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Mulheres capixabas viram símbolo na luta pela igualdade

No trabalho, na universidade, no coletivo, elas se mobilizam pelo empoderamento feminino em todos os setores, grupos e faixas etárias, de meninas a mulheres

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Romper barreiras, quebrar paradigmas, desconstruir estigmas. É uma ação constante de um grupo cada vez maior de mulheres em busca da igualdade de direitos e de oportunidades. Reunidas em coletivos, no trabalho, na universidade, elas vêm se mobilizando e se apoiando na construção de uma sociedade que não faça distinção entre gêneros na hora de ocupar espaços e defender ideias. As mulheres estão aí, com todo o seu poder, e o que desejam está além de palavras, mas uma expressão pode ajudar a resumir seus anseios: respeito.

O processo é longo, quase nunca fácil, sobretudo porque o machismo está impregnado na cultura brasileira, é estrutural. Por isso, na avaliação de Patrícia Santos da Silveira, presidente da Comissão da Mulher Advogada na Ordem dos Advogados do Brasil, seccional do Espírito Santo (OAB-ES), a escola tem um papel fundamental na formação das novas gerações.

Patrícia Santos da Silveira, presidente da Comissão da Mulher Advogada na OAB-ES
Patrícia Santos da Silveira, presidente da Comissão da Mulher Advogada na OAB-ES
Foto: Acervo pessoal/Divulgação

“A igualdade só vai chegar quando conseguirmos levar o debate para as escolas. Precisamos empoderar as crianças, ensinar desde cedo o respeito por todos, a igualdade. Meninos e meninas são diferentes no corpo, mas em direitos e deveres são iguais e precisam compreender isso”, avalia.

 Mas não é só a escola que serve como ambiente de aprendizado. A comissão que Patrícia preside se reúne com regularidade para discussões de temas ligados à mulher, como sororidade, e um congresso está sendo organizado para ampliar o debate com o público em geral, e não apenas advogadas. Na pauta, assuntos como violência obstétrica, empoderamento feminino e representação da mulher na política.

A igualdade só vai chegar quando conseguirmos levar o debate para as escolas. Precisamos empoderar as crianças, ensinar desde cedo o respeito por todos, a igualdade
Patrícia Santos da Silveira, presidente da Comissão da Mulher Advogada na OAB-ES

 Do Coletivo Araceli, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), as estudantes Brunna Terra e Wendy Xavier acreditam que o empoderamento se fortalece nesses debates. “Eles nos ajudam a formar opinião sobre assuntos relacionados ao feminismo que vão dando embasamento para que possamos nos empoderar, nos emancipar nos espaços da universidade e, sobretudo, nos aceitar como verdadeiramente somos”, afirmam as meninas, em nome do Coletivo.

 A empreendedora social Priscila Gama, 36, presidente do Instituto Das Pretas, também sustenta a necessidade do diálogo nesse processo de transformação social. Entre inúmeras atividades que realiza, estão as palestras e cursos, ganhando a vida “vendendo a sua fala” há quatro anos. “O empoderamento não é uma via de mão única; ninguém é 100% empoderado. É sempre uma troca, e a gente se empodera todo dia com a nossa história e a dos outros também”, observa.

Priscila Gama, empreendedora social e digital influencer
Priscila Gama, empreendedora social e digital influencer
Foto: Bernardo Coutinho

Mesmo tendo crescido em um lar empoderador, Priscila reconhece que o machismo também se fez presente na sua vida. Apenas aos 29 anos, na gravidez de seu primeiro filho, que hoje está com 7, ela começou a romper as próprias barreiras. “As meninas mais novas já chegam hoje batendo o pé na porta. Na minha geração, a gente precisou desconstruir e construir muita coisa. Quando fiquei grávida, as coisas mudaram para mim, pensei no que eu queria e falei: eu posso!"

EMPODERAMENTO DE OLHO NO FUTURO

 O ambiente de trabalho é onde mulheres costumam enfrentar muito o preconceito pelo simples fato de serem mulheres. Alguns locais mais do que outros, mas via de regra há desqualificação de sua capacidade, os salários muitas vezes são diferenciados e, não raramente, registram assédio. Diante dessa realidade, a Organização das Nações Unidas (ONU) criou os Princípios de Empoderamento das Mulheres visando a um futuro mais equilibrado.

A ideia é que, ao empoderar a mulher e promover a equidade de gênero em todas as atividades, seja possível garantir o fortalecimento da economia, impulsionar os negócios e melhorar a qualidade de vida, não apenas das mulheres, mas também dos homens e das crianças.

Patrícia Santos da Silveira, da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-ES), revela que há muito preconceito contra as criminalistas e, por isso, nem todas se mantêm nessa área. “Elas precisam estar em ambientes eminentemente masculinos e não são respeitadas. Mas elas têm que se empoderar para trabalhar na área que quiserem”, defende.

Mulheres do coletivo BatuQdellas
Mulheres do coletivo BatuQdellas
Foto: Rafatex

Crystal Vettoraci Candeia, autônoma e percussionista, fundou no início do ano o coletivo BatuQdellas para reunir mulheres que gostam de samba, um segmento que ainda tem forte resistência à participação feminina. A ideia inicial era sair no carnaval, mas agora as meninas – de ampla faixa etária e diversas formações – se reúnem toda semana para ensaios, fazem apresentações e, mais do que isso, se encontram para debater o empoderamento feminino.“A gente discute o assunto para poder combater de forma mais ativa o machismo”, conclui.

ANÁLISE

"Dentro do movimento feminista, há muitos grupos (negras, trans, homossexuais), cada um seguindo seu objetivo. Ao mesmo tempo que houve essa separação, houve empoderamento e a conquista de espaço. Mas eu penso que tínhamos que estar de braços dados, porque nosso “inimigo” é comum. A misoginia (desprezo às mulheres) ainda é grande, a falta de respeito também. Nossa luta tem que ser para quebrar a hierarquia de gênero." 

Maria Beatriz Nader, coordenadora do Laboratório de Estudos de Gênero, Poder e Violência da Ufes

PRINCÍPIOS DO EMPODERAMENTO

1 - Estabelecer liderança corporativa sensível à igualdade de gênero, no mais alto nível.

2 - Tratar todas as mulheres e homens de forma justa no trabalho, respeitando e apoiando os direitos humanos e a não discriminação.

3 - Garantir saúde, segurança e bem-estar de todas as mulheres e homens que trabalham na empresa.

4 - Promover educação, capacitação e desenvolvimento profissional para as mulheres.

5 - Apoiar empreendedorismo  de mulheres e promover políticas de empoderamento das mulheres através das cadeias de suprimentos e marketing.

6 - Promover a igualdade de gênero através de iniciativas voltadas à comunidade e ao ativismo social.

7 - Medir, documentar e publicar os progressos da empresa na promoção da igualdade de gênero.

Fonte: ONU Mulheres Brasil

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