Entrevista

"Se tiver cadeira em casa, esconda de mim", brinca médico em desabafo

Um dia depois de quebra-quebra, o médico recebeu apoio dos pacientes que chegavam à Unidade de Saúde de Jardim América ou já estavam desde a madrugada esperando por atendimento

Caíque Verli

O médico Aurédio José Couto, de 71 anos, que teve um surto e promoveu um quebra-quebra na Unidade de Saúde de Jardim América, em Cariacica, nesta terça-feira (15), foi trabalhar sem saber que estava suspenso pela prefeitura. Ele falou sobre os vários problemas que o posto tem e o que levaram ao comportamento no dia anterior.

Simpático e bem mais tranquilo, o médico até brincava com outros pacientes: “Se tiver cadeiras em casa, esconda de mim”. Ele recebia apoio de todos que chegavam ou já estavam desde a madrugada esperando por atendimento.

>Prefeitura nega falta de material em unidade de saúde de Cariacica

Em conversa com a reportagem, ele disse que mesmo que for afastado não vai deixar de lutar contra os problemas na saúde de Cariacica, onde trabalha desde 1971. Veja a entrevista.

O que falta na unidade de saúde de Jardim América?

Primeiro o que falta aqui são pessoas que entendam de Medicina. Medicina não é curar doenças. Medicina é prevenir doenças, não deixar ela chegar. Depois que chega é difícil para o médico resolver essa situação. E essa é a nossa luta. Falta tudo. Como respeito ao paciente que fica desde madrugada esperando e agora fica em pé. Quantas pessoas chegaram com gripe e hoje estão com pneumonia? Isso ninguém olha. Não sabem da dificuldade das pessoas.

O que aconteceu ontem? Qual foi o sentimento do senhor?

Minha revolta eu fiz em cima do material. Não ofendi ninguém. Eu fui procurar inicialmente a sala que iria atender, como venho agora para cumprir meu contrato que tenho desde 1971 com a prefeitura. Se eu não vier, cortam meu dia. Eles não sabiam onde me colocar. Eu tenho que pedir que eles distribuam as fichas para meus pacientes. Mesmo que eles me mandem embora ou não me deixem trabalhar mais, estarei sempre aqui.

O senhor está arrependido do que fez ou faria de novo?

Eu acho que a população está aprendendo como fazer as coisas. Você vai tirar as fichas e vê o tratamento que é dado aqui. Eu entro na minha sala e não tem um termômetro para ver a sua temperatura. Não tem um estetoscópio para ouvir seu pulmão ou um aparelho para aferir a pressão.

A gente pode dizer que o senhor se revoltou pelas condições de trabalho?

O mais pesado disso tudo foram as cadeiras, que não tiveram nada a ver com isso (brinca), mas os bancos que os pacientes aguardam fichas ninguém olha. As pessoas que vem de madrugada para pegar ficha, como ficam? Ontem choveu e tinha muita gente molhada aí do lado de fora.

A prefeitura afastou o senhor das funções. Como o senhor considera isso?

Isso é verdade? Eu não recebi nenhum documento até agora (recebe a informação surpreso).

Por isso o senhor veio trabalhar normalmente...

Normalmente. Vim atender meus pacientes. Estou esperando eles falarem a sala que vou atender. Os pacientes que vieram falar para mim que eu não estou aqui mais.

Como o senhor avalia o afastamento?

Quem sou eu para fazer uma auto definição sobre esse ato? Acho que eles têm que colocar a mão na consciência e falar pessoalmente comigo essas coisas. Eu procurei a secretária de Saúde para falar sobre a situação dessa unidade há uns meses.

O senhor faria isso novamente?

Agora eu tenho pessoas que vão me ajudar. Não tem mais cadeiras, eu derrubei algumas. E eu não descontei a raiva nas pessoas. Elas estavam pedindo para eu fazer mais. Essas ações, eu tenho recebido elogios de todo o Brasil.

O que o senhor falou com a secretária há alguns meses?

Passei todas essas informações pra ela. Tenho 46 anos de Medicina. Será que eu ou a população merece isso? Esse enfrentamento não vai acabar. Mesmo que me tirem daqui, vou continuar minha luta.

A polícia disse que vai chamar o senhor para depor. O senhor está preparado?

Eu não preciso de preparação. Já tenho escrito o que falta aqui na unidade, principalmente a vergonha dos nossos maiores. Quem manda no Brasil é o presidente, quem manda no Estado é o governador. E no município? Quem manda? Eu posso responder por isso ou pagar multa, mas quantas coisas acontecem e ninguém faz nada?

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