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Federalização do caso Marielle divide as famílias

O estremecimento das relações familiares chegou ao ponto de Mônica Benício e Anielle, irmã de Marielle, discutirem anteontem durante um ato na Cinelândia

Vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes foram assassinados dentro de carro no Rio
Vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes foram assassinados dentro de carro no Rio
Foto: Márcia Foletto / Divulgação

A hipótese de federalização das investigações do assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes divide opiniões entre os parentes das vítimas. De um lado, a mãe da parlamentar, a advogada Marinete Silva - com o apoio do marido e da outra filha - defende que o crime continue com a Delegacia de Homicídios da Capital (DH) e o Ministério Público do Rio. Do outro, está a viúva de Marielle, a arquiteta Mônica Benício, que já assinou uma declaração pedindo a transferência do caso para a Polícia Federal e entregou o documento à procuradora-geral da República, Raquel Dodge. A viúva de Anderson, Ágatha Reis, concorda com Marinete.

O estremecimento das relações familiares chegou ao ponto de Mônica Benício e Anielle, irmã de Marielle, discutirem anteontem durante um ato na Cinelândia, em que foram distribuídas mil placas de rua simbólicas com o nome da vereadora. As duas saíram do evento sem se despedirem.

A demora na elucidação do duplo assassinato, que completou sete meses no domingo, sempre deixou as famílias das vítimas em dúvida se a federalização pode, de fato, acelerar a prisão dos autores do crime. A hipótese ganhou força quando o miliciano Orlando Oliveira de Araújo, o Orlando de Curicica, principal suspeito do caso, segundo a DH, acusou a polícia do Rio de coagi-lo para que assumisse a morte de Marielle. Preso desde junho passado na Penitenciária Federal de Mossoró, no Rio Grande do Norte, Curicica prestou depoimento à Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão potiguar sobre a suposta pressão que vem sofrendo, deixando o trabalho da DH em xeque.

O depoimento do miliciano foi parar na mesa da procuradora-geral da República. Caberá a ela decidir se entra ou não no Superior Tribunal de Justiça (STJ) com um recurso de Incidente de Deslocamento de Competência (IDC), nome técnico do pedido de federalização. Ao depor no Rio Grande do Norte, Curicica acusou integrantes do Escritório do Crime como os responsáveis pelo assassinato de Marielle e Anderson. Essa quadrilha é formada por PMs, ex-policiais e civis que matam por encomenda.

Entre os argumentos apresentados por Marinete Silva contra a federalização, está o fato de a Polícia Federal ter que apurar um crime ocorrido há sete meses, o que, segundo ela, faria com que as investigações demorassem ainda mais tempo.

"Confio no trabalho das promotoras de Justiça que entraram no caso há cerca de dois meses. Achei um avanço elas terem descoberto, com a ajuda da tecnologia, o biotipo do assassino de Marielle. Nem pensar em federalização neste momento. As investigações, agora, estão no caminho certo", afirmou a mãe da vereadora.

Já Mônica Benício defende que o caso seja assumido pela Polícia Federal e diz que conta com o apoio da Anistia Internacional:

"É de conhecimento público que eu estou profundamente comprometida com o processo investigatório e tenho colaborado com as autoridades. Após sete meses e inúmeras conversas, estou convencida de que o deslocamento de competência é a melhor alternativa para chegarmos à conclusão desse caso. O principal, neste momento, é que haja um somatório de forças e competências para chegarmos aos mandantes e aos executores do assassinato de Marielle Franco", declarou.