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Presa por venda de diplomas falsos colabora com investigações do MPES

Maria das Graças Lopes Gava ficou presa por um mês e foi solta por colaborar com as investigações

Diploma emitido por um dos institutos investigados encontrado pelo MPES durante operação
Diploma emitido por um dos institutos investigados encontrado pelo MPES durante operação
Foto: MPES/Divulgação

Presa em 25 de julho, Maria das Graças Lopes Gava foi solta por colaborar com as investigações que estão desmontando o esquema de venda de diplomas falsos por instituições de ensino e faculdades do Norte do Espírito Santo, de acordo com informações do Grupo de Atuação Especial e de Combate ao Crime Organizado Norte (Gaeco-Norte), do Ministério Público do Espírito Santo (MPES). A suspeita, que não está excluída de quaisquer processos, havia sido presa na primeira fase da Operação Mestre Oculto.

Enquanto isso, o "Clã Tom" (Everaldo Tom dos Santos, Marinete Assis Cazelli Tom, Rayza Cazelli Tom, Vitório Aloizio Thomasi) - família que comandava maior parte dos trâmites da máfia dos diplomas - está encarcerado nas penitenciárias de Colatina e Linhares, além de Maria Lúcia Ferreguetti Gava e Rosana Valente Zampieri de Castro Alves, intermediadoras no sistema. Ao todo, 11 pessoas foram denunciadas.

O MPES argumenta que os denunciados se associaram para cometerem crimes sistemáticos de estelionato, falsidade ideológica e contra o consumidor, mantendo diversas pessoas em erro. Para tanto, os acusados prometiam a entrega de diplomas de graduação, pós-graduação e cursos livres a professores, sem a necessidade de comparecimento às aulas em faculdades e outras instituições de ensino, inclusive de outros estados, como Minas Gerais.

Marinete, Rayza e Everaldo: integrantes do "Clã Tom" estão presos
Marinete, Rayza e Everaldo: integrantes do "Clã Tom" estão presos
Foto: Reprodução

CERTIFICADO LEVANTOU SUSPEITAS

A associação criminosa foi descoberta após trabalho da Controladoria de Rio Bananal. Ao analisar documentos de graduação, pós-graduação e certificados, apresentados por candidatos a vagas de professores, a Controladoria identificou a incongruência em relação ao local das aulas, os cursos e o local de residência e de trabalho dos respectivos profissionais. A partir dessa suspeita, o MPES aprofundou as investigações.

MAIS CASOS

Segundo o Gaeco-Norte, que investiga organizações criminosas, ainda há a suspeita de envolvimento de outras instituições no esquema, inclusive em outros estados do Brasil.

Na corregedoria da Secretaria de Estado da Educação (Sedu) correm mais de 200 processos contra professores, que são investigados por terem apresentado diploma falso em processo seletivo. Neste ano, a Prefeitura da Serra (PMS) exonerou 300 professores por esse motivo.

ENTENDA

SEDU

Investigações

Na corregedoria do órgão há 208 processos contra professores, que são investigados por terem apresentado diploma falso em processo seletivo, incluindo o de Wemerson Nogueira, conhecido como “Professor Nota 10” - que teve o resultado revelado ontem por A GAZETA. Outro caso é de um curso de mestrado para o qual o educador pagou R$ 40 mil. A corregedoria ainda apura se ele estava envolvido no crime ou foi vítima de estelionatário.

> Professor 'Nota 10' nunca fez faculdade, diz Sedu

PREFEITURA DA SERRA

Exonerações

A administração municipal exonerou 300 professores neste ano sob a acusação de usarem diplomas falsos para ingressar na rede de ensino da cidade.

MESTRE OCULTO

1ª fase

Quatro professores – dois de Linhares, dois de Rio Bananal – foram presos na primeira fase de uma operação do Ministério Público do Estado (MPES), denominada “Mestre Oculto”, acusados de participar de esquema de emissão de diplomas falsos. Além de cumprir os mandados de prisão temporária, documentos foram apreendidos em um polo de uma instituição de ensino. As investigações apontam que pelo menos 150 pessoas usaram diplomas falsos.

2ª fase

Na segunda fase da operação, duas mulheres ligadas a instituições de ensino foram presas. Foram cumpridos dois mandados de prisão temporária, em Linhares e Pinheiros.

ALUNOS DE CURSOS LIVRES E DE PÓS NA MESMA SALA

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A investigação do Ministério Público do Espírito Santo (MPES), que ouviu 150 pessoas, descobriu que os cursos de graduação, pós-graduação e cursos livres oferecidos pelas empresas investigadas eram ministrados em “aulões coletivos”, que aconteciam poucas vezes por mês.

Segundo alunos que receberam diploma da École, uma das instituições investigadas, os poucos encontros não contaram com provas ou atividades avaliativas.

O Gaeco-Norte responsável pela investigação, identificou que os aulões tinham temas amplos e genéricos onde participavam juntos alunos de todos os tipos de curso. A prática serviria para dar legitimidade aos diplomas e enganar os que acreditavam na formação pela qual estavam pagando.

Há casos também de alunos que receberam certificados emitidos por outras instituições sem nunca terem pisado nelas.

Em cumprimento de mandados de busca e apreensão nas instituições investigadas e nas casas dos denunciados, foram encontrados diplomas em branco de várias faculdades do Espírito Santo e de outros Estados.

A investigação mostrou ainda que os denunciados criavam formas de burlar a fiscalização da Sedu. Em e-mails trocados pela organização criminosa, consta que a pasta estava convocando alguns dos alunos e perguntando como fizeram a segunda licenciatura.

Everaldo Tom dos Santos, apontado como um dos líderes da organização, mandou e-mail com a resposta que deveria ser dada à pasta e também encaminhada aos alunos. A mensagem fala que os estudantes participaram de um “programa especial”, com “calendário especial e carga horária especial” em fins de semana e férias.

Ainda segundo o e-mail, a forma de organização do cursos estava dentro das normativas legais e das metodologias aprovadas.

DEFESA VAI ANALISAR PROCESSOS

Os advogados dos denunciados informaram que vão analisar o processo e apresentar uma defesa nos próximos dias. Considerados antes foragidos pela Justiça, Marinete Assis Cazelli Tom e Everaldo Tom dos Santos se apresentaram nesta sexta (24) ao Gaeco-Norte. Ela foi encaminhada para a Penitenciária de Colatina e ele, para a de Linhares.

Marinete não estava na cidade quando a operação foi deflagrada. Ela teve um problema de saúde e o casal se ausentou. Assim que o problema foi resolvido, o casal se apresentou de imediato. Inclusive vamos mostrar os passaportes porque não houve nenhuma intenção de se esquivar
Edison Viana, advogado que faz a defesa de Rayza Cazelli Tom

Edison explicou ainda que vai analisar os autos do processo para depois apresentar uma defesa. “Os acusados vão ter oportunidade no processo de esclarecer tudo e colocar todos os pingos nos is. Vamos mostrar que há muito equívocos e não há nenhuma conduta a ser considerada crime”.

O processo também vai ser examinado pelo presidente da Ordem dos Advogados (OAB-ES), Homero Mafra, que é o advogado de Vitório Aloízio Thomazi, detido em Linhares, e de Maria Lúcia Ferreguetti Gava, que não está presa. “Vou olhar a denúncia, conversar com meus clientes e vamos ver o que será feito. Após a citação dos acusados, temos um prazo de 10 dias para apresentar a defesa”, garante. 

Rodrigo Horta, o advogado de Rosana Valente Zampieri, presa desde o dia 14 de agosto, também informou que vai estudar o processo para apresentar a defesa. “Minha cliente arrumava os professores e cuidava dos encontros presenciais. Vou conversar com ela e semana que vem a gente apresenta uma defesa”, completa. Os demais advogados não foram localizados pela reportagem.

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