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Solista de violão renomado agora vive nas ruas do Centro de Vitória

Elias Belmiro fez sucesso nacionalmente e internacionalmente e tocou com a Orquestra Sinfônica do Espírito Santo

Solista capixaba que vive em situação de rua reencontra Maestro que o regeu em apresentação na Orquestra Sinfônica do Espírito Santo
Solista capixaba que vive em situação de rua reencontra Maestro que o regeu em apresentação na Orquestra Sinfônica do Espírito Santo
Foto: Marcelo Prest

No Centro de Vitória, o banco frio da praça em frente à Igreja do Carmo é a cama de Elias Belmiro, de 50 anos. Quem passa pelo local e o vê desconhece sua história, mas uma breve parada para prosa revela acontecimentos fascinantes de deixar os olhos arregalados. Elias é um grande artista do Espírito Santo referenciado até no Dicionário da Música Brasileira.

Ele se consagrou na história da música como solista de violão, gravou dois CDs instrumentais até com composições próprias e tocou no quinteto do conhecido violonista Maurício de Oliveira. Seu primeiro álbum lançado em 1996, dedicado a Vila-Lobos, teve duas faixas compiladas no CD do grupo Time-Life, obra em que participaram artistas internacionais do porte do compositor e maestro americano John Williams. Elias fez shows até fora do Brasil.

O vício por bebida alcoólica foi o motivo que o levou para as ruas, situação em que permanece há pelo menos quatro anos. Ele se emociona ao relembrar a carreira.

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Abordado pela reportagem, não conteve as lágrimas quando viu o vídeo de sua apresentação no antigo Teatro Carmélia com a Orquestra Sinfônica do Espírito Santo sob a regência do maestro Helder Trefzger, ocorrida em 1992. No vídeo, o moço jovem com cabelos grandes encantava o público com o som dos solos de seu violão.

A lembrança do cabelo não é o motivo do meu choro. É o que eu fazia e que hoje não estou fazendo. Estudei muito, foram quatro anos e meio na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

ENTREVISTA EMOCIONANTE

 

Elias diz ter feito diversos tratamentos contra o vício, mas sem sucesso. “Pensava que eu era o tal com a bebida, mas estava era ferrado. Fiz alguns tratamentos, mas não consegui resolver nada”, completou.

A reportagem levou um violão para Elias, que abraçou o velho amigo e o dedilhou, tocando rapidamente trechos de músicas instrumentais que recordou.

HISTÓRIA

O solista começou a tocar violão ainda criança, influenciado pelo pai que era trombonista da Polícia Militar. Ele tocava só com o dedo polegar, foi quando Maurício de Oliveira o conheceu e o mandou estudar com seu filho, Tião Oliveira, que na época era professor da Escola de Música do Espírito Santo (Fames). “Não usava os outros dedos. E ele disse para eu procurar o filho Tião de Oliveira”,  lembrou Elias.

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Tião Oliveira, seu antigo professor, se lembra bem do aluno excepcional. Ele destaca o talento de Elias e a bela música que fez para seu pai, Maurício de Oliveira, chamada “Mauriciando”.

Elias Belmiro ministrando aula de musicalização para crianças do projeto social Cajun (Caminhando Juntos), em 2005
Elias Belmiro ministrando aula de musicalização para crianças do projeto social Cajun (Caminhando Juntos), em 2005
Foto: Fábio Vicentini | Arquivo GZ

“Elias é um talento. Era para estar do lado dos grandes concertistas. Todo muito o adorava. Tinha uma técnica invejável. Compunha bem. Ele fez uma belíssima música em homenagem a papai. Fico muito triste em saber que o vício o afastou da música”, disse Tião Oliveira.

O Maestro Helder Trefzger, que encontrou Elias após anos sem contato, também destaca o trabalho desenvolvido por ele. Segundo Helder, Elias foi muito bem recomendado por músicos para participar de duas apresentações com violão da Orquestra Sinfônica, na década de 90, e acredita no seu potencial para voltar a trabalhar como professor de violão. Elias atuou por 10 anos na Faculdade de música do Espírito Santo (Fames).

“Passando essa fase espero que ele volte para o ciclo musical. Temos uma escola de violão muito emblemática criada pelo Maurício de Oliveira. Ele tem plenas condições de se aproximar das pessoas, ensinar e passar todo esse talento”, disse o Maestro.

Ainda fora de tratamento contra o vício, Elias diz que está disposto tentar retomar sua vida e a música. "Já assumi o desafio".

OUÇA UM DOS TRABALHOS DE ELIAS

 

A HISTÓRIA DE ELIAS

Quando começou a tocar?

Comecei a tocar aos 15 anos no Bairro de Lourdes, em Vitória. Tinha um festivalzinho de música e eu era autodidata, não tinha estudado. A primeira música que toquei foi a peça “A Catedral”, que tirei tudo de ouvido.

E depois?

Quis procurar algo melhor, e fui atrás do Maurício de Oliveira. Na casa dele, quando morava na Praia do Canto, em Vitória. Eu tocava só com o dedo polegar, não usava os outros dedos. Foi quando ele mandou eu procurar o filho dele, Tião de Oliveira, que começou a me dar uns toques legais.

O que o influenciou a beber?

Eu me achava o tal com bebida. Só que eu estava era ferrado. Já busquei ajuda, era para estar em São Paulo, mas o tratamento não resolveu nada.

Como foi viver na rua?

A bebida, né. Virei alcoólatra e a minhas prioridades passaram a ser só o álcool.

Pretende virar essa página?

Já assumi esse desafio. Não estou falando isso porque vocês (a reportagem) vieram atrás de mim. Sinto saudade do que fazia. Hoje estou um pouco enferrujado, há mais de dois anos que não toco, e é o que gosto de fazer.

 

 


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