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Traficantes impedem vacinação contra sarampo em Manaus

Traficantes impedem vacinação contra sarampo em Manaus

Criminosos estariam ordenando o fechamento de ruas, o que obriga postos de saúde a fecharem uma hora antes; prefeito pediu apoio de governador para uso de força policial

Publicado em 19 de julho de 2018 às 12:53

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Os números do Ministério da Saúde que têm chamado a atenção do País recentemente foram usados em sinal de alerta pelas organizações. (Freepik )

Uma equipe de saúde da Prefeitura de Manaus, responsável pela vacinação contra o sarampo, foi impedida por traficantes do bairro Jorge Teixeira, na zona leste da cidade, de continuar as atividades na noite desta quarta-feira, 18. A região da ocorrência tem a maior incidência da doença na capital amazonense e recebia ação de casa em casa.

Segundo a Prefeitura, o caso ocorreu por volta das 19 horas, enquanto uma equipe de TV registrava o atendimento no bairro, encerrado uma hora mais cedo em função do fechamento das ruas atribuído a traficantes locais. Em nota, o prefeito Arthur Virgílio (PSDB) pediu apoio do governador do Amazonas, Amazonino Mendes (PDT), e prometeu ir pessoalmente ao local nesta quinta-feira, 19, para continuidade das ações.

"Eu faço um apelo muito encarecido ao governador do Estado, que entre com tudo que possa ter de força policial, porque nós não podemos deixar nunca que o Amazonas vire propriedade de traficantes. O Amazonas é propriedade dos amazonenses. E portanto, eu estarei com as equipes da Saúde na rua a partir de amanhã", disse, em nota.

A Secretaria de Segurança do Estado determinou que o caso seja investigado pela Polícia Civil e informou que tem intensificado operações policiais no bairro do Jorge Teixeira nos últimos meses, com base em levantamentos do setor de inteligência.

SARAMPO

Manchas avermelhadas, em erupções cutâneas, estão entre os principais sintomas do sarampo. (Romolo Tavani/Shutterstock)

 

O Brasil tem 677 casos confirmados de sarampo. Os dados sobre a doença foram atualizados nesta quarta-feira, 18, pelo Ministério da Saúde. Segundo a pasta, o País enfrenta dois surtos de sarampo: um em Roraima e outro no Amazonas - regiões mais atingidas pelo vírus.

O Estado do Amazonas tem 444 casos de sarampo confirmados. Em Roraima, são 216. Há confirmações ainda nos Estados de Rondônia (1), Rio de Janeiro (7), São Paulo (1) e Rio Grande do Sul (8). O País tem outros 2.724 casos em investigação. Segundo o Ministério da Saúde, os surtos no Brasil estão relacionados à importação da doença - o genótipo do vírus é o mesmo que circula na Venezuela.

Em 2017, casos de sarampo em venezuelanos que viajaram a Roraima foram confirmados, causando um surto da doença no Estado. Houve, então, a ampliação de registros da doença para Manaus neste ano, de acordo com a pasta.

O Ministério Saúde informou que mantém equipes técnicas para acompanhar as ações de enfrentamento da doença no Amazonas e em Roraima. "A pasta tem qualificado profissionais de saúde com o objetivo de possibilitar a identificação de sinais e sintomas que definem um caso suspeito de sarampo, além da adoção de outras ações de vigilância epidemiológica."

Em São Paulo, um caso da doença foi confirmado em abril em Ribeirão Preto. Trata-se de uma profissional de saúde que viajou ao Líbano. O registro foi considerado um caso importado da doença. Foram feitas ações de monitoramento da doença na região, mas não foi identificada transmissão do vírus e a paciente se recuperou.

O sarampo é uma doença altamente contagiosa cuja principal forma de prevenção é a vacinação. Apesar da importância da imunização, o País tem cobertura vacinal abaixo da meta definida pelo Ministério da Saúde e preconizada pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Segundo a pasta, a cobertura no Brasil foi de 85,21% na primeira dose (tríplice viral) e de 69,95% na segunda dose (tetra viral) em 2017. A meta é de 95%.

A vacina contra sarampo deve ser tomada em duas doses: uma aos 12 meses (tríplice viral) e outra aos 15 meses (tetra viral). Crianças de 5 a 9 anos de idade que não foram vacinadas anteriormente devem tomar duas doses da vacina tríplice com intervalo de 30 dias entre as doses. Entre 6 e 31 de agosto uma campanha de vacinação será realizada no País. O público-alvo são crianças de 1 ano a menores de 5 anos.

VACINAÇÃO NO MUNDO

O mundo registrou no ano passado um recorde de crianças vacinadas – 123 milhões, de acordo com dados divulgados nesta terça-feira, 17, pelo Unicef e pela OMS – uma alta que ocorre tanto por aumento da população quanto de cobertura vacinal.

O Brasil, porém, caminha na contramão desse movimento, com queda na porcentagem de crianças vacinadas nos últimos três anos.

PERGUNTAS E RESPOSTAS

Como se pega o sarampo?

O sarampo uma doença viral e contagiosa. Segundo Filipe Piastrelli, infectologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, o paciente adquire a doença por partículas respiratórias e nem sempre quem transmite está com sintomas. "O vírus pode entrar pela conjuntiva do olho ou pelas mucosas, começa a se multiplicar e chega à circulação sanguínea, quando atinge o maior potencial de transmissão."

Quais são os sintomas?

O primeiro é a febre, que quase todos os pacientes têm. Depois de um ou dois dias, tem início um quadro com tosse, coriza e conjuntivite. Só depois aparecem as lesões na pele. "A incubação dura de sete a 21 dias, mas a pessoa começa a transmitir cinco dias antes de aparecerem os sintomas e continua transmitindo por cinco dias", explica o infectologista do Sabará Hospital Infantil Francisco Ivanildo de Oliveira Júnior.

Como é feito o diagnóstico?

Por exames clínicos e laboratoriais.

Se for confirmado que o paciente está com sarampo, ele deve ficar isolado?

Sim. Como é uma doença contagiosa, ele deve evitar o contato com outras pessoas e, caso receba visitas, elas devem usar máscaras.

A vacina é eficaz para evitar a doença? Em quanto tempo ela começa a fazer efeito?

"É uma vacina boa, com mais de 90% de eficácia. A proteção plena vai ocorrer de dez a 14 dias", diz Oliveira Júnior.

Qualquer pessoa pode tomar a vacina?

Não. Assim como a vacina da febre amarela, ela é feita com vírus vivo atenuado. Ela não é recomendada para gestantes, bebês com menos de 1 ano e pacientes imunodeprimidos. "A primeira escolha é fazer a vacina, se a pessoa tem alguma contraindicação, faz a imunoglobulina, que tem anticorpos formados e reduz formas graves da doença", explica Piastrelli.

Quantas doses devem ser tomadas?

Tanto o Ministério da Saúde quanto a Organização Mundial da Saúde recomendam duas doses durante a vida. No Brasil, as doses são aplicadas com 12 e 15 meses de vida. Caso a pessoa só tenha tomado uma dose, deve tomar a segunda até os 29 anos. Se nunca tomou até essa idade, só será necessário tomar uma dose entre os 30 e os 49 anos.

A pessoa deve tomar a vacina se perdeu a caderneta e não sabe se foi imunizada?

Sim. As doses recomendadas devem ser tomadas pelo paciente.

Pessoas que tiveram contato com pacientes infectados também são beneficiadas pela vacina?

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Se tomada até 72 horas após o contato, a vacina é capaz de reduzir formas mais graves da doença. Mas as ações de bloqueio sempre devem ser realizadas.

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