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Exploradores de índios serão homenageados no desfile da Independência

Governo defende 'importância histórica' de bandeirantes que usaram mão de obra escrava

Tela mostra missão de Raposo Tavares (à direita, segurando o chapéu): bandeirante contribuiu para a expansão das fronteiras brasileiras
Tela mostra missão de Raposo Tavares (à direita, segurando o chapéu): bandeirante contribuiu para a expansão das fronteiras brasileiras
Foto: Reprodução

Dezesseis personalidades históricas brasileiras serão homenageadas nesta sexta-feira, no desfile que comemora, em Brasília, a Independência do país. Segundo o governo federal, a seleção é composta por pessoas que tiveram excelência em seu campo de atuação e na História. Entre elas, porém, há pelo menos dois personagens controversos — os bandeirantes Fernão Dias Paes Leme e Raposo Tavares, que exploraram mão de obra indígena em suas incursões pelo interior.

Paes Leme ganhou o apelido de "caçador de esmeraldas" por ter se dedicado à busca por pedras preciosas. Tavares, por sua vez, percorreu mais de dez mil quilômetros ao longo de três anos, entre São Paulo e o Rio Amazonas. Historiadores acreditam que a inclusão dos bandeirantes no panteão dos heróis nacionais é fruto de uma releitura de sua imagem, menosprezando seu caráter escravocrata em prol da exaltação de seu caráter desbravador.

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Professora de História do Brasil da UFRJ, Marieta de Moraes Ferreira ressalta que os bandeirantes contribuíram para a ampliação das fronteiras do país além do que havia sido determinado pelo Tratado de Tordesilhas, mas que a análise sobre suas viagens mudou.

- Muitos personagens históricos podem ser alvo de uma memória positiva ou negativa, dependendo do momento em que são vistos - avalia. - Os bandeirantes já foram valorizados como desbravadores, mas depois houve uma crítica sobre o alto custo de suas práticas. Agora, talvez haja um esquecimento sobre as lutas que os indígenas enfrentaram.

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Renato Franco, especialista em Brasil Colonial da UFF, acredita que os intelectuais paulistas revitalizaram a imagem dos bandeirantes na década de 1930, quando uma revolução capitaneada por Getúlio Vargas tirou do poder a elite política do estado.

- O projeto getulista é nacionalista, mestiço, agregador. São Paulo criou uma memória diferente: criou instituições, arquivos e monumentos para valorizar os bandeirantes e as incursões que levaram a civilização ao interior do país e contribuíram para o desenvolvimento econômico paulista - explica. - Essa visão negligenciou as atrocidades e as matanças realizadas nessas bandeiras. Fernão Dias Paes Leme e Raposo Tavares eram exploradores de indígenas.

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Franco questiona por que a memória dos bandeirantes é recuperada em um momento em que a memória sobre a escravidão é tão sensível para a definição da identidade nacional. No entanto, reforça que outros personagens de popularidade incontestável também tinham seus defeitos, muitas vezes esquecidos nos livros de História. É o caso de Tiradentes, uma figura recuperada pela elite intelectual no início do século XIX, que viu nele traços de "republicanismo" e indignação contra a monarquia. Tiradentes, apesar da fama de militante pela liberdade, também tinha escravos.

Procurado pela reportagem, o Palácio do Planalto afirmou que os personagens foram escolhidos devido à sua importância histórica. Além dos bandeirantes e de Tiradentes, o desfile homenageará os militares Duque de Caxias, Marechal Rondon e Almirante Tamandaré, o político José Bonifácio, o sanitarista Oswaldo Cruz, os imperadores Pedro I e Leopoldina, o padre Diogo Antônio Feijó, o quilombola Zumbi dos Palmares, o aviador Santos Dumont, a pintora Tarsila do Amaral e as líderes feministas Maria Quitéria e Chiquinha Gonzaga.

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