Notícia

"Policial é treinado para não errar", afirmam especialistas

Especialistas em segurança criticaram atitude do PM em atirar em ônibus

Para especialistas em segurança, a atitude do policial em reagir dentro do ônibus foi errada. Eles relacionaram a ação à ineficiência ou até mesmo à falta de treinamento dentro da Polícia Militar.

“Atirar em um ambiente cheio e fechado, como é um ônibus, foi precipitado e a pior escolha que ele poderia ter tomado. Ele tinha opção de não se revelar como policial e acompanhar o assaltante quando ele deixasse o coletivo. Na situação que ele estava, ele não podia reagir”, analisou o doutor em sociologia da UERJ, Ignacio Cona.

Passageiro foi morto dentro do ônibus 505 - Terminal de Laranjeiras x Terminal de Itabibá na noite desta quarta-feira (03), em Jardim Camburi
Passageiro foi morto dentro do ônibus 505 - Terminal de Laranjeiras x Terminal de Itabibá na noite desta quarta-feira (03), em Jardim Camburi
Foto: Wesley Ribeiro

O medo de ser executado, ao ser descoberto como PM, pode ser influenciado a atitude do policial, como acredita o tenente-coronel da reserva da Polícia Militar de São Paulo e mestre em Direitos Humanos pela USP, Adilson Paes de Souza. Porém, ele classificou a atitude como desastrosa.

“Mesmo que ele tenha agido por medo ou por idealismo de fazer a função de policial e impedir o assalto, ele errou e pôs em risco a vida de outras pessoas que estavam dentro daquele coletivo. Ele é treinado para não errar, se é que ele tem treinamento”, disse.

De acordo com o analista de segurança e coronel da reserva do Exército, Eugênio Moretzsohn, a maioria dos policiais não é contemplada com provas constantes em Tiro Prático.

“Nessas provas verifica-se que a probabilidade de o policial com pouco treinamento sacar da arma e atingir o primeiro tiro no alvo num movimento rápido e contínuo é muito pequena, e alguns sequer conseguem após 6 tentativas”, explicou.

O tenente-coronel Souza também criticou o treinamento dado aos policiais militares e as condições psicológicas em que eles estão submetidos. “As corporações possuem Normas de Engajamento muito boas no papel, mas que não estão introjetadas no comportamento diário do policial”, questionou.

Perguntas que a Secretaria de Segurança não respondeu

1- O policial recebia treinamento com frequência?

2- Qual a última vez que o subtenente recebeu algum tipo de treinamento?

3- Neste treinamento, ele foi exposto a alguma simulação de tiros?

4- O procedimento adotado por ele dentro do coletivo vai ao encontro do que é ensinado nos treinamentos?

5- Qual era a situação psicológica deste policial?

6- O secretário de segurança acredita que a atitude adotada pelo policial militar diante da situação foi a mais correta?

Análise

Situação já era explosiva

“Existem assaltantes que disparam quando descobrem que a vítima é um policial e o PM pode ter considerado que sua vida estava em risco. É compreensível que ele tenha este entendimento, porém ele se responsabilizou pelos seus atos a partir do momento em que reagiu. Especialmente em locais confinados ou onde há muitas pessoas, como é o caso do coletivo, ainda que o policial conseguisse atingir o alvo certo, há riscos de ferir inocentes. Se não houvesse reação, um roubo custaria a pessoa apenas bens materiais que poderiam ser recuperados mais tarde. Mas com a reação, adicionou-se mais combustível a uma situação já potencialmente explosiva.”

Eugênio Moretzsohn - Analista de segurança e coronel da reserva do Exército

Momento de desespero

Além da morte do fiscal de loja Cléverton Oliveira Cabral, 29 anos, a ação do subtenente Claudison ainda deixou um vigilante de 43 anos ferido. Ele estava no ônibus acompanhado da mulher, uma doméstica, 41, que contou o que lembra da situação.

Em que local vocês embarcaram no ônibus?

A gente pegou o ônibus na Praia do Suá. Estávamos voltando para casa, em Serra Dourada I. Quando chegou na Praia de Camburi, o cara anunciou o assalto e mandou todo mundo abaixar a cabeça. Meu marido estava abaixado, de costas para o policial.

O que você se lembra?

Na hora que ele atirou no bandido, eu não consegui ver. O bandido correu e o tiro acertou no meu marido, que estava de costas para ele. Foi tudo muito rápido. Estávamos todo mundo de cabeça baixa, porque o assaltante mandou não olharmos para o rosto dele. Foi horrível.

E como ficou seu marido?

Meu marido perdeu muito sangue ali dentro do ônibus, porque pegou no braço e atravessou para o tórax. Mas eu tenho certeza que vai dar tudo certo. Agora é se recuperar.

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