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Bulimia e anorexia: dois distúrbios que atingem adolescentes e jovens

Bulimia e anorexia são assuntos tratados pelo médico e psicoterapeuta na 13ª Jornada Sudeste de Psiquiatria, que acontece em Vitória

Olhar-se no espelho e enxergar a imagem de um corpo muito diferente do que ele realmente é. Esta é apenas uma parte do sofrimento vivido por pacientes que enfrentam as duras consequências da bulimia e da anorexia, dois dos mais graves distúrbios alimentares existentes, que atingem principalmente adolescentes e jovens mulheres.

O tema tornou-se uma das pautas da 13ª Jornada Sudeste de Psiquiatria, que acontece nesta sexta (17) e sábado (18) no Itamarty Hall, em Vitória, reunindo especialistas de todo o país. Coordenador da mesa de debate sobre distúrbios alimentares, o psiquiatra e psicoterapeuta Ailton Vicente Rocha define a doença como uma alteração do comportamento alimentar, em que os indivíduos tanto podem deixar de comer, quanto comer excessivamente.

Para o professor aposentado da Ufes, experiências e traumas vividos na infância, aliados à excessiva valorização de padrões corporais na sociedade, são os principais gatilhos para os distúrbios. Estes, por sua vez, tendem a se manifestar justamente no período de amadurecimento físico e emocional das jovens. Em entrevista à A GAZETA, Ailton analisa os motivos que levam os distúrbios alimentares a se tornarem cada vez mais comuns nessa faixa etária, bem como as formas de prevenção e de tratamento.

O que são os distúrbios alimentares?

São transtornos relativos ao comportamento dos seres humanos diante dos alimentos, ora comendo excessivamente, ora evitando o comer. Basicamente, temos três tipos de transtornos: a anorexia nervosa, em que a pessoa desenvolve um pavor, um medo patológico da comida; a bulimia, em que come-se muito e geralmente há provocação de vômitos posteriores ou outros comportamentos purgativos, pois o paciente acha que com aquilo não vai engordar; e o transtorno compulsivo alimentar periódico, no qual as pessoas comem demais – como se fosse para preencher um vazio – e depois se sentem culpadas. Este é o menos grave dos três.

Um traço em comum entre bulímicos e anoréxicos é a percepção distorcida da imagem corporal. A pessoa se olha no espelho e se acha gorda por mais que ela não esteja.

São doenças apenas de cunho psiquiátrico ou há fatores biológicos que influenciam?

Pesquisas e estudos biológicos e clínicos observam que há tanto fatores biológicos, quanto psicológicos, mas fatores culturais também podem contribuir. Eu, como psiquiatra e psicoterapeuta, considero muito o fator psicológico desde a infância das pessoas e de sua estrutura familiar, experiências vividas na infância, que podem se manifestar na adolescência. Como nesse período acontecem mudanças físicas e emocionais e surge a questão de ter que lidar com o próprio corpo, tudo o que foi vivido nas primeiras relações está sujeito a ressurgir.

Qual a faixa etária é mais afetada?

A anorexia se manifesta mais na adolescência e no adulto jovem, especialmente em mulheres. A bulimia ocorre mais entre os 20 e 30 anos, também predominantemente no sexo feminino. Já o transtorno compulsivo alimentar por vezes ocorre mais tarde, afetando homens também.

As consequências dependem do grau das doenças. A anorexia leva a complicações clínicas maiores, como perda de nutrientes, desidratação, alterações cardíacas, renais e até a morte. Já a pessoa com bulimia pode ter alterações gástricas e dentárias. Em algumas, observarmos cicatrizes nas mãos e nos dedos devido ao ácido que vem do estômago (já que a pessoa provoca o vômito com as mãos). Chega a um ponto em que esses pacientes não conseguem andar, têm desmaios de fraqueza. Quem come compulsivamente pode chegar à obesidade.

Hoje essas doenças são mais comuns?

Sim. A valorização do corpo na sociedade ocidental é muito forte e adolescentes que mais sensíveis podem absorver esse padrão social de magreza. Quanto mais competitiva e consumista é a sociedade e quanto mais se valoriza o corpo, maior é a prevalência de transtornos.

Mas essas doenças existem desde os tempos imemoriáveis e ganharam um tratamento científico nos séculos 19 e 20. Hoje, obviamente, os médicos estão mais preparados para fazer o diagnóstico.

Existe prevenção?

A prevenção primária começa na infância, com o estabelecimento de uma boa relação entre pais e filhos. Depois vêm as prevenções secundárias. Se uma jovem é insegura, perfeccionista, com traços obsessivos e dificuldades de relacionamento, ela é pré-disposta a desenvolver esses quadros de anorexia, bulimia. Ao se identificar isso, é preciso buscar ajuda profissional, fazer uma terapia.

Há indícios que levam pais e especialistas a desconfiarem do problema. A jovem que vive pensando no peso ou que come e corre para o banheiro, por exemplo. Quanto mais precoce é o diagnóstico, melhores serão as respostas.

Como é o tratamento?

Do ponto de vista psiquiátrico, podemos ajudar mais quando existem comorbidades associadas, como depressão e ansiedade. Aí receitamos antidepressivos e ansiolíticos. Também há reposição de vitaminas e de eletrólitos. Internações só devem ocorrer em casos mais graves, quando há sintomas psicóticos. Mas normalmente o tratamento é ambulatorial. Os cuidados não se restringem ao paciente e toda a relação familiar tem que ser acompanhada.

 

 

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