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Depois de Mariana, explosão de bactérias é ameaça à Bacia do Rio Doce

Mesmo três anos após desastre com rompimento de barragem, rio ainda sente as consequências

Após a lama tóxica, paisagem do Rio Doce mudou
Após a lama tóxica, paisagem do Rio Doce mudou
Foto: Bernardo Coutinho

Três anos após a tragédia de Mariana, o maior desastre ambiental da História do Brasil, novas consequências da tsunami de lama de rejeito de mineração da Samarco que devastou o Doce e outros rios de sua bacia continuam a ser descobertas. Um estudo recém-publicado indica que a lama depositada no leito e nas margens dos rios Gualaxo do Norte, Carmo e Doce pode favorecer a explosão da população de bactérias, algumas delas potencialmente nocivas para o homem.

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As bactérias se alimentam principalmente do ferro lançado em quantidade pela onda de rejeito do minério. A estimativa é de que a maior parte dos 45 milhões de metros cúbicos de rejeito permanece quase toda onde foi deixada pela onda do desastre.

O alerta dos cientistas é que a água do Doce deve ser usada com cautela para o consumo humano e ser monitorada com rigor. Mais de 30 cidades que, juntas, têm cerca de 340 mil habitantes, captam água do rio.

"O Doce foi transformado num doente crônico, pois a lama será fonte de contaminação enquanto permanecer lá. Isso pode durar décadas", afirma o coordenador do estudo, Fabiano Thompson, da Coppe e do Laboratório de Microbiologia da UFRJ.

Quando o verão chega e o período chuvoso se intensifica, os rios afetados voltam a correr risco de explosões de populações de bactérias, frisa Thompson, cujo grupo fez a primeira análise dos microbiomas afetados pelo desastre. Publicado na revista científica “Science of the Total Environment”, o estudo é derivado da tese de mestrado em engenharia de produção de Marcelle Cordeiro, da Coppe.

A chuva “acorda” a lama porque arrasta o rejeito depositado nas margens e aumenta o fluxo dos rios, o que faz com que o rejeito do leito seja revolvido. Ele volta então a se misturar com a água. A lama é constituída basicamente de ferro, aminas (compostos orgânicos derivados da amônia e usados na separação do minério) e sílica.

A Fundação Renova, criada para gerir o desastre, nega que exista contaminação por aminas. Mas o estudo observa que elas faziam parte do rejeito e diz que a Samarco (mineradora cuja barragem se rompeu, gênese do desastre) usava cerca de 1.500 toneladas de aminas por ano no processo de extração do ferro.

"A vida macroscópica saudável, como peixes, crustáceos, minhocas, foi devastada. Mas os micro-organismos floresceram", destaca Thompson.

Em sua maioria bactérias, esses micróbios precisam de ferro para crescer. Porém, quando o ferro está presente em quantidade exagerada, somente algumas espécies resistem e proliferam. Suas populações se multiplicam em minutos. Os cientistas recorreram a análises capazes de detectar os genes presentes em amostras. Encontraram micróbios ambientais, que não causam mal ao homem, mas também cianobactérias e bactérias entéricas, que podem causar infecções.

Risco de longo prazo

No estudo, os pesquisadores analisaram amostras de 16 localidades, coletadas um mês, seis meses e um ano depois do desastre. À medida que o tempo passou, o nível de sedimento de rejeito diminuiu e, com ele, os chamados booms (explosões de micro-organismos). Mas, frisa Thompson, o risco existirá ainda por muitos anos. Até 2017 foram detectados níveis acima do tolerável de sedimentos no período chuvoso. Dados do Instituto Mineiro de Gestão de Águas (Igam), que monitora a água bruta (não tratada), mostraram violações no período:

"Dizem que a lama é inerte. Isso é mentira. Com mais chuva, ela volta a liberar sedimento. Os rios afetados pelo desastre são doentes crônicos. O ideal seria que essa água não fosse mais usada para consumo humano. Mas como isso é necessário, deve ser feito com extremo monitoramento."

Ele observa que antes do desastre, embora muito poluído, o Doce ainda tinha algumas espécies de peixe nativas:

"O que se vê hoje são apenas as tilápias, lançadas para repovoamento. É uma espécie estrangeira e altamente resistente, tolera metais. Dá a impressão que há peixes de novo no Doce. Mas é um engodo."

Atualmente, a água do rio Doce é monitorada pela Fundação Renova, pelo Igam e pela Secretaria de Saúde de Minas Gerais. Brígida Maioli, do programa de monitoramento de água da Renova, diz que desde agosto de 2017 a fundação monitora a qualidade da água em 92 pontos e que análises mensais são realizadas. Segundo ela, durante 2017 os níveis apresentados eram tratáveis e até agora não foram detectados riscos para a saúde:

"As bactérias que se alimentam de ferro alteram o gosto e o odor da água, mas não causam doença. Essas alterações podem ser removidas pelo tratamento."

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