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Caso Marielle: envolvido vai para presídio de segurança máxima

Miliciano, acusado de envolvimento no assassinato de vereadora por testemunha, Orlando da Curicica deixa Rio rumo à cadeia federal no Rio Grande do Norte

Orlando Curicica foi envolvido por testemunha nas mortes de Marielle Franco e Anderson Gomes
Orlando Curicica foi envolvido por testemunha nas mortes de Marielle Franco e Anderson Gomes
Foto: Reprodução

O miliciano Orlando Oliveira de Araújo, o Orlando da Curicica, embarcou na manhã desta terça-feira para Mossoró, no Rio Grande do Norte, onde ficará em penitenciária de segurança máxima do governo federal. Embora cumpra pena leve, de quatro anos e um mês por posse ilegal de arma, Orlando está sendo transferido para a cidade potiguar, a 281 quilômetros de Natal, a pedido da Secretaria de Segurança do Rio após ter sido envolvido no asssassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes, em março deste ano. Ele disse ter presenciado o miliciano conversando com o vereador Marcello Siciliano (PHS) sobre Marielle que estaria prejudicando negócios da milícia na Zona Oeste.

A transferência teve forte esquema de segurança e envolveu cerca de 10 agentes. A van do Sistema de Estado de Administração Penitenciária (Seap), escoltada por uma viatura do Grupamento de Intervenções Táticas, entrou no setor de carga do Aeroporto Santos Dumont por volta das 6h. De lá, o miliciano embarcou em um avião da Polícia Rodoviária Federal (PRF).

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Além de Orlando, o delator ouvido pela Delegacia de Homicídios da Capital (DH), que é ex-miliciano, também apontou o vereador Marcello Siciliano (PHS) como responsável pela morte de Marielle. Em depoimento revelado pelo GLOBO no mês passado, a testemunha disse ter visto ambos, em junho de 2017, durante um encontro no restaurante, no Recreio dos Bandeirantes, tramando o assassinato da vereadora. "Eu estava numa mesa, a uma distância de pouco mais de um metro dos dois. Eles estavam sentados numa mesa ao lado. O vereador falou alto: “Tem que ver a situação da Marielle. A mulher está me atrapalhando”. Depois, bateu forte com a mão na mesa e gritou: “Marielle, piranha do Freixo”. Depois, olhando para o ex-PM, disse: 'Precisamos resolver isso logo'", afirmou a testemunha.

Inicialmente, Orlando da Curicica cumpria pena na Penitenciária Bandeira Stampa (Bangu 9), unidade reservada a presos milicianos, mas foi transferido para a penitenciária Laércio da Costa Pellegrino (Bangu 1), de segurança máxima, no dia 9 do mês passado, enquanto aguardava seguir para Mossoró. O ex-PM está preso desde outubro do ano passado, quando foi preso pela Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), em sua casa, em Vargem Grande, com uma segurança feita por policiais militares. A ida para a unidade federal, onde o preso tem direito a apenas duas horas de banho de sol por dia e é obrigado a circular algemado, entre outros rigores da rotina, seria uma estratégia dos investigadores para “refrescar” a memória do miliciano.

Orlando também é alvo de outras investigações por envolvimento em homicídios. Um deles ocorreu em 2015, quando teria mandado matar o presidente da escola de samba Parque da Curicica, Wagner Raphael de Souza, conhecido como Dádi. Ele foi atingido por 12 tiros quando estava com uma mulher que, mesmo baleada, conseguiu sobreviver ao ataque e é a principal testemunha contra Orlando.

O ex-PM é apontado pela Polícia Civil como o chefe da milícia em Curicica, Vargem Grande, Vargem Pequena e Taquara, além da comunidade do Terreirão, no Recreio, todas na Zona Oeste. A milícia do ex-policial obriga comerciantes e moradores a comprarem água mineral e gás dos paramilitares. Além disso, os milicianos cobram por serviços de TV a cabo e internet. Os motoristas de vans e mototaxistas pagam taxas para circularem pela região dominada por Orlando.

Um dos objetivos dos agentes da DH, responsáveis pelo caso Marielle, é ouvir de Orlando a confissão de que conhecia Marcello Siciliano e se encontrou, de fato, com o vereador do PHS em junho do ano passado. Ambos têm negado sistematicamente - no caso de Orlando, por intermédio dos advogados - que a reunião tenha ocorrido. No entanto, Siciliano teve uma boa votação nas áreas dominadas pelo miliciano. Em coletiva logo após a divulgação do conteúdo da delação, Siciliano negou que tivesse envolvimento no caso e garantiu que tinha boa relação com Marielle. Ele já prestou depoimento por duas vezes na DH.A hipótese levantada pela testemunha é uma das três frentes mais promissoras de investigação do caso Marielle, que no último dia 14 completou três meses. A DH já confirmou, com base em outra reportagem do GLOBO, que duas assessoras de Marielle, em março do ano passado, atuaram em movimento por regulamentação de terras na comunidade de Novo Palmares, em Vargem Pequena, área de influência do vereador do PHS. A solução do caso, porém, ainda parece distante.

Há suspeitas, inclusive, sobre as motivações do delator, que seria ligado ao vereador Chiquinho Brazão (Avante), adversário político de Siciliano na região da Baixada de Jacarepaguá. Nesta segunda-feira, o conselheiro afastado do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ) Domingos Brazão, irmão de Chiquinho, prestou depoimento à DH. Ele negou qualquer envolvimento com a testemunha.

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