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Desvendando os mistérios de Vitória: o hospital da Ilha da Pólvora

A unidade, que está desativada, foi fundada em 1925 para o tratamento de pacientes com tuberculose e outras doenças infecciosas

Ilha da Pólvora, Vitória, Espírito Santo

 

Uma ilha cercada por outras ilhas. Assim é Vitória em boa parte de sua extensão. Dentre as ilhotas que margeiam a Capital, uma delas desperta curiosidade, não só por suas ruínas que resistem ao tempo, mas também pela atividade que nela era desempenhada: o local abrigava um hospital.

 

Hoje tomada por mato, a Ilha da Pólvora, localizada em frente à orla de Santo Antônio, abrigou o Hospital de Isolamento da Ilha da Pólvora, fundado em 1925 no Governo de Florentino Ávidos e, anos mais tarde, renomeado como Hospital Osvaldo Monteiro, em homenagem a seu primeiro administrador.

 

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O hospital, que foi construído como parte da adaptação do Espírito Santo ao Regulamento Sanitário Estadual, funcionou até a década de 90, quando foi desativado pelo então governador Albuíno Azeredo. Construído para tratar hanseníase, a unidade também atendeu pacientes que buscavam tratamento para a tuberculose, quase sempre mortal na época, e outras doenças infecciosas.

 

Otília Rosa, de 84 anos, passou 30 deles pegando uma catraia às 7 da manhã para dar suporte aos pacientes. Ela conta que o hospital passou por diversos períodos diferentes, uns com mais recursos, quando o local era mantido e ajudado com verba doada pelo presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy, e outros de mais dificuldades, quando o carinho e o amor de médicos, enfermeiros e funcionários era o que sustentava os tratamentos.

 

"Nós éramos uma família, precisávamos pegar o barquinho todo dia no cais do hidroavião para ir e voltar. Eram três turmas de enfermeiros, cinco pela manhã, cinco à tarde e cinco à noite, tinhamos que ser imunizados várias vezes", conta Otília, que ainda lembrou muitos nomes dos funcionários da ilha e dos catraieiros que trabalhavam em dois barcos diferentes, um para trabalhadores e visitantes, e outro que trazia os pacientes e levava também os corpos daqueles que não superavam as enfermidades.

 

Morte e vida na ilha

 

Assim como em qualquer outro hospital, a enfermeira Otília lembra como era lidar com a morte de pacientes na Ilha. "Muita gente morria no local, em decorrência da tuberculose, que na época era muito perigosa, mas muito mais gente conseguiu se salvar. Guardo cartas que recebi de pacientes agradecendo o carinho e o bom tratamento recebido na ilha, onde além de pacientes, eles eram também moradores", relembra.

 

 

Otília guarda na memória os procedimentos que eram adotados com os enfermos."Eles chegavam e logo começavam a ser medicados. Eles tinham uma vida à parte, as alas eram separadas para masculino e feminino, mas tinha uma área comum para a convivência, com um grande banco para conversas e varandas para tomar sol, era um lugar muito bonito. Quando eles ficavam negativos para a doença, em cerca de três meses, recebiam alta", descreve a enfermeira.

 

Dedicação

 

Durante dezesseis anos as dificuldades foram amenizadas pelo trabalho das pessoas que se doavam ao local, como o médico Hércules de Souza Ribeiro, que foi residente no hospital da Ilha da Pólvora enquanto estudante e depois diretor do local por 16 anos. Quem conta a história é Ivone Pulcheri Ribeiro, esposa do antigo diretor e viúva há quatro anos.

 

"Ele tinha verdadeira paixão por aquele hospital, porque ele chegou lá como residente e, quando o antigo diretor teve que se afastar, ele assumiu com o propósito de fazer de tudo para salvar vidas naquele lugar", conta Ivone, que conheceu o hospital depois de melhorias feitas na unidade pelo próprio marido, em uma festa em homenagem ao diretor.

 

Segundo a viúva do médico, o diretor, que trabalhava em tempo integral no local, servia também como um psicólogo, o "paizão" da enorme família que se formara entre funcionários e pacientes. "Era uma grande família, ele resolvia não só os problemas do hospital como das pessoas que o procuravam, o que ele fazia era como se fosse um psicólogo, ele tinha uma relação pessoal muito importante", se emociona Ivone.

 

Desativação e esquecimento

 

Depois da desativação, os funcionários foram realocados para outras unidades de saúde. Ao procurar documentação, arquivos e registros do hospital, e até mesmo para saber qual o futuro das instalações, a reportagem encontrou poucos detalhes. O Governo do Estado afirma que a ilha é de propriedade particular e que não existe muita informação sobre ela.

 

Apesar da pouca informação, sobram histórias de solidariedade. Dona Otília lembra que alguns visitantes traziam coisas para os pacientes, como comidas e frutas lindas. Como outros internos não recebiam ninguém e ficavam muito sozinhos, Otília pegava as frutas que sobravam e levava para aqueles que estavam esquecidos.

 

Um visita ao hospital desativado

 

A reportagem do Gazeta Online foi até a ilha com a ajuda de um pescador de Santo Antônio. Dagó, como é conhecido na região, afirma que costumava ajudar na remoção dos corpos de pacientes do hospital. "Todo dia saía um corpo de lá", lembra.

 

Depois de um viagem de aproximadamente cinco minutos, o barco atracou na antiga recepção da unidade, em condições precárias e coberta de pichações. Logo na entrada aparece o local onde os pacientes eram consultados. Depois dessa ala, é possível avistar uma passarela coberta por vegetação, que dá acesso a outro pavilhão.

 

Nesta parte do hospital encontram-se as antigas enfermarias e o necrotério. Em algum pontos ainda existem identificação das alas. Em outros, no entanto, pichações indicam o que o tempo apagou. O local está vazio, sem equipamentos. Lembranças de um ambiente de hospital só foram encontradas em um pavilhão. No chão, espalhados, vidros de antibióticos, reguladores de soro e cartelas de comprimidos esquecidos no tempo.

 

Confira no vídeo abaixo um tour pelo antigo hospital.

 

 

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