e traficante. No primeiro longa-metragem do realizador, "Pepi, Luci, Bom e Outras Garotas de Montão" (1980), vemos o panorama de uma banda de rock-punk que comete todos os excessos possíveis. No filme, destaque para o cineasta, que aparece como um cantor de rock travestido. Detalhe: ele também cantava "montado" em sua banda na vida real, a "Almodóvar y McNamara", no início dos anos 1970.

Abaixo, veja o trailer de "Maus Hábitos" e um trecho de "Pepi, Luci, Bom e Outras Garotas de Montão".

"Maus Hábitos"

"Pepi, Luci, Bom e Outras Garotas de Montão"

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