"Lugar de malandro é em pé", diz sambista Riachão aos 97 anos

"O samba é alegria, é amor. O samba é Deus", diz

Publicado em 19/07/2019 às 08h58

Atualizado em 19/07/2019 às 08h58

O sambista Clementino Rodrigues, o Riachão
Foto:Reprodução/Instagram @trevo.producoes
O sambista Clementino Rodrigues, o Riachão

"Minha vida é alegria/ À tristeza não dou bola/ Se surgir algum problema/ Com o samba resolvo na hora". Poucos versos da música brasileira representam tão bem seu autor como o trecho deste samba de Riachão.

Aos 97 anos de idade, Clementino Rodrigues vive a cantar e a distribuir sorrisos. Para o sambista baiano, sua música é mais que uma forma de oração: "O samba é alegria, é amor. O samba é Deus."

Esbanjando a vivacidade que o samba lhe dá, Riachão apresenta no teatro do Sesc Pompeia, nesta quinta (18) e sexta-feira (19), o espetáculo "Se Deus Quiser Vou Chegar aos 100". As apresentações contam com a participação de Martinho da Vila e o acompanhamento dos Bambas de Sampa.

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Com sua indefectível indumentária, que inclui boina, lenço no bolso, toalha no pescoço, correntes e anéis, Riachão recebeu a Folha em sua casa, no Garcia, em Salvador.

Ele mantém o bom humor e a simpatia que lhe deram fama, mas se ressente um pouco das dores nas pernas, próprias da idade, que o afligem. "Lugar de malandro é em pé, sambando", reclama.

Mas ele logo se põe a cantar e sorrir. São raras as perguntas que não responde sem cantarolar um samba. Foi assim quando questionado sobre sua amizade com Martinho da Vila. 

"É meu grande amigo. Eu sinto meu coração alegre quando penso nele e me lembro da música que Jesus me mandou em sua homenagem: 'Cadê, cadê Martinho da Vila? Está na Vila'. Que momento feliz!", alegra-se.

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Autor de clássicos como "Cada Macaco no seu Galho" e "Vá Morar com o Diabo", o sambista baiano estima ter mais de 500 composições e, embora tenha lançado apenas três álbuns individuais, teve músicas gravadas por Jackson do Pandeiro, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa e Cássia Eller, entre outros nomes.

Suas criações fazem referência a cenas, situações e personagens da vida cotidiana da Bahia --não à toa, foi apelidado de Cronista Musical da Cidade em seus tempos de cantor de rádio.

Riachão recorda que compôs a música para Martinho no final dos anos 1960, quando o samba estava em baixa. "O nosso samba que estava morrendo/ Quem não tem despeito pode afirmar/ Chegou Martinho com 'Pequeno Burguês'/ O samba veio reabilitar", canta.

Martinho José Ferreira, o Martinho da Vila, se emocionou ao escutar o samba, na ocasião em que recebeu o título de Cidadão Baiano na Assembleia Legislativa da Bahia, em 2006.

"Eu sou fã do velho. Ele é um artista fora de série", afirma o autor de "Pequeno Burguês". "Ele tem essa idade toda, mas tem uma lucidez incrível. É muito alegre e tem uma energia muito forte. Ele é capaz de cantar mais horas do que eu. É impressionante."

Além de Martinho, outro convidado de Riachão nos shows será seu amigo Clarindo Silva, grande figura da vida cultural soteropolitana e proprietário da Cantina da Lua, patrimônio cultural e gastronômico do Pelourinho, que servirá de cenário para as apresentações no teatro do Sesc Pompeia.

Paulo Leal, o Paulinho Timor, diretor musical do espetáculo, avalia ser de "extrema importância" oferecer "flores em vida" aos grandes mestres da cultura brasileira. O músico, integrante dos Bambas de Sampa, conjunto que acompanha Riachão desde 2013, afirma que a idade avançada do sambista baiano justifica esse empenho.

"Há, inclusive, um projeto de gravação de um novo disco dele para ser lançado no ano que vem", afirma.

Riachão sabe que "o dia da morte vem aí para todo mundo". Mas ele não pensa muito nisso. "É um assunto que não me interessa, porque meu caso é brincar, é alegria", diz, sorrindo. "Meu negócio é viver."

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