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"Um mercado enorme nos oferece pílula para tudo", alerta professora sobre uso abusivo de remédios

Pós-doutora em Psicologia e docente da Ufes, Luciana Caliman fala sobre a medicalização da vida

O uso abusivo de medicalização tranquilizante - Luciana Vieira Caliman, professora de psicologia da Ufes, fala sobre a importâ??ncia de as pessoas buscarem a causa dos problemas que as afligem, sem tentar resolver tudo por meio de remédios
O uso abusivo de medicalização tranquilizante - Luciana Vieira Caliman, professora de psicologia da Ufes, fala sobre a importâ??ncia de as pessoas buscarem a causa dos problemas que as afligem, sem tentar resolver tudo por meio de remédios
Foto: Fernando Madeira

Após A GAZETA ter mostrado dados que revelam o uso abusivo de tranquilizantes no país, com comercialização, em apenas um ano, de 53 milhões de comprimidos de apenas três dos ansiolíticos mais consumidos, a pós-doutora em Psicologia, mestre em saúde coletiva e professora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Ufes, Luciana Vieira Caliman, 38, fala sobre a predominância da racionalidade médica e do mito dos medicamentos, como se eles fossem poções mágicas para a solução de todos os problemas. Veja os principais trechos da entrevista:



Patologia


“Predominam as explicações médicas, num processo de medicalização da vida. Muito do que antes era visto de outra forma – timidez, por exemplo –, surge como sintoma de patologia que tem que ser tratada, com ou sem remédio. Falta de capacidade de planejamento, de organização, tudo vira sintoma de transtorno.”

Beleza


“Sair do padrão de beleza tornou-se patologia que muitas vezes justifica intervenção médica, cirúrgica. Na psiquiatria americana há uma expansão crescente de diagnósticos, no campo da infância, da vida adulta. O que antes era considerado problema de aprendizagem, pedagógico, passa a ser visto como transtorno do indivíduo, cerebralmente, fisicamente. Como se fosse uma questão biológica, cerebral, desconectada do resto do mundo. Como se decorresse de desequilíbrio químico.”

Poção


“Depressão por causa de um luto, por uma perda considerável, tem que ser corrigida porque passa a ser vista como problema neuroquímico. E há expectativa de que o medicamento funcione como poção solucionadora de problemas, salvadora. Há um certo mito em torno dele. E a racionalidade biomédica fortalece essa ideia.”

Imediatismo


“Vivemos um tempo onde há uma necessidade muito imediata para a solução das coisas. A pessoa está com dificuldade para dormir, mas amanhã cedo ela terá que trabalhar, e não lhe é permitido perder tempo. Então, toma Rivotril para apagar. Mas hoje, há a sensação de que a cabeça não para nunca, como se o sono não tivesse mais função. Não é possível desligar. O autor Jonathan Crary que diz que a vida 24 horas por dia, sete dias por semana, provoca um estado de permanente alerta. Como se não fosse mais importante parar, distrair, ficar off.”

Sofrimento


“Prevalece a ideia de que a vida tenha que estar sempre muito organizada. É preciso estar sempre muito tranquilo, bem. Não se pode ter dores. Como se fosse possível viver sem sofrimento, dentro de um padrão. Quando se foge a isso é o desvio, que precisa ser sanado, de preferência rapidamente. E aí entra o medicamento.”

Causa


“Interessa menos o que causa o sintoma. Por que você está sem sono? O que o aflige? O que na sua vida está provocando o que você sente? Buscar a causa demanda um voltar-se para si mesmo, um pensar sobre como estão suas relações. Mas, quase sempre, busca-se a causa no coração, no rim, no estômago. O fato é que tudo o que diz respeito a questões comportamentais e emocionais nunca vai ter uma causa única, sempre igual. O que lhe tirava o sono quando você era menina não é o mesmo que provoca em você esse mesmo problema, hoje. Mas quase sempre imagina-se que é sempre a mesma coisa, que deve ser solucionada sempre da mesma forma, com o medicamento, que surge para dar segurança à abordagem.”

Psicoestimulante


“E quando se fala em medicação, não se pensa só naquelas para dormir, para relaxar. Hoje, se a queixa é de desatenção, de falta de foco na criança na escola, surge a indicação de uso da Ritalina, que é um psicoestimulante. Mas quando se define que a criança tem Transtorno de Déficit de Atenção (TDH), deixa-se de perguntar o que está acontecendo na escola para que ela não esteja se conectando na sala de aula. Só se pensa que a questão está na criança, e não na relação que ela está tendo com o professor, com a matéria.”

Depressão

“As pessoas falam muito da preocupação com a depressão, um dos maiores motivos de afastamento de trabalho, mas, na verdade, qual é a preocupação? Justamente a questão da não produtividade. Não é possível dar um tempo, porque ele é prejudicial ao mercado. Daí a exigência que todos estejamos sempre bem.”

Banalização

“Nós nos tornamos sujeitos psicofarmacológicos. Porque há um mercado enorme que nos oferece pílula para tudo: felicidade, inteligência... Ir ao psiquiatra já não tem mais o estigma do passado. E a prescrição médica legitima o uso da droga feita para tratar, dando a ela um lugar seguro. Mas o problema em si não é o medicamento, e sim a relação que você estabelece com ele. É preciso que as pessoas perguntem a si mesmas por que estão precisando dele. E criem saídas para os problemas, os obstáculos que estão enfrentando, obrigando-se a se refazer, a se recolocar no mundo.”

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