Perigo na estrada

BR 101: Trecho mais perigoso da rodovia é no Espírito Santo

Taxa de mortes supera a nacional, conforme mostra levantamento do Gazeta Online a partir de dados da Polícia Rodoviária Federal

Vilmara Fernandes

Publicado em 19/09/2018 às 05h49

Natalia Bourguignon

Publicado em 19/09/2018 às 05h49

Eduardo Dias

Publicado em 19/09/2018 às 05h49

Os números da violência nas estradas, que dizima milhares por ano, revelam uma trágica face da BR 101: dos onze estados por ela percorridos, é no Espírito Santo que está a parte mais letal da rodovia. Sua taxa de mortalidade no trecho capixaba é de mais de quatro mortes em acidentes a cada cem mil habitantes (4,73/100 mil habitantes).

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O valor supera até a taxa nacional, que leva em consideração a soma das mortes de todas as rodovias federais do Brasil, e que é de mais de três mortos a cada cem mil habitantes (3,85/100 mil habitantes).

Esse é um dos dados constatados pelo núcleo de Jornalismo de Dados da Rede Gazeta, que mapeou, a partir de informações da Polícia Rodoviária Federal (PRF), todos os acidentes ocorridos em estradas federais de janeiro de 2017 até maio de 2018. É possível acessar o mapa e navegar por estados, rodovias, tipos de acidentes e períodos clicando aqui. O mapa será atualizado sempre que a base de informações da PRF sofrer alterações.

É um perigo diário nos 460 quilômetros que a rodovia percorre no Estado, marcado por tragédias sempre pontuadas por mortes e feridos. E que deixam marcas difíceis de serem superadas. “Vivo um dia de cada vez, porque quando uma pessoa é arrancada da sua vida de uma hora para outra, é muito difícil continuar a viver”, relata a analista de Recursos Humanos Fernanda Endlich.

O irmão dela era um dos membros do Grupo Folclórico Bergfreunde, de Domingos Martins. Em setembro do ano passado o ônibus em que viajavam foi atingido por um caminhão de placas de granito. Onze morreram naquele dia e outros nove ficaram feridos. “Toda vez que passo perto de um caminhão transportando pedra, fico tensa e emocionada”, conta a jovem, em lágrimas.

A preocupação da analista tem fundamentos. Se compararmos ainda a BR 101 com outra rodovia federal, a BR 116, que segue quase paralelo à capixaba, veremos que as estatísticas voltam a assustar. A taxa de letalidade da principal rodovia federal capixaba chega a ser três vezes e meia maior do que a do trecho mais perigoso da BR 116, que fica no estado da Bahia, e que registra mais de uma morte a cada cem mil habitantes (1,30/100 mil habitante). A BR 116 percorre dez estados, não incluindo o Espírito Santo, e junto com a BR 101, mantém a liderança entre as rodovias federais que mais matam no país.

Prova disso é o total de vítimas de acidentes que perderam as suas vidas nestas duas rodovias, nos últimos 17 meses (janeiro de 2017 a maio de 2018). Foram 2.025 pessoas. O número equivale a 25% de todas as mortes registradas nas estradas federais brasileiras, no período, e que foi de 8.038. Embora as mortes em números absolutos, registradas neste mesmo período em toda a BR 116 (1.039), sejam maiores do que as de toda a BR 101 (986), a letalidade nesta última é maior.

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Para se chegar a extensão dessa tragédia foi calculada a taxa de mortalidade de cada trecho destas duas rodovias, considerando além dos acidentes, a população de cada estado. O objetivo é permitir a comparação entre locais com diferentes tamanhos de população e o impacto das mortes.

Foram utilizados os dados estatísticos da Polícia Rodoviária Federal (PRF) relativos a 17 meses (janeiro de 2017 a maio de 2018), obtidos pela reportagem, e as estimativas demográficas atualizadas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Um rastro de violência que, no caso da BR 101, tem início do Rio Grande do Norte, onde ela começa, e vai até o seu final, no Rio Grande do Sul. O ranking da taxa de mortalidade mostra que o primeiro lugar é ocupado pelo Espírito Santo (4,73 mortes/cem mil habitantes). Na sequência vem Santa Catarina (2,50 mortes/cem mil habitantes) e Sergipe (1,49 mortes/cem mil habitantes).

Se a análise contemplar ainda os últimos onze anos, é possível verificar que a taxa de mortalidade na BR 101, no Espírito Santo, já foi muito pior. Em 2011, por exemplo, ela chegou a 6,5 mortes /cem mil habitantes, ou seja, seis mortos a cada cem mil habitantes. A menor taxa, no período avaliado, foi registrado em 2015, um ano após a cobrança do pedágio, quando ela chegou a 3,05 mortes /cem mil habitantes. Depois voltou a subir gradualmente até chegar ao número atual.

Se for considerado apenas os números absolutos das mortes em todas as rodovias federais, as posições ocupadas pelos estados são diferentes no ranking da morte, e quem aparece em primeiro lugar é Minas Gerais, com 1.111 mortos. O Espírito santo está na 10ª colocação, com 239 mortos.

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Quando o destaque é somente para a BR 101, a Bahia registrou o maior número de mortes, em número absolutos (208), seguida por Espírito Santo (188) e Santa Catarina (177). Mas a população da Bahia é quase quatro vezes maior do que a capixaba, o que dilui o impacto das mortes e faz cair a taxa de mortalidade.

 

Em todas as rodovias federais que cortam o Estado, morreram nos 17 meses da pesquisa, um total de 239 pessoas. Destas, 188 foram somente da BR 101. São 19% de todas as mortes registras nesta mesma rodovia no Brasil, cujo total é de 986.

Para o superintendente da PRF no Estado, Wyllis Lyra, os números refletem uma característica da BR 101 que a diferencia das demais rodovias federais, que é exatamente o que nela ocorre. “É uma das principais rodovias do País, que o percorre de Norte a Sul, tem portanto maior dimensão, mais veículos e condutores por ela trafegando, o que, por consequência, acaba gerando mais acidentes, muitos com feridos e mortos”, explica.

Quanto à periculosidade da BR 101, Lyra avalia que ela possui outros trechos mais perigosos, em outros estados, como na Bahia, em Sergipe e Santa Catarina. A diferença, destaca, é que muitos deles já passaram por intervenções estruturais, com duplicações que diminuíram os riscos. “No Espírito Santo também precisamos evoluir para termos estes riscos minimizados”, diz, destacando ainda que só a duplicação não porá fim as mortes, mas que é preciso ainda mudança na atitude dos condutores.