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Os censores que cortem: a importância da notícia para formar opinião

As liberdades de opinião e de imprensa são fundamentais para a democracia política, para a absorção da diversidade em todos os aspectos

Evandro Milet / CBN Inovação
Evandro Milet / CBN Inovação
Foto: A Gazeta | Arquivo

“Tempo negro. Temperatura sufocante. O ar está irrespirável. O país está sendo varrido por fortes ventos. Máxima de 38 graus em Brasília. Mínima de 3 graus nas Laranjeiras.” Assim, no dia 14/12/1968, uma pequena nota no lugar da previsão do tempo, no alto da primeira página do Jornal do Brasil todo censurado, ousadamente fazia referência velada ao clima do país após a promulgação do AI-5 no dia anterior.

Apenas nos dez anos de vigência desse famigerado ato institucional (1968-1978), cerca de 500 filmes, 450 peças, 200 livros e mais de 500 letras de música sofreram veto. Versos de “Os Lusíadas”, de Camões, apareceram 655 vezes nas páginas do Estadão, entre 1973 e 1975, para tapar o vazio das matérias censuradas. “Façam as reportagens, os censores que cortem”, era a orientação destemida de Julio de Mesquita Neto, diretor do jornal.

O Jornal da Tarde publicava receitas de bolos, exageradas, visando a alertar o leitor de que alguma coisa estava errada. Muitas leitoras, inconformadas porque as receitas não davam certo na prática, telefonavam para o jornal, reclamando.

Além da política, outros temas eram censurados: conflitos de terra, questões indígenas, luta armada, Igreja, epidemias e crises no governo. Nem pensar em casos de corrupção que corriam à boca pequena.

Alguns hoje defendem governos autoritários justificando que, ou viveram aquela época sem problemas, ou tiveram parentes que não foram afetados, ou que só os terroristas teriam sofrido as “merecidas” consequências. Essas pessoas eram totalmente alienadas ou viviam uma vida descerebrada, sem participar da vida cultural do país, ou bovinamente satisfeitas com a informação truncada recebida. Por esse aspecto poderiam morar em Cuba sem problema. Thomas Jefferson dizia que a sociedade que troca um pouco de liberdade por um pouco de ordem perderá ambas e não merece nenhuma das duas.

Atualmente, a liberdade de imprensa é ameaçada pelos extremos, com a estranha postura em relação à Rede Globo, em que a esquerda quer censurá-la por entender que é de direita, e a direita quer censurá-la por entender que é de esquerda.

As liberdades de opinião e de imprensa são fundamentais para a democracia política, para a absorção da diversidade em todos os aspectos e para o fortalecimento da sociedade.

Evandro Milet é consultor e palestrante em Inovação e Estratégia

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