"Minha Bossa é Treta", lançado em março, traz música escrita pelo rapper Sabotage

Publicado em 18/04/2016 às 15h19

Atualizado em 20/04/2016 às 13h25

Foto: Rogério Fernandes/Divulgação
Cantora ficou conhecida após lançar single escrito pelo vocalista do Facção Central, em 2012

“Fui eu que cresci e ouvi que o preto não tem vez, que o preto não tem vez”. É com versos tão incisivos quanto estes (ou mais) que a paulista Yzalú construiu seu primeiro álbum, “Minha Bossa é Treta”, lançado propositalmente em 8 de março, Dia Internacional da Mulher.

O disco traz 12 faixas que reúnem gêneros como rap, afrobeat, samba, jazz e MPB. O destaque vai para “Figura Difícil”, música inédita resgatada de um dos registros escritos pelo rapper Sabotage. A produção ficou a cargo de Marcelo Sanches.

A cantora ficou conhecida após lançar na internet o single “Mulheres Negras”, em 2012. A música foi composta por Eduardo Taddeo, vocalista do grupo Facção Central, e cedida a Yzalú. Os versos, registrados também em vídeo, narram problemas como o preconceito racial e social.

Aos 33 anos, Luiza Yara Lopes Silva, nome de batismo, comemora quase 15 dedicados à música. Mas não só a ela. “Até o ano passado eu trabalhava como analista logística em uma multinacional e saí para trabalhar em tempo integral com a música. Economizei cada centavo e fiz uma série de shows para bancar o sonho do meu disco, que é um projeto que teve origem em 2003”, conta a cantora, nascida e criada no Jardim Thelma, em São Bernardo do Campo, região Metropolitana de São Paulo.

O primeiro flerte com a música veio ainda na infância, com uma guitarra de brinquedo. Na adolescência, quando conheceu o violão, sabia que relação não teria volta. “Na mesma época eu morei dois anos em Salvador e foi uma época muito rica, conheci na prática muita coisa da música brasileira que até então só conhecia como ouvinte por meio dos vinis da minha mãe”, destaca.

Ao voltar para São Bernardo, Yzalú passou a tocar com um grupo de rap composto só por mulheres: Essência Black. O canto veio depois, como uma necessidade. “O violão acaba pedindo mais da gente e eu comecei a me apresentar sozinha na minha cidade, já com essa pegada do rap no violão, muito influenciada por Lauryn Hill”.

Filha da periferia, Yzalú sempre teve, em seu cotidiano, os ritmos marginais. Além do rap, ela escutava vários sambas que tocavam nas rádios paulistas. “O processo de estar dentro do rap foi natural, porque era o universo que eu já enxergava na minha realidade, que não era musical até então”, lembra.

Yzalú considera a música indispensável quando o assunto é a militância no feminismo e na causa negra, principalmente por viver de perto muito do que canta. “É algo natural pra nós. Falo ‘nós’ pois temos muitos nomes importantes que saíram da periferia também. A nossa música comove as pessoas, até porque elas veem que há uma naturalidade nesse processo. Há uma resistência em dois pontos: o da arte e o da vida”.

A forte presença das mulheres na música é um detalhe que agrada à cantora, que reivindica mais atenção às artistas. “Temos exemplos como a Karol Conka, que vem ganhando o mundo, mas queremos ver mais e mais mulheres, principalmente negras, por aí. O mercado fonográfico segue um padrão e a música tem que ser provocativa. Temos uma missão, não é só por nós. É por ícones como Dona Ivone Lara, Elza Soares, Dina Di e muitas outras. Precisamos dar essa continuidade”.

Minha Bossa é Treta

Yzalú. Independente, 12 faixas. Disponível nos principais serviços de streaming.

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