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Implante inédito de coração artificial é realizado no Espírito Santo

Dispositivo bombeia o sangue no organismo de paciente, que saiu de Petrópolis, no rio para fazer procedimento na Serra

Silvestre Pereira da Silva, de 56 anos
Silvestre Pereira da Silva, de 56 anos
Foto: Marcelo Prest

“Sou um milagre de Deus.” É assim que o aposentado Silvestre Pereira da Silva, de 56 anos, se define. Quando deu entrada no hospital, na Serra, com sérios problemas cardíacos, há cinco meses, nem a equipe médica acreditava que ele sobreviveria. Hoje, ele é o primeiro paciente a receber um coração artificial que bombeia sangue para todo o corpo no Estado.

“Ele se sentiu mal e foi até sozinho para o hospital. Na hora que deu entrada, já foi direto para a UTI. Quando cheguei no Espírito Santo me informaram que ou Silvestre colocava o dispositivo ou ele iria direto para o cemitério”, lembrou a esposa do aposentado, Clea Lopes Pinto, 50.

O casal mora com as três filhas em Petrópolis, na região Serrana do Rio de Janeiro. Mas Silvestre veio ao Espírito Santo para tentar vender um carro, que tinha anunciado em um site de vendas na internet. Muitos compradores capixabas demonstraram interesse e, portanto, ele veio até o Estado concluir a venda. Acabou passando mal e tendo que ser atendido em terras capixabas.

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Silvestre já teve três infartos. Assim que chegou no Hospital Metropolitano, na Serra, ele passou por uma cirurgia de cateterismo. Mesmo assim o aposentado continuava sentindo fortes dores e falta de ar. Nesse momento, o paciente começou a contar com um balão intra-aórtico – um dispositivo de assistência circulatória mecânica temporária – para facilitar a função de bomba do coração, mas a medida continuava sendo insuficiente. Com o coração fraco e devido aos problemas anteriores, a equipe da unidade optou pela implantação do coração artificial ao invés do transplante de coração.

Enquanto aguardava pela liberação do procedimento, Silvestre passou por outra complicação: ele entrou em coma induzido por oito dias. “Foi uma luta. Procurei o Ministério Público e acionei a Justiça para que o plano de saúde cobrisse todas as despesas. Quando finalmente conseguimos, meu marido estava muito frágil, mas mesmo assim decidimos arriscar”, comentou Clea.

Segundo o médico responsável pela cirurgia, Assad Miguel Sassine, o dispositivo é preparado para ficar no paciente para sempre. “Acreditamos que a tecnologia vai melhorar o quadro orgânico do coração do paciente permitindo que seja realizado um transplante futuramente. Daqui a seis meses vamos fazer uma nova avaliação e assim podemos colocar o paciente na lista para receber uma doação do órgão”, explicou.

FUNCIONAMENTO


O dispositivo que bombeia o sangue no organismo foi implantado no ventrículo esquerdo do coração de Silvestre. Cabos ligam a bomba até um aparelho digital que fornece energia para o funcionamento. A saída do cabo é por meio de uma pequena abertura na barriga do paciente. A bateria fica do lado de fora e precisa ser recarregada a cada 12 horas.

Preocupados com o novo equipamento, Clea e Silvestre se assustam a cada novo alarme disparado pelo computador portátil. Além de avisar quando a bateria está acabando, a tecnologia também apita quando é preciso que o paciente beba mais água.

Agora, de acordo com Assad, Silvestre não vai mais poder entrar no mar nem em piscina. Para tomar banho, o equipamento tem uma capa de proteção. “É preciso que o paciente tenha cuidado com o orifício de saída do cabo. O curativo tem que fazer sempre direitinho e evitar que molhe”, explicou o médico, acrescentando que agora ele pode levar uma vida normal.

Na próxima segunda-feira, Silvestre vai receber alta do hospital e uma equipe médica do Rio de Janeiro vai passar a cuidar dele de lá.

ENTREVISTA

Aposentado, Silvestre Pereira da Silva, de 56 anos, vai receber alta na próxima segunda-feira. Ele contou como foi enfrentar os últimos meses e a esperança para retomar a vida daqui para frente.

Você achou que não ia sobreviver?

Eu achei e todo o hospital achou que eu não ia aguentar. Meu estado ficou muito crítico. Já era para eu estar em casa, mas tive complicações de parada respiratória e cardíaca e aí adiou um pouco. Em 15 dias a minha cicatriz ficou normal, cicatrizou muito rapidamente.

Como foi a cirurgia?

De certa forma a cirurgia foi tranquila, um sucesso. A equipe médica e de enfermagem foi muito carinhosa. O procedimento foi fundamental na minha sobrevivência.

Como foram os dias nos hospital?

Estou comendo bastante dentro do possível porque eu perdi muita massa muscular, mas ainda sinto pouco apetite.

Como é usar o aparelho?

Eu recebi treinamentos, mas os alarmes são escandalosos. Avisa até quando tenho que beber água. Toda vez que dispara é um susto.

Hoje o que você sente?

Eu estou muito emocionado. Eu sou um milagre de Deus. Muita campanha de oração foi feita pra mim tanto no hospital como as pessoas de fora, meus amigos e minha família. Acho que isso que ajudou na minha recuperação.

E como vai ser os próximos dias?

Vou voltar a caminhar, andar de bicicleta. Só não posso entrar na piscina e no mar. Vou ter que ficar só olhando.

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