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Polícia apura se Marielle era alvo de escuta

Execução completa 3 meses nesta quinta, e investigação já é considerada a mais difícil da DH

 Vereadora Marielle Franco
Vereadora Marielle Franco
Foto: Reprodução/Facebook

A morte da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes, que completa três meses amanhã, pode ter começado a ser planejada no ano passado. Investigadores que apuram o caso, considerado o mais difícil da história da Delegacia de Homicídios da Capital (DH), avaliam se a parlamentar estava sendo alvo de uma escuta clandestina em seu gabinete, no nono andar da Câmara dos Vereadores. A suspeita acontece porque assessores de Marielle, ao voltarem do recesso de fim de ano, no início de fevereiro, perceberam que as placas do teto da sala da vereadora haviam sido alteradas. A hipótese é de que o “grampo” tenha sido retirado durante as férias coletivas.

Imagens do circuito interno do Palácio Pedro Ernesto mostram o momento em que um homem escalou o prédio, em fevereiro. Ao tomar conhecimento do caso, um mês antes do ataque a Marielle, o vereador Tarcísio Motta (PSOL) pediu ao presidente da Casa, Jorge Felippe (PMDB), que fizesse uma varredura em todos gabinetes, mas ele não foi atendido. O caso chamou atenção da DH, que tem pedido, com frequência, imagens da época para a segurança da Casa.

INVESTIGAÇÃO LONGE DO FIM

Três meses após o assassinato de Marielle e Anderson, a polícia ainda está longe do fim das investigações. Entre as poucas certezas está a de que a emboscada sofrida pela vereadora e sua equipe, no Estácio, na noite de 14 de março, foi minuciosamente planejada, deixando poucas pistas. As autoridades, que, no início, repetiam frases otimistas, anunciando que a solução do crime estava próxima, se calaram. Até agora, o carro usado pelos executores sequer foi encontrado. Sabe-se apenas que o Cobalt prata tinha a placa clonada e que saiu da região do Itanhangá em direção à Lapa, onde ficou, com os assassinos à espreita, esperando que Marielle saísse de um evento na Casa das Pretas.

A polícia também demorou a descobrir que tipo de arma foi usada no crime. Testemunhas descobertas pelo GLOBO no início de abril e que foram dispersadas por policiais militares da cena do assassinato contaram ter ouvido uma rajada abafada, como se o executor tivesse usado um silenciador. A reconstituição para chegar ao armamento só foi realizada no dia 10 de maio, quase dois meses após o ataque a Marielle e Anderson. Os peritos simularam disparos de seis tipos diferentes de armas e chegaram a conclusão que os atiradores usaram uma submetralhadora HK MP5.

No Rio, existem cerca de 50 submetralhadoras do modelo, divididas entre as polícias Civil, Militar e Federal, além de unidades das Forças Armadas. A previsão é que todas passem por um exame balístico para saber se os projéteis usados no assassinato saíram de alguma delas.

VEREADOR SUSPEITO

A investigação sofreu a maior reviravolta em maio, quando uma reportagem do GLOBO revelou que uma testemunha, ex-integrante de uma milícia que atua na Zona Oeste, apontou o ex-policial Orlando Oliveira de Araújo, o Orlando da Curicica, e o vereador Marcello Siciliano (PHS) como pessoas que teriam interesse em assassinar Marielle. O delator procurou a Polícia Federal para contar que ambos tramaram a morte da parlamentar durante um encontro em um restaurante no Recreio.

A testemunha, que estaria numa mesa ao lado de Siciliano e Orlando, contou à polícia que o vereador teria falado alto: “Tem que ver a situação da Marielle. A mulher está me atrapalhando”. Depois, segundo ele, o parlamentar bateu forte com a mão na mesa. Em seguida, teria dito, olhando para o ex-PM, “Precisamos resolver isso logo”.

A DH, no entanto, ainda busca provas que corroborem a versão da testemunha. Siciliano nega o encontro no restaurante e qualquer envolvimento nas mortes. Orlando, preso desde outubro do ano passado, por posse de arma, também diz que não tem participação no crime.

A testemunha teria ligações com o agente federal aposentado Gilberto Ribeiro da Costa, atualmente lotado no gabinete do conselheiro afastado do Tribunal de Contas do Estado do Rio (TCE) Domingos Brazão, irmão do vereador Chiquinho Brazão (Avante), que, desde o ano passado, trava com Siciliano uma briga por cargos municipais e espaços públicos em Jacarepaguá. Ontem, investigadores da DH estiveram no TCE para conversar com Gilberto, que estava fora do prédio.

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