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Polícia reconhece guerra e sobe morro em Vitória

Estado anuncia base no Alagoano com reforço de 80 PMs

Policiais fizeram uma operação no Morro do Alagoano nesta quinta-feira
Policiais fizeram uma operação no Morro do Alagoano nesta quinta-feira
Foto: Oliveira Alves/TV Gazeta

O secretário de Segurança Pública do Estado, coronel Nylton Rodrigues, admitiu que existe atualmente uma disputa pelo tráfico de drogas entre facções criminosas nos morros de Vitória. Ele afirmou que a situação está sendo monitorada pelo serviço de inteligência da secretaria e que o Estado vai instalar um ponto base no Morro do Alagoano, com 80 policiais militares que vão se revezar no patrulhamento. “Temos a informação de que é uma disputa em que traficantes do Bairro da Penha tentam tomar o tráfico de drogas no Alagoano.”

A declaração foi feita em entrevista coletiva na quinta-feira (16) na praça de Caratoíra, bairro que fica no pé do Morro do Alagoano, após reportagem exclusiva de A GAZETA mostrar que os moradores da região estão perdendo o sono com os constantes tiroteios da briga de facções criminosas.

O secretário afirmou que as investidas dos criminosos têm o objetivo de tomar territórios para aumentar os pontos de venda de drogas. “É uma tentativa de expansão e não de migração”, esclareceu.

Coronel Nylton disse ainda que as trocas de tiros relatadas pelos moradores de Caratoíra e Alagoano nos últimos dias têm relação com a onda de ataques que aconteceu em junho no Morro da Piedade. “Temos um problema com disputa do tráfico local e do território e isso está fazendo a gente tomar a providência de aumentar a nossa presença para trazer mais segurança à população”, ressaltou.

BASE 

Para enfrentar o problema, o coronel anunciou um reforço na presença da Polícia Militar no bairro. Será instalado um ponto base da PM no Alagoano, que vai funcionar 24 horas por dia. “Aproximadamente 80 policiais vão trabalhar lá em regime de escala, se revezando. Toda vez que acontecer essa disputa de território trazendo intranquilidade, vamos saturar, permanecer e apreender”, ressaltou.

A nova base, no entanto, será diferente daquela proposta para o Morro da Piedade, que terá imóvel fixo. “Será um local onde ficará constantemente uma viatura ou duas motos da PM garantindo presença na comunidade.”

Nylton ressaltou ainda que, além da base, outras ações serão tomadas para assegurar a paz dos moradores dos bairros Alagoano e Caratoíra. “A Polícia Civil está investigando a ação e traficantes no morro. A PM vai se fazer presente com força tática e patrulha de morro do 1º Batalhão”, disse.

SEM PAZ

Há cinco dias, os moradores da região do Morro do Alagoano sofrem com as trocas de tiros constantes, como revelado pela reportagem publicada ontem. O conflito acontece porque o local está sem chefia do tráfico e há duas facções interessadas em dominar a área.

No caso dos bairros Alagoano e Caratoíra, uma das investidas parte dos traficantes do Complexo da Penha, conjunto de bairro no entorno do Bairro da Penha. É lá que está instalado o PCV (Primeiro Comando de Vitória), que tem ligação com o PCC (Primeiro Comando da Capital), de São Paulo.

No outro lado da disputa está um grupo de traficantes rejeitados, expulsos do Alagoano por Gu, líder do tráfico no morro que depois foi assassinado. Eles se uniram a bandidos vizinhos do morros do Cabral, do Quadro e de Bela Vista.

VINGANÇA

Além do interesse estratégico pelo Alagoano/Caratoíra para a expansão dos negócios do tráfico, o líder do PCV, Carlos Alberto Furtado da Silva, o Beto, e seus comparsas querem vingar a morte de um amigo morto.

Beto comanda as operações de dentro do Presídio de Segurança Máxima II, passando informações para o “gerente” da gangue, Fernando Moraes Pereira Pimenta, o Marujo.

Junto com lideranças de gangues de outros municípios da Grande Vitória, o PCV também atuou fortemente na disputa pela Piedade, dando apoio aos traficantes do Morro da Fonte Grande. Uma briga que acabou resultando, só este ano, na morte de quatro pessoas, inclusive de dois irmãos.

"MEMBROS DO PCC ESTÃO ESPALHADOS PELO ESTADO"

Sérgio Alves pereira, promotor de Justiça
Sérgio Alves pereira, promotor de Justiça
Foto: Marcelo Prest

Há 15 anos o promotor de Justiça do Ministério Público do Espírito Santo, Sérgio Alves Pereira, trabalha investigando as atividades do Primeiro Comando da Capital (PCC), facção criminosa de São Paulo, no Espírito Santo. Após as recentes disputas intensas pelo controle do tráfico de drogas em morros de Vitória, o promotor, que já foi secretário estadual de Justiça, em 2013, ressaltou que integrantes do PCC estão espalhados por todo o Estado.

Segundo ele, há no Espírito Santo mais do que os 267 membros informados por levantamento do jornal Folha de São Paulo, divulgado em julho deste ano.

Atualmente, o promotor coordena a Central de Inquéritos da Grande Vitória e o Grupo de Trabalho Especial em Execução Penal. Em entrevista exclusiva, ele contou como tudo começou e de que forma agem as organizações criminosas que atuam nos bairros capixabas. Veja a entrevista

O INÍCIO

“A percepção do PCC aqui se deu a partir de 2003, quando o Ministério Público, junto com a Polícia Militar, através da atividade de inteligência, passou a desenvolver operações para identificar os integrantes que estavam vindo de São Paulo, a influência deles do sistema prisional, poder econômico, questão bélica e como estava a influência deles nas regiões onde existiam pequenas facções criminosas, como era o Complexo da Penha, em Vitória. Com isso, surgiram organizações como o Primeiro Comando de Vitória (PCV) e o Trem-Bala. O Primeiro Comando de Vitória tem a atribuição de realizar a intermediação, junto ao PCC, para a aquisição de drogas, armas e explosivos. E o Trem-Bala tem a atribuição, dentro da mesma doutrina, de realizar o braço armado. Eles passam a possuir essas armas de fogo e fazer a expansão de áreas, para que o PCV domine a venda de drogas.”

MEDIAÇÃO DO PCC

“No início, eles (os grupos locais) tiveram um conflito, até que em um determinado momento, o PCV, orientado pelo PCC, fez um tipo de tratado de paz. O objetivo era ganhar dinheiro. Eles chegaram a conclusão que era melhor parar com a história de um matar o outro. Naquela época, o índice de homicídios no Estado atingiu números alarmantes. Nessa passagem em que houve uma junção de forças entre PCV e o Trem-Bala, foi com o propósito de parar a matança. Ninguém estava ganhando dinheiro e a polícia entrava o tempo todo nas áreas. Então, o Trem-Bala aceitou fazer o controle armado da atividade, mas recebendo dinheiro e tendo independência do PCV. Para que eles não se digladiassem, o PCC fez essa intermediação.”

EXPANSÃO E LUCROS

“Hoje, o PCC se tornou a maior organização criminosa do País e nós sofremos o reflexo disso no Estado. A expansão do PCV e do Trem-Bala é nítida. Estamos vendo o que está acontecendo na Piedade, em outros morros de Vitória, como o Alagoano. Eles buscam a expansão para a guarda de armas e munições de grosso calibre. Cada vez mais o cerco se fecha no Complexo da Penha. Esses fogos que ouvimos todos os dias é a polícia que está entrando. Então, eles estão vendo o risco grande em guardar as armas e drogas naquela região, que eles podem perder.”

MORADORES

“O PCV possui pessoas que trabalham somente para alugar alguns imóveis. Quando não conseguem esse aluguel, mas precisam guardar drogas, expulsam o morador, usam a força. Se não entrar no negócio, acaba sofrendo. Essa questão de expulsar moradores, é com esse o objetivo.”

ESCONDERIJOS

“Esses criminosos são tão organizados que, durante o monitoramento que realizamos aqui, eles usam os radiocomunicadores e alternam o ponto dessas casas, usadas para guardar armas e drogas, no mínimo, umas cinco vezes por dia. Transportam as drogas e armas de um lugar para o outro, usando senha e contrassenha. Muitas vezes a polícia pede mandado de busca e apreensão para determinado local e não tem nada, pois já mudou tudo. É um trabalho de organização criminosa e isso quem ensina é o pessoal de fora. É uma tática ensinada pelo PCC.”

LOCAIS DOMINADOS

“Hoje eles estão espalhados em todo o Espírito Santo. Tem representante, tem atuação em todos os locais. Em Vila Velha, temos a região de Cobi e Terra Vermelha. Eles estão tentando tomar o Morro do Alagoano, em Vitória, Piedade, região da Grande São Pedro, todo o Complexo da Penha, Andorinhas, Itararé, também na Capital, além de Guarapari e Linhares, que eles expandiram bastante.”

INTEGRANTES

 

 

“Posso afirmar que, no Estado, o número é muito superior a esse de 267 que o jornal Folha de São Paulo divulgou (em 27 de julho desde ano). A realidade nossa é pior do que essa. E procurei não só um dado em abstrato, procurei com identidade, nome e RG de todos os integrantes daqui.”

EXTERIOR

“Hoje, nenhuma organização criminosa, com exceção do Comando Vermelho, compra drogas fora do país sem intermediação do PCC. Você tem que ter esse contato com o PCC. Ter o aval para que essa droga chegue até Vitória. As drogas e as armas vêm de fora do país e de todas as formas possíveis. De vez em quando você vê algo apreendido, mas é uma isca. Pegam uma, mas passam outras carregadas. Essa capacidade de articulação e divisão de tarefas é que definem uma organização criminosa. O cumprimento das tarefas de maneira fiel. Há uma estrutura.”

REGRAS

 “Eles seguem a cartilha. É como se fosse uma franquia. Eles podem ter o nome que quiserem. PCV, Trem-Bala, mas desde que sigam as regras e comprem os produtos da matriz, que é o PCC.”

COMUNICAÇÃO

“Nós temos as visitas legalmente instituídas. Nós temos a lei de execução penal que prevê a pessoa receber a visita de familiares, assistência de profissionais, ter o direito de visita. Essa situação acaba possibilitando que essas pessoas, de uma certa forma, se comuniquem, principalmente na forma de catuque (pequenos bilhetes, que muitas vezes são codificados). Eles passam para integrantes da facção criminosa que estão em liberdade as orientações do comando.”

COMBATE AO TRÁFICO

“Uma operação para ser eficaz tem que existir um planejamento. As pessoas que estão envolvidas precisam estar no meio daquela comunidade. Entender as deficiências, problemas e sofrimentos daquela comunidade. Fizemos um projeto em 2003, junto com o gabinete de Gestão Integrada de Vitória, onde o objetivo inicial era identificar e prender todas as lideranças de determinadas comunidades. Nós fizemos isso. Eles estão presos e já condenados. Mas a segunda parte seria uma continuidade de prestação de serviços por parte do município e do Estado, com a construção de creches, postos de saúde e escolas. Dar uma dignidade àquela comunidade. É preciso que o poder público entre de maneira eficaz nesses locais, de modo a cobrir as necessidades da população. Se a polícia fizer operações eternas e o Estado não suprir as necessidades, novas lideranças vão surgir. É preciso um plano que envolva todo o sistema. De 2003 para cá, não houve qualquer avanço.”

SECRETÁRIO NEGA DOMÍNIO DA FACÇÃO NO ESPÍRITO SANTO

Rodrigues: “Não podemos amedrontar a sociedade”
Rodrigues: “Não podemos amedrontar a sociedade”
Foto: Marcelo Prest

“Nós não temos o PCC dominando o tráfico de drogas no Espírito Santo”. A afirmação é do secretário de Segurança Pública, coronel Nylton Rodrigues. Ele negou veementemente que a facção criminosa paulista, considerada a maior do Brasil, tenha alguma influência na criminalidade do Estado.

A informação é diferente da revelada pelo promotor do Ministério Público do Estado, Sérgio Alves, que coordena a Central de Inquéritos da Grande Vitória e o Grupo de Trabalho Especial em Execução Penal. Segundo ele, são os bandidos ligados ao PCC que comandam a guerra do tráfico nos morros de Vitória e até em outros locais do Estado.

Para o secretário de Segurança, no entanto, a informação não é verdadeira. “Nossos serviços de inteligência da Polícia Militar, da Polícia Civil e da Secretaria de Justiça monitoram todas as facções criminosas, inclusive de outros Estados e, principalmente, dos Estados vizinhos. Aqui, no Espírito Santo, o PCC não controla territórios e não enfrenta as nossas forças de segurança”, afirmou.

O secretário reafirmou ainda que o tráfico na capital é comandado e operado por pessoas nativas da capital. “O tráfico aqui é um problema local, das pessoas que nascem aqui e infelizmente acabam se envolvendo no tráfico de drogas. Não procede a informação de que o PCC instala o caos em nossas comunidades”, explicou.

Ainda que negue que a facção paulista tenha destaque na guerra do tráfico, o secretário afirmou que não é possível dizer que não há integrantes do PCC atuando dentro das comunidades. “Pode haver simpatizantes, integrantes. Não digo que não tenha. Mas eles não têm influência, comando e liderança”, disse.

NÚMEROS

Segundo o secretário, a informação de que o PCC está por trás de conflitos entre gangues no Estado pode amedrontar, sem necessidade, a população.

“Temos que ter muita responsabilidade no trato da Segurança Pública. Temos que solucionar os problemas e não amedrontar a sociedade”, disse Rodrigues.

No dia 27 de julho, o jornal Folha de São Paulo publicou uma reportagem onde afirma que 267 integrantes do grupo atuam no Estado.

Questionado sobre os números, o secretário afirmou que oficiou a Polícia Civil paulista, que respondeu dizendo não saber de onde o jornal extraiu os números e afirmando que não tem esse levantamento. “Nós estamos atentos e a população pode confiar”, finalizou.

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