Notícia

Um exército de usuários de tranquilizantes

Milhões de caixas vendidas revelam abuso no uso de remédios

Dificuldade para dormir e relaxar, palpitação, tensão... Para amenizar esses e outros sintomas de ansiedade, um verdadeiro exército de pessoas consome uma quantidade gigantesca de tranquilizantes no Brasil, o que garante uma movimentação financeira milionária para quem fabrica e comercializa os medicamentos, sejam eles genéricos ou de marca.



Dados relativos ao ranking dos dez tranquilizantes mais vendidos no país revelam: em apenas um ano, entre abril de 2014 e março deste ano, foram vendidas 53,8 milhões de caixas de remédios, todos à base de Alprazolam, Bromazepam e Clonazepam, drogas utilizadas na fabricação de ansiolíticos de maior consumo da população.



A comercialização desses medicamentos gerou um faturamento de


R$ 754.250.845 no mesmo período de um ano, segundo a empresa IMS Health, que audita o mercado farmacêutico no país.



Se for levada em consideração a quantidade de ansiolíticos à base de Clonazepam, Alprazolam e Bromazepam vendida entre abril de 2010 e março deste ano, o número chega a 259.764.646 de caixas. Já o faturamento chega a R$ 2.347.110.685.



Os últimos dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) sobre consumo de ansiolíticos diz respeito ao período de 2007 a 2010, quando os medicamentos de receita controlada foram os mais consumidos no Brasil.


Gráfico tranquilizantes


A crise



Prescrição indiscriminada e uso excessivo em todo o país tendem a ganhar dimensão maior nestes tempos de crise econômica que, por si só, faz muita gente perder o sono e vivenciar muita ansiedade.



Não é incomum ver pessoas recorrendo ao uso de tranquilizante para conseguir encarar o estresse e dificuldades do cotidiano, como o acúmulo de dívidas e a perda do emprego.



Cultural



O presidente da Associação Médica do Espírito Santo (Ames), o pneumologista Carlos Alberto Gomes dos Santos, chega a dizer que, “hoje, a moda é tomar Rivotril”. Sua afirmação tem sustentação nos dados da própria IMS Health, segundo os quais, entre abril de 2014 e março deste ano, foram vendidas 23.120.670 caixinhas de produtos que têm Clonazepam como princípio ativo, no ranking dos dez maiores fabricantes.



Um estudo da Anvisa sobre transtornos de ansiedade, datado de 2013, mostra que “o Rivotril (Clonazepam) figura na 9ª posição na lista dos 100 medicamentos mais vendidos no Brasil”.



“Balinha de fruta”


“Estão tomando remédio para combater ansiedade como se fosse balinha de fruta”, critica Carlos Alberto Gomes dos Santos, para quem o problema do uso excessivo de medicamentos ansiolíticos exige uma campanha de âmbito nacional.



Ele lembra que existe uma cultura do ser humano de tomar “remédio para os nervos”, para dormir. “As pessoas têm que entender que benzodiazepínicos viciam. Sem falar nos acidentes de trabalho e de trânsito que podem causar, devido à sonolência provocada”, diz o presidente da Ames.



Facilidade



Presidente da Associação Psiquiátrica do Espírito Santo, o psiquiatra Fausto Amarante, não hesita em afirmar, numa crítica direta a muitos dos seus próprios colegas médicos: “Hoje, muitas vezes, prescreve-se com muita facilidade, de forma inconsequente, sem uma avaliação responsável”.



Amarante destaca um dado no mínimo curioso. Segundo ele, entre a categoria médica, sabe-se que a maior parte das receitas resulta de um favor.


Explica-se: uma pessoa vai a uma consulta e acaba pedindo ao médico que a está consultando uma receita para alguém da família. “Toda hora tem cliente pedindo: para a mãe, para o pai. Não se pode prescrever assim”, alerta o psiquiatra.



Ele não “demoniza” os remédios controlados. Ressalta que, na medida certa, resolvem problemas, mas alerta que médicos precisam saber prescrever a medicação com a dosagem certa.



“A droga não existe para substituir a realidade, e sim, para ajudar o paciente a saber como lidar com ela. É preciso saber a causa da ansiedade, da angústia. Uma pessoa não pode querer ficar a vida toda tomando remédios”, diz.



O também psiquiatra e psicanalista Ailton Vicente Rocha também ressalta o fato de que, além da dimensão biológica do transtorno, há a social. “É preciso saber escutar a queixa no consultório. Às vezes, nem é preciso medicar”, afirma.



Rocha chega a dizer que, hoje, quem mais prescreve ansiolíticos ou benzodiazepínicos nem é mesmo o psiquiatra, já que médicos das mais variadas áreas fazem prescrições. Fausto Amarante concorda.



Riscos



No mundo inteiro, devido ao estresse, as pessoas buscam se medicar, mas Ailton Rocha lembra que é preciso que todos estejam atentos, porque se de um lado o remédio ajuda, de outro, pode gerar outros problemas de saúde.



Um dos riscos do uso abusivo de benzodiazepínicos é o da dependência. Mas Ailton Rocha cita outro: é que além de tranquilizar a pessoa estressada, tensa e ansiosa, eles podem causar nela comprometimento da memória recente.


Gráfico ansiedade


212 mil receitas na Grande Vitória



Vigilâncias sanitárias de quatro das sete prefeituras que compõem a Região Metropolitana da Grande Vitória – Vitória, Cariacica, Vila Velha e Serra – já expediram, neste ano, numerações para confecções de 212.168 receitas de psicotrópicos e também anorexígenos.



A quantidade de caixas por receita depende da dosagem do medicamento. No caso de psicotrópicos, se o paciente toma um comprimido por dia, cada receita pode conter no máximo duas caixas. Já para anorexígenos – inibidores de apetite –, apenas uma caixa.



Na Capital, foram expedidas 80 mil numerações para a rede privada e 30 mil para a pública. Na Serra, 5.590. Já em Cariacica, 12.437 para a rede pública, e em Vila Velha, 96.578 para a privada, 73.822 delas de psicotrópicos.



Acomodação



O endocrinologista Albermar Roberts Harrigan também manifesta preocupação sobre medicamentos controlados. “Só prescrevo em situações extremas”, garante ele. Harrigan relata casos em que pacientes recebem prescrição de até dois ou três ansiolíticos combinados.



“Não se justifica a quantidade de ansiolíticos vendida no Brasil. A maioria dos pacientes que toma Bromazepan, por exemplo, nem sabe a razão disso. Hoje, confundem tristeza com depressão. O remédio virou bengala, e muitas drogas, além de causar dependência física, mental, interferem na sexualidade, na libido”, critica ele.



Para o endocrinologista, médicos que prescrevem anorexígenos e ansiolíticos para pacientes que querem emagrecer o fazem por acomodação. “O paciente precisa buscar motivação, se organizar para mudar seus hábitos. A perda de peso vem como gratificação por essa mudança”, argumenta Albermar Harrigan.



“Chorava com frequência. Vivia na pilha”: Maria (nome fictício), 26, divide-se entre a faculdade de Direito e o trabalho como secretária. Desde novembro de 2014, toma um comprimido de Clonazepam e outro do antidepressivo Citalopram. Diz que busca compreender as causas dos problemas que a afligem submetendo-se à psicoterapia, além de receber acompanhamento psiquiátrico. “Chorava com frequência, vivia na pilha, tinha crises alérgicas e dificuldade para dormir após ter sofrido um acidente. O médico me indicou tranquilizante, mas, no início, não tomei. Achava que conseguiria me controlar sem, o que não foi possível. Por causa do estresse, na minha sala de aula, muitos colegas tomam remédio controlado”, diz ela
“Chorava com frequência. Vivia na pilha”: Maria (nome fictício), 26, divide-se entre a faculdade de Direito e o trabalho como secretária. Desde novembro de 2014, toma um comprimido de Clonazepam e outro do antidepressivo Citalopram. Diz que busca compreender as causas dos problemas que a afligem submetendo-se à psicoterapia, além de receber acompanhamento psiquiátrico. “Chorava com frequência, vivia na pilha, tinha crises alérgicas e dificuldade para dormir após ter sofrido um acidente. O médico me indicou tranquilizante, mas, no início, não tomei. Achava que conseguiria me controlar sem, o que não foi possível. Por causa do estresse, na minha sala de aula, muitos colegas tomam remédio controlado”, diz ela
Foto: Ricardo Medeiros - GZ

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