"O rock virou o tio chato do churrasco", diz Rodrigo, do Dead Fish

Capixabas que figuram entre os mais relevantes na cena hardcore (e não só) do país acabam de lançar "Ponto Cego", álbum que questiona de forma direta o momento político atual

Publicado em 12/06/2019 às 20h23

Atualizado em 13/06/2019 às 17h13

Marcão Melloni, Rodrigo Lima e Ric Mastria formam o Dead Fish de "Ponto Cego"
Foto:Marcelo Marafante/Divulgação
Marcão Melloni, Rodrigo Lima e Ric Mastria formam o Dead Fish de "Ponto Cego"

“A narrativa vinda do colonizador/tingiu de branco nossa história/ E sem escrúpulo omitiu e apagou/ O outro lado da moeda”. Já nos primeiros versos de “A Inevitável Mudança”, faixa que abre o recém-lançado “Ponto Cego”, o Dead Fish mostra que o novo disco veio para colocar o dedo na ferida.

Com mixagem assinada por Bill Stevenson, da banda norte-americana de punk rock Descendents, o novo álbum de inéditas chega para falar do momento político atual sem meias palavras – como manda a fórmula do bom punk.

Sem lançar um disco de inéditas desde “Vitória” (2015), a banda capixaba – que se apresenta nesta sexta-feira (14) no Vikings Festival, no Shopping Boulevard Vila Velha – mostra estar mais atenta que nunca. Em entrevista por telefone ao Gazeta Online, o vocalista Rodrigo Lima falou sobre a concepção do disco, sobre o cenário político e cultural atual e sobre a solidez da carreira. Confira o bate-papo:

Estamos em uma crise política há bastante tempo, já. Quando decidiram fazer o disco?

Na verdade a parte instrumental começou a ser concebida antes do golpe de 2016. Não sei se você vai escrever aí impeachment ou golpe, mas pra mim foi golpe. Vim com a ideia de ter um álbum rápido, bastante musical, melodioso, mas o conceito das letras só apareceu antes do fim da eleição, coisa de três meses antes, em 2018. A intenção era ser direto, falar do óbvio. As pessoas querem respaldar suas verdades idiotas pelo Whatsapp ou lacrando em alguma rede social. Nós queríamos algo que falasse da realidade macro dentro desse universo micro, dessa bolha, que é o que todo mundo fez durante esse processo todo. As pessoas estão tentando respaldar seus ódios dentro de bolhas, de uma realidade pautada por fake news.

Vocês fizeram um trabalho com uma pegada mais das antigas, até na sonoridade mesmo. A intenção foi resgatar essas raízes do hardcore?

É, foi intencional, queríamos um disco mais reto. Um amigo meu aí de Vitória esses dias brincou falando “ah, quem diria, Rodrigo, depois do (disco) ‘Sonho Médio’ voltou a ser panfletário com 40 e tantos anos” (risos). Mas foi algo racional. Não posso tentar tocar pessoas nas suas subjetividades, fazendo algo como o (disco) “Afasia”. Não é o momento. O momento é disso: voltar em algumas coisas que a gente fez lá atrás, ver as coisas em sentido literal.

Como encara o momento atual da música e o meio em que tá inserido, considerando o surgimento de um público conservador dentro do hardcore/punk e outros gêneros como o rap despontando como música de resistência?

Você tem razão nisso que diz sobre os garotos do rap. É o momento deles. O rock virou o tio chato do churrasco, o tio otário do churrasco, que fica falando “ah, porque no meu tempo...”. Mas eu, aqui dentro da minha cultura, posso dizer que o que me tornou um ser humano melhor foi o punk, foi o hardcore. Na minha bolha vejo gente criando, questionando, até mesmo fora da estética musical, mas na filosofia punk, como artistas visuais, da área da tecnologia, enfim. Resta saber também se vamos receber a atenção devida. O rap tem vindo com uma carga tipo “vocês precisam ouvir o que passei por 300 anos, agora é minha vez, veja o que minha avó passou”. Isso é uma novidade. Não que o rock tenha deixado de ser contestador, mas digamos que envelheceu de um jeito pior do que gostaríamos.

E qual seria o caminho pra retomar o rumo desse movimento?

Bem, nós somos músicos, somos o meio que questiona para que as pessoas tenham argumentos e cheguem a algum lugar. O caminho é...voltar a ser punk (risos). Não só botar as fichas em cima do punk. Mas a solução vem de muitas frentes, vem de quem luta por direitos humanos, vem do público LGBT, vem da galera que tá no contexto da internet levantando debates progressistas...

Houve quem dissesse que vocês não dão nome aos bois no disco, mas o discurso me pareceu bem direto...

É, pensa no disco como um quadro cheio de detalhes. Um retrato do hoje. Falar o nome do Bozo dá azar (risos), não vou dar essa moral para ele, pro circo do trabuco. Eu acho que fomos bem pra caralh* nesse trabalho.

Como encara o fato de se manterem relevantes há quase 30 anos?

Eu não consigo explicar. A gente gosta muito do que faz. Estamos todos envolvidos com isso é muito tempo, e é muito difícil me colocar de fora para dar uma justificativa para isso. A banda é muito intensa. Tão intensa, que muita gente deixou a banda e ela continua aí. Lá atrás, em 1993, decidimos que a banda era o mais importante, e que os indivíduos dentro dela se adequariam. Foi assim que aconteceu.

E qual a diferença entre lançar “Vitória” (2015) e “Ponto Cego” agora?

O “Vitória” foi algo que despertou o lance da consolidação da carreira. Já em “Ponto Cego” sinto mais ódios e mais amores, e isso é tão bom! Despertamos sentimentos, discussões sobre o aqui agora. Essa pintura do quadro que interessava a nós. Paramos e pensamos “deu tudo certo”, “funcionou”.

Como se deu a parceria com Bill Stevenson, do Descendents?

Quando o Descendents veio ao Brasil alguns anos atrás, eu e o André, nosso empresário, tínhamos a intenção de juntar uma grana para gravar lá no estúdio deles, com o Bill. Fomos no camarim, mandamos a real, e ele fez um preço bacana. Começamos a nos organizar, mas o dólar subiu. Quando tínhamos material, já não tínhamos mais o poder financeiro que nosso dinheiro tinha antes. Procuramos a Deck (gravadora), rolou tudo e aí no final da gravação fizemos contato de novo e ele foi tão legal quanto foi anos antes. É um cara simples, fácil de lidar, um cientista do punk que não se coloca nesse lugar. Mandava as faixas pra gente e pedia feedback, conversava, entendia o que queríamos. Tivemos até umas questões internas na banda por conta disso. O Marcão, que é mais do metal, falou que não queria um álbum padrão de hardcore melódico como o Bill costumava fazer e aí disse que ele não fazia só isso. Hoje vemos que se não fosse ele nesse trabalho, não teria sido tão bom. Tudo funcionou muito bem desde que começamos a estruturar o disco, desde o timing até a escolha da arte da capa. Se esse disco tivesse vindo antes, não teria dado tão certo assim.

Ponto Cego

Dead Fish. Deck Disc, 14 faixas. Disponível nas principais plataformas de streaming.

Compartilhe



Mais no Gazeta Online