"Vermelho Sol" retrata os horrores da ditadura argentina

Em entrevista ao Gazeta Online, Benjamín Naishtat, diretor do longa-metragem, falou sobre a situação da cultura no país vizinho

Publicado em 07/08/2019 às 10h04

Atualizado em 13/08/2019 às 21h34

Cena do filme "Vermelho Sol"
Foto:Virtine Filmes/Divulgação
Cena do filme "Vermelho Sol"

Guarde esse nome: Benjamín Naishtat. Pouco conhecido no Brasil, o cineasta de 33 anos está promovendo uma minirevolução no audiviosual argentino, com filmes criativos, baratos, tecnicamente ousados e que normalmente propõem uma revisita a questões sociais ainda pendentes na história de nossos "hermanos".

A afirmação se justifica se olharmos seus dois primeiros filmes, "Bem Perto de Buenos Aires" (2014) e "O Movimento" (2015), títulos que têm em comum o minimalismo estético para abordar a violência e a falta de diálogo entre diferentes castas sociais.

>"O Bar Lua Dourada" usa a violência como forma de contestação social

Seu novo (e mais premiado) trabalho, "Vermelho Sol", estreia no Brasil nesta quinta-feira após receber aplausos no Festival de Toronto 2018 e levar três troféus – incluindo Melhor Diretor – no tradicional Festival de San Sebastián, no mesmo ano.

> Quer receber todas as novidades de cultura e entretenimento do ES? CLIQUE AQUI e participe do grupo de Whatsapp do Divirta-se

TALENTO

Em seu melhor longa, Naishtat ousa ao propor uma viagem tecnicamente impecável a um dos maiores traumas da Argentina: a sangrenta ditadura militar que assolou o país nas décadas de 1970 e 1980. Aqui, há referências claras ao trabalho de gênios do policial norte-americano, como Sidney Lumet (em especial "O Veredicto", de 1982) e Francis Ford Coppola ("A Conversação", de 1974).

"Fiz uma visita ao noir e casou com a ansiedade em contar a história argentina dos anos 1970, época marcada pela repressão política, violência policial e uma passividade da população a tudo isso. É uma ferida que ainda está aberta", revelou Benjamín Naishtat, em entrevista por telefone, de Buenos Aires, ao Gazeta Online para falar sobre o longa, que chega amanhã ao Cine Metrópolis.

O filme vai ser exibido no projeto "Sessão Vitrine", com ingressos promocionais R$ 15 e R$ 7,50. Além disso, entra simultaneamente nas plataformas de VOD para compra e locação, como Apple TV, Google Play, YouTube Premium, Now e Vivo Play.

>Witzel pede a Bolsonaro 'reconsiderar' transferência da Ancine 

O longa, com fotografia de Pedro Sotero ("Aquarius"), se passa em uma cidade do interior e narra a história de Claudio (Darío Grandinetti, em ótima atuação), um rico advogado que briga com um desconhecido (Diego Cremonesi) em um restaurante.

Com arrogância, o advogado humilha o jovem diante de todos os presentes, que, por preconceito, não interferem na discussão. Quando o rapaz decide buscar vingança, acaba desaparecendo sem maiores explicações. A vinda de um oportunista detetive (o sempre excelente ator chileno Alfredo Castro) pode colocar a falsa estabilidade social de Cláudio em risco.

REFERÊNCIAS

Benjamín Naishtat, diretor do longa "Vermelho Sol"
Foto:Directores AV/Divulgação
Benjamín Naishtat, diretor do longa "Vermelho Sol"

"Vermelho Sol" é cinema noir "na veia". Naishtat acerta ao usar uma fotografia granulada e, em algumas cenas, apostar na captação de áudio em mono, criando um clima setentista e propício para um longa silencioso.

Com coragem, o filme afirma que a classe média apoiou a entrada dos militares ao poder na Argentina. É acertado o uso de metáforas e a opção por apenas sugerir o tema em diálogos ácidos e inteligentes.

"O filme trouxe inquietude à classe média do meu país. Naquela época não havia noção política de esquerda ou direita. Somente um sentimento de intranquilidade e insegurança. O ambiente foi propício para os militares assumirem o poder, alegando que estavam lutando contra o comunismo. Um fantasma que nunca existiu", assinala.

>Bolsonaro diz que pode recuar em intenção de extinguir a Ancine

Dizendo estar ansioso pela estreia no filme no Brasil ("espero que cause discussões acaloradas sobre cidadania e militarismo em um país tão polarizado"), Benjamín Naishtat afirma que a realidade social, econômica e política argentina não é muito diferente da nossa.

"O presidente (Mauricio) Macri, mesmo com um discurso menos agressivo do que Bolsonaro, também impôs cortes pesados à cultura. Perdemos o nosso ministério e o INCAA (espécie de Ancine argentino) teve suas verbas bem reduzidas. Os cineastas estão tendo que correr atrás de seus projetos e bancar praticamente tudo sozinhos. O panorama é complicado, mas a arte sempre se sobressai", acredita, com otimismo.

Compartilhe



Mais no Gazeta Online