Notícia

"Não guardo mais rancor", diz pai do juiz Alexandre sobre Antônio Leopoldo

O advogado Alexandre Martins de Castro abraçou com um dos acusados de ser o mandante do crime, ocorrido em março de 2003. Leopoldo é o único que ainda não foi julgado

Não guardo mais rancor. O processo segue e o responsável por ele é o Ministério Público. Apenas não mais atacarei ninguém, porque quinze anos e meio é muito tempo para guardar rancor e para desgastar a alma. Durante quinze anos e meio ataquei o Dr. Antônio Leopoldo e minha consciência manda parar com o ataque pessoal a ele. Tenho outras causas para combater.
Alexandre Martins de Castro

O desabafo acima é do advogado Alexandre Martins de Castro, pai do juiz Alexandre Martins de Castro Filho, assassinado a tiros em março de 2003, em Vila Velha. Quinze anos depois da execução do filho, em um crime que chocou o Espírito Santo, o advogado se reencontrou com o juiz aposentado Antônio Leopoldo Teixeira, único dos dez acusados pelo crime que ainda não foi julgado. A fala acima foi publicada em uma rede social de Alexandre Martins nesta segunda-feira (27) e dita pessoalmente a Leopoldo (veja vídeo abaixo) durante um culto na Assembleia de Deus da Praia da Costa, em Vila Velha, neste domingo (26).

"Há uma palavra de Coríntios que diz que o amor não guarda rancor. Essa palavra me tocou o coração. Na sexta eu estive em uma reunião e o Leopoldo estava lá. Aproveitei a ocasião para dizer a ele (Leopoldo) que não quero mais ter rancor na minha vida. Os problemas ele deve resolver com a Justiça e não sou eu que julgo. Não se trata de perdão, mas de não ter mais rancor", afirmou Alexandre Martins de Castro.

> Juiz Alexandre Martins é assassinado após descobrir esquema do alto escalão capixaba

> Morte do juiz Alexandre completa 15 anos sem julgamento de réu

O mesmo discurso foi repetido na frente de centenas de fiéis neste domingo, na Assembleia de Deus. Na ocasião, o pai do juiz Alexandre chegou a dar um abraço naquele que é considerado o mandante do assassinato de seu filho.

"Ontem (domingo) estive na igreja e mais uma vez Leopoldo estava lá. Fui chamado pelo pastor para um testemunho e repeti, diante das pessoas que lá estavam, que não guardo mais rancor do Leopoldo e que não vou mais atacá-lo", contou.

TEXTO PUBLICADO NA REDE SOCIAL

Em um texto longo, intitulado "Coração sem rancor", Alexandre Martins de Castro explicou que a decisão de foi um momento espiritual. "Só quem sofreu o que eu sofri pode entender o que é ser rancoroso e se libertar desse sentimento. A lembrança de meu filho só me trará felicidade e não mais me provocará ódio por ninguém", explicou. O texto - reproduzido a baixo - foi publicado em um grupo no Facebook. Veja na íntegra:

"Em sua primeira Epístola aos Coríntios, Paulo ensina que o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente. O AMOR NÃO GUARDA RANCOR.

O rancor significa uma mágoa profunda, um grande ressentimento, um excesso de ódio guardado.

Durante quinze anos e meio tenho reservado boa parte de meu coração para armazenar rancor e isso, aos poucos, vai envelhecendo a alma e retirando a felicidade da vida.

Deus tocou meu coração e ontem, na Igreja da Assembleia de Deus da Praia da Costa, eu estava dando um testemunho sobre as minhas dificuldades vividas e estava presente o Dr. Antonio Leopoldo.

Em dado momento eu disse textualmente a ele, na presença de centenas de pessoas: “não lhe guardo rancor, não lhe ataco mais e quero lhe dar um abraço. O processo ainda tem um caminho a percorrer que não depende de mim, mas sim das autoridades competentes. Venha até aqui e vamos dar um abraço no Pastor”

Foi um momento espiritual e nada material. Só quem sofreu o que eu sofri pode entender o que é ser rancoroso e se libertar desse sentimento. A lembrança de meu filho só me trará felicidade e não mais me provocará ódio por ninguém.

Faço questão de relatar isso aqui no Grupo, porque você têm sido meu suporte durante todos esses anos. Sempre falei a verdade e sempre fui sincero. Tenho consciência do que fiz e tomei uma atitude que meu coração mandava tomar. E quero fazer aqui e para vocês a minha primeira declaração sobre o fato de ontem, pela consideração e respeito por todos que me seguem aqui.

O processo segue e o responsável por ele é o Ministério Público. Apenas não mais atacarei ninguém, porque quinze anos e meio é muito tempo para guardar rancor e para desgastar a alma. Durante quinze anos e meio ataquei o Dr. Antonio Leopoldo e minha consciência manda parar com o ataque pessoal a ele. Tenho outras causas para combater.

Independentemente de qualquer resultado ou de qualquer interpretação, o importante é que meu coração está curado e nele não há qualquer resquício de rancor por ninguém, especialmente pelo Dr. Leopoldo. E sempre que o encontrar, não me negarei a cumprimentá-lo. BOA SEMANA, AMIGAS E AMIGOS!"  

"RESPEITEI SUA DOR", DIZ ANTÔNIO LEOPOLDO

Alexandre Martins de Castro posa para foto entre Antônio Leopoldo e a esposa do juiz após culto na Assembleia de Deus
Alexandre Martins de Castro posa para foto entre Antônio Leopoldo e a esposa do juiz após culto na Assembleia de Deus
Foto: Divulgação

Após um abraço e de ouvir as palavras de Alexandre Martins de Castro, o juiz aposentado Antônio Leopoldo Teixeira afirmou que foi amigo de juiz assassinado e que, durante esses 15 anos, preferiu se calar como forma de respeito e reverência ao "mestre".  

"Na verdade todas as vezes que a imprensa falava, Deus mandava eu me calar. Eu reverenciava o meu mestre (Alexandre Martins de Castro foi professor de Leopoldo), que eu sempre amei, respeitei e respeitei a sua dor. Eu fui amigo do saudoso filho dele. O pastor Marinelshington estava presente quando ele disse que acreditava na minha inocência. Eu disse para Deus: 'agora estou preparado para o Senhor fazer da minha vida o que quiser'. Deus o abençoe, sempre o coloquei em minhas orações", afirmou.

A reportagem entrou em contato com Antônio Leopoldo Teixeira para que ele comentasse o encontro com Alexandre Martins Castro, mas as ligações não foram atendidas. 

O CRIME

Juiz Alexandre Martins, assassinado em 2003
Juiz Alexandre Martins, assassinado em 2003
Foto: Arquivo / TV Gazeta

A execução aconteceu por volta das 7h45 do dia 24 de março de 2003. Alexandre Martins saiu de casa para praticar exercícios em uma academia, no bairro Itapoã, em Vila Velha. Quando retornava para casa, acabou sendo surpreendido por dois bandidos de moto. Um deles desceu do veículo, armado com uma pistola calibre 765, foi em direção ao juiz e atirou duas vezes. Os disparos acertaram Alexandre no braço e no peito. Ele tentou correr, mas o criminoso apertou o gatilho mais uma vez, para decretar a morte do homem que era o símbolo da luta contra o crime organizado na época.

> Presidente do TJES teme que crime contra o juiz Alexandre prescreva

OS ACUSADOS

O responsável por matar o juiz foi Odessi Martins da Silva Júnior, o Lumbrigão. Junto com ele, na moto, estava Giliarde Ferreira de Souza. Os dois foram condenados e cumprem pena até hoje, sendo o assassino em regime semi-aberto, desde dezembro do ano passado e, o segundo, no aberto.

O coronel da reserva da Polícia Militar, Walter Gomes Ferreira, e o empresário e ex-policial civil Cláudio Luiz Andrade Baptista, o Calu, são os outros dois homens apontados, junto com o juiz Leopoldo, de serem os mandantes da morte de Alexandre. Calu foi inocentado pelo júri, em julgamento realizado no dia 30 de agosto de 2015. Ferreira foi o único condenado, nesse mesmo dia, por planejar a execução e cumpre pena na cadeia do Quartel da PM, em Maruípe.

O juiz Antônio Leopoldo, por meio de um embargo de declaração, pede ao STJ a anulação da sentença de pronúncia pela participação no crime.

Os outros envolvidos e condenados por atuarem como intermediários no assassinato de Alexandre Martins foram Fernandes de Oliveira Reis, o Cabeção, Heber Valencio, Leandro Celestino dos Santos, o Pardal, Ranilson Alves da Silva e Andre Luiz Barbosa Tavares, o Yoxito. Todos já cumpriram suas penas e estão soltos, com exceção a Fernandes, que ainda está em regime fechado, pois havia sido condenado por outro crime e as penas se somaram. 

Ver comentários